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Ulisses

ULISSES — Odisseu, no grego — é o rei de Ítaca, filho de Laertes e de Anticleia, marido de Penélope e pai de Telêmaco. Homero deu-lhe dois poemas. Na Ilíada ele é o orador, o embaixador e o homem das operações noturnas; na Odisseia é o náufrago que leva dez anos para voltar de uma guerra que durou outros dez, e chega sozinho, sem um companheiro vivo. A arma dele é a palavra: o poema mostra-o a mentir ao ciclope, aos feácios, ao porqueiro, ao pai e à mulher, e num desses momentos interrompe a cena para avaliar a qualidade da mentira. Depois de Homero, os atenienses puseram-no no palco como político, e em Sófocles e em Eurípides quem ensina um rapaz a trair e quem exige o sacrifício de uma menina é ele. Platão escreveu um diálogo inteiro para discutir se um homem assim é melhor ou pior do que Aquiles.

O nome que o avô lhe deu

O nome vem do avô materno. Autólico, pai de Anticleia, foi ver a filha em Ítaca depois de o neto nascer, e a ama pôs a criança nos joelhos dele e pediu que escolhesse o nome. Ele escolheu a partir do que sentia pelos outros.

Então Autólico respondeu-lhe e disse: «Genro meu e filha minha, dai-lhe o nome que eu disser. Uma vez que cheguei aqui como alguém que se irou com muitos, homens e mulheres, pela terra fecunda, seja Odisseu o nome pelo qual o menino for chamado. E, quando for homem feito e vier à grande casa da família da mãe, no Parnaso, onde estão os meus bens, dar-lhe-ei uma parte e mandá-lo-ei de volta contente.»

Homero, Odisseia 19.406 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

Odysseús liga-se ao verbo odýssomai, causar dor ou irar-se. O nome serve nos dois sentidos, o de quem odeia e o de quem é odiado, e Homero usa-o com essa carga no poema inteiro.

O avô que o batiza é descrito numa linha só, na passagem em que a cicatriz aparece.

…quando Odisseu fora ao Parnaso ver Autólico e os filhos de Autólico, o nobre pai de sua mãe, que superava todos os homens em ladroagem e em juramentos. Foi um deus quem lhe deu essa arte, o próprio Hermes, a quem ele costumava queimar oferendas agradáveis, coxas de cordeiros e de cabritos; e por isso Hermes o acompanhava de bom grado.

Homero, Odisseia 19.394 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

Ver Hermes. O dom vem por via divina, e o poema coloca-o duas gerações antes de Odisseu.

O de muitos recursos

O primeiro verso da Odisseia não diz o nome dele. Diz uma qualidade, e o nome só aparece muito depois.

Fala-me, ó Musa, do homem de muitos recursos, que muito vagueou depois de haver saqueado a cidadela sagrada de Troia. De muitos homens viu as cidades e conheceu o pensamento, e muitas foram as dores que sofreu no coração sobre o mar, lutando por conservar a própria vida e o regresso dos companheiros.

Homero, Odisseia 1.1 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

Mesmo assim não salvou os companheiros, por muito que o desejasse, pois pereceram pela própria loucura — insensatos, que devoraram o gado de Hélio Hipérion; e o deus tirou-lhes o dia do regresso.

Homero, Odisseia 1.6 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

Ver Hélio. O proêmio conta o fim do resgate antes de contar uma linha da viagem.

Quando ele próprio se apresenta, na corte dos feácios, o que declara primeiro é a fama.

Primeiro direi o meu nome, para que também vós o conheçais, e para que eu, mais tarde, se escapar ao dia impiedoso do destino, possa ser vosso hospedeiro, embora more numa casa que fica longe. Sou Odisseu, filho de Laertes, conhecido entre os homens por toda a espécie de ardis, e a minha fama chega ao céu. Moro na bem visível Ítaca, onde há um monte, o Nérito, coberto de florestas ondulantes, à vista de longe.

Homero, Odisseia 9.19 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

O retrato que Antenor faz dele

Na Ilíada, Helena e Príamo olham da muralha para o exército grego e vão nomeando os chefes. Antenor, que recebera Odisseu em Troia numa embaixada anterior à guerra, descreve o que viu em casa.

…ficava de pé e olhava para baixo, com os olhos fixos no chão, e não movia o bastão nem para trás nem para a frente, mas segurava-o rígido, com o ar de um homem sem entendimento; terias julgado que era um sujeito rude e nada mais do que um tolo.

Homero, Ilíada 3.216 (trad. Augustus Taber Murray, 1924)

Mas, quando ele soltava do peito a sua grande voz, e palavras como flocos de neve num dia de inverno, então nenhum outro mortal podia competir com Odisseu; e então já não estranhávamos o aspecto de Odisseu.

Homero, Ilíada 3.222 (trad. Augustus Taber Murray, 1924)

Ver Helena. Quem faz o retrato é o troiano que o hospedou, e o que ele guardou na memória foi a distância entre o homem parado e o homem a falar.

O bastão, e o voluntário para a noite

O mesmo bastão aparece um canto antes, usado contra um soldado. Tersites tinha insultado Agamêmnon diante da assembleia reunida, e Odisseu bate-lhe em público.

Assim falou Odisseu, e com o bastão bateu-lhe nas costas e nos ombros; e Tersites encolheu-se, e uma grossa lágrima caiu-lhe, e um vergão de sangue subiu-lhe nas costas, por baixo do bastão de ouro. Então sentou-se, e o medo veio sobre ele, e, ferido pela dor, com um olhar impotente, limpou a lágrima. Mas os aqueus, embora aborrecidos no coração, romperam num riso alegre.

Homero, Ilíada 2.265 (trad. Augustus Taber Murray, 1924)

Ver Agamêmnon. No canto 10, quando é preciso entrar de noite no acampamento inimigo, Diomedes pede um companheiro e vários se oferecem de uma vez.

Assim falou ele, e muitos foram os que quiseram seguir Diomedes. Quiseram os dois Ajantes, escudeiros de Ares, quis Meríones, e muito quis o filho de Nestor, quis o filho de Atreu, Menelau, famoso pela lança, e bem disposto estava também o firme Odisseu a esgueirar-se para o meio dos troianos, pois sempre foi ousado o ânimo no seu peito.

Homero, Ilíada 10.246 (trad. Augustus Taber Murray, 1924)

A loucura fingida

A guerra começa com ele a tentar não ir. A Epítome de Pseudo-Apolodoro conta a cena, e conta também quem a desmontou.

Mas ele, não querendo ir para a guerra, fingiu-se louco. Contudo Palamedes, filho de Náuplio, provou que a loucura era fingida; e, quando Ulisses fazia de doido, Palamedes seguiu-o e, arrancando Telêmaco do colo de Penélope, sacou da espada como se fosse matá-lo. E, com medo pelo menino, Ulisses confessou que a loucura era fingida, e foi para a guerra.

Pseudo-Apolodoro, Epítome 3.7 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

Ver Penélope. O que quebra o fingimento é o filho recém-nascido posto em perigo diante dele.

A carta enterrada com o ouro

Palamedes morre por causa disso, e a Epítome descreve o método com que morreu.

Tendo capturado um prisioneiro frígio, Ulisses obrigou-o a escrever uma carta de teor traiçoeiro, como se enviada por Príamo a Palamedes; e, tendo enterrado ouro nos aposentos de Palamedes, deixou cair a carta no acampamento. Agamêmnon leu a carta, encontrou o ouro e entregou Palamedes aos aliados para ser apedrejado como traidor.

Pseudo-Apolodoro, Epítome 3.8 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

A carta é escrita por um prisioneiro, o ouro é enterrado por Ulisses e a sentença é dada por Agamêmnon.

O mendigo dentro de Troia

Antes do cavalo, ele entra sozinho na cidade sitiada. Quem conta a história é Helena, em Esparta, à mesa, diante do filho de Odisseu.

Marcando o próprio corpo com golpes cruéis, e lançando aos ombros um trapo miserável, entrou, com aparência de escravo, na cidade de largas ruas do inimigo; e escondeu-se sob a figura de outro, um mendigo, ele que não era nada disso junto às naus dos aqueus.

Homero, Odisseia 4.244 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

Só eu o reconheci naquele disfarce, e interroguei-o, mas ele, na sua astúcia, procurou escapar-me.

Homero, Odisseia 4.250 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

O disfarce inclui ferir-se a si mesmo, e é a mesma técnica que ele usará em casa, vinte anos depois.

O cavalo

Na corte dos feácios, ainda sem dizer quem é, Odisseu pede ao aedo Demódoco que cante um assunto escolhido por ele.

Mas vamos, muda de tema e canta a construção do cavalo de madeira, que Epeu fez com a ajuda de Atena, o cavalo que outrora Odisseu levou até à cidadela como uma armadilha, depois de o encher com os homens que saquearam Ílion.

Homero, Odisseia 8.492 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

A Epítome dá a parte técnica, a contagem dos homens e a inscrição gravada na madeira.

Mas depois inventou a construção do Cavalo de Madeira e sugeriu-a a Epeu, que era arquiteto. Epeu abateu madeira no Ida e construiu o cavalo com o interior oco e uma abertura nos flancos. Ulisses persuadiu cinquenta (ou, segundo o autor da Pequena Ilíada, três mil) dos mais valentes a entrar nele, enquanto os restantes, caída a noite, queimariam as tendas e se fariam ao mar.

Pseudo-Apolodoro, Epítome 5.14 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

Seguiram o conselho de Ulisses e meteram no cavalo os mais valentes, depois de o nomearem chefe e de gravarem no cavalo uma inscrição que dizia: «Pelo seu regresso a casa, os gregos dedicam esta oferenda de agradecimento a Atena.» Depois queimaram as próprias tendas e, deixando Sínon, que devia acender um facho como sinal, fizeram-se ao mar de noite e ficaram ao largo de Tênedos.

Pseudo-Apolodoro, Epítome 5.15 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

Ver Atena. A inscrição é uma oferenda religiosa, e serve de disfarce à máquina de guerra que está por baixo dela.

O canto que o fez chorar

Demódoco canta o que lhe foi pedido, e Odisseu, que pediu o canto, chora. Homero explica o choro com uma comparação tirada do lado dos vencidos.

Este canto cantou o famoso aedo. Mas o coração de Odisseu derreteu-se, e as lágrimas molharam-lhe as faces por baixo das pálpebras. E como uma mulher chora e se lança sobre o marido querido, que caiu diante da sua cidade e do seu povo, tentando afastar da cidade e dos filhos o dia impiedoso; e, ao vê-lo a morrer e a arquejar, agarra-se a ele e grita alto, enquanto por trás os inimigos lhe batem nas costas e nos ombros com as lanças e a levam para o cativeiro, para o trabalho e a dor, e de tanta pena as faces se lhe consomem…

Homero, Odisseia 8.523 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

…assim Odisseu deixava cair lágrimas de pena por baixo das sobrancelhas.

Homero, Odisseia 8.531 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

A cidade da comparação é uma cidade tomada, e quem chora nela é a mulher de um morto. Homero usa essa imagem para descrever o homem que tomou Troia.

A imortalidade recusada

Na ilha de Ogígia, quando os deuses já mandaram soltá-lo, Calipso ainda lhe faz uma oferta e compara-se com a mulher que o espera.

Se soubesses no coração toda a medida das dores que te cabe cumprir antes de chegares à tua terra, ficarias aqui e guardarias esta casa comigo, e serias imortal, apesar de todo o teu desejo de ver a mulher por quem anseias dia após dia. E declaro que não lhe sou inferior nem em forma nem em estatura, pois de modo nenhum é próprio que as mortais rivalizem com as imortais em figura ou em beleza.

Homero, Odisseia 5.209 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

Então Odisseu, o de muitos ardis, respondeu-lhe: «Poderosa deusa, não te enfureças comigo por isto. Sei muito bem, por mim mesmo, que a sensata Penélope é inferior a ti no aspecto e na estatura, pois ela é mortal e tu és imortal e sem velhice. Mas, mesmo assim, eu desejo e anseio, dia após dia, chegar a casa e ver o dia do meu regresso.»

Homero, Odisseia 5.215 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

Ver Calipso e Circe. Calipso oferece a condição divina; Circe oferece um ano de mesa posta; ele parte das duas.

O que as sereias ofereciam

O canto das sereias está transcrito no poema, e o que ele oferece é conhecimento.

«Vem cá, ó glorioso Odisseu, grande glória dos aqueus, e detém a tua nau para ouvires a voz de nós duas. Pois nunca ainda homem algum passou a remar por esta ilha na sua nau negra sem ter ouvido a doce voz dos nossos lábios. Pelo contrário, tem prazer nela e segue caminho mais sábio.»

Homero, Odisseia 12.184 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

«Pois sabemos tudo o que os argivos e os troianos sofreram na ampla Troia pela vontade dos deuses, e sabemos tudo o que acontece sobre a terra fecunda.»

Homero, Odisseia 12.191 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

Ver Sirenes. O que elas põem à frente dele é a matéria da Ilíada, a guerra de onde ele vem, e depois disso tudo o resto.

O remo, e a pá de joeirar

No país dos mortos, o adivinho tebano dá-lhe o roteiro do regresso, e no fim acrescenta uma viagem que não termina em Ítaca.

«Mas, se os molestares, então prevejo a ruína para a tua nau e para os teus companheiros; e, mesmo que tu próprio escapes, chegarás tarde e mal a casa, depois de perderes todos os companheiros, numa nau que é de outro, e encontrarás desgraças em tua casa — homens soberbos que te devoram os bens, cortejando a tua mulher divina e oferecendo presentes de pretendentes.»

Homero, Odisseia 11.114 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

«Mas, quando tiveres matado os pretendentes na tua casa, seja com astúcia, seja abertamente com a espada afiada, então parte, levando um remo bem-feito, até chegares a homens que nada sabem do mar e não comem alimento temperado com sal; homens que nada sabem de naus de faces de púrpura, nem de remos bem-feitos, que são as asas das naus.»

Homero, Odisseia 11.121 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

«E dir-te-ei um sinal bem claro, que não te há de escapar: quando outro viandante, ao encontrar-te, disser que levas uma pá de joeirar no ombro robusto, então finca no chão o teu remo bem-feito e faz belas oferendas ao senhor Poseidon — um carneiro, um touro e um javali que cobre porcas — e parte para casa, e oferece sagradas hecatombes aos deuses imortais que possuem o vasto céu, a cada um pela ordem devida.»

Homero, Odisseia 11.128 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

Ver Tirésias e Poseidon. A viagem só acaba num lugar onde ninguém sabe o que é um remo, e o sinal de chegada é o erro de um desconhecido.

A deusa que o admira por mentir

Deixado a dormir na praia pelos feácios, Odisseu acorda em Ítaca sem reconhecer a terra e conta uma história falsa ao pastor que encontra. O pastor é Atena.

Assim falou ele, e a deusa de olhos brilhantes, Atena, sorriu e acariciou-o com a mão, e mudou-se na forma de uma mulher bela, alta e hábil em obras gloriosas. E disse-lhe estas palavras aladas: «Astuto e velhaco teria de ser quem te ultrapassasse em toda a espécie de engano, ainda que fosse um deus a enfrentar-te. Homem audaz, hábil em conselho, incansável no embuste: nem mesmo na tua terra ias deixar o engano e as histórias enganosas, que amas do fundo do coração.»

Homero, Odisseia 13.291 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

«Mas vamos, deixemos de falar nisto, que ambos entendemos de manha: tu és de longe o melhor de todos os homens em conselho e em palavra, e eu, entre todos os deuses, sou famosa pela sabedoria e pela astúcia.»

Homero, Odisseia 13.296 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

Ver Atena. A deusa da inteligência prática apresenta-se dizendo que os dois têm o mesmo ofício.

A mentira elogiada em cena

Disfarçado de mendigo dentro da própria casa, ele conta a Penélope uma história inventada: teria hospedado o marido dela em Creta, a caminho de Troia. Ela chora, e o poeta interrompe a cena para avaliar o desempenho.

«…Ali, durante doze dias, os nobres aqueus ficaram, pois o forte Vento Norte os prendeu e não os deixava pôr os pés em terra, porque algum deus irado o levantara. Mas ao décimo terceiro dia o vento caiu e eles fizeram-se ao mar.» Falou, e fez com que as muitas falsidades da sua história parecessem verdade; e, enquanto ela escutava, as lágrimas corriam-lhe.

Homero, Odisseia 19.203 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

Ver Penélope. O verso mede o efeito da mentira sobre quem a ouve, e quem ouve é a mulher dele, a chorar por notícias falsas do marido que está sentado à sua frente.

A cicatriz

Nessa mesma noite, a ama velha lava-lhe os pés, e ele senta-se longe da lareira, virado para a escuridão.

Assim ela se aproximou e começou a lavar o seu senhor, e logo reconheceu a cicatriz da ferida que um javali lhe fizera muito tempo antes, com a alvura da presa, quando Odisseu fora ao Parnaso ver Autólico e os filhos de Autólico.

Homero, Odisseia 19.392 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

O disfarce resiste a todos os que o ouvem falar e cai com a primeira pessoa que lhe toca no corpo.

O cão Argos

À porta do palácio, deitado sobre o estrume que os servos ainda não levaram para os campos, está um cão que ele criou antes de partir.

E um cão que ali estava deitado levantou a cabeça e apurou as orelhas: Argos, o cão de Odisseu, de coração firme, que ele próprio criara outrora, mas de que não teve alegria, porque antes disso partiu para a sagrada Ílion. Nos tempos passados os moços costumavam levá-lo a caçar cabras bravas, veados e lebres; mas agora jazia abandonado, longe do dono, no estrume fundo de mulas e de bois, amontoado diante das portas.

Homero, Odisseia 17.291 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

Ali jazia o cão Argos, cheio de parasitas; e mesmo assim, quando percebeu Odisseu de pé ali perto, abanou a cauda e baixou as duas orelhas, mas já não teve força para se aproximar do dono. Então Odisseu olhou para o lado e limpou uma lágrima, escondendo-a com facilidade de Eumeu.

Homero, Odisseia 17.300 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

Dizendo isto, entrou na casa imponente e foi direito à sala, para junto dos pretendentes soberbos. Quanto a Argos, o destino da morte negra apanhou-o logo que viu Odisseu, no vigésimo ano.

Homero, Odisseia 17.327 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

É o primeiro reconhecimento de Ítaca, acontece sem uma palavra e custa ao herói a única lágrima que ele precisa esconder.

O arco afinado como uma lira

A prova do arco é a última cena antes da matança. Nenhum dos pretendentes consegue armar a arma; quando chega a vez do mendigo, Homero compara o gesto ao de um músico.

Assim falaram os pretendentes; mas Odisseu, o de muitos ardis, logo que ergueu o grande arco e o examinou de todos os lados — assim como quando um homem hábil na lira e no canto estica sem esforço a corda em torno de uma cravelha nova, prendendo em cada ponta a tripa de ovelha torcida —, assim, sem esforço, armou o grande arco.

Homero, Odisseia 21.406 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

E segurou-o na mão direita e experimentou a corda, que cantou docemente ao seu toque, com um som de andorinha. Sobre os pretendentes caiu então uma grande angústia, e a cor mudou-lhes nos rostos, e Zeus trovejou alto, mostrando os seus sinais.

Homero, Odisseia 21.411 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

Então Odisseu, o de muitos ardis, despiu os trapos e saltou para o grande limiar com o arco e a aljava cheia de flechas, e derramou as flechas velozes ali mesmo diante dos pés, e falou aos pretendentes: «Eis que enfim se acabou esta prova decisiva; e agora quanto a outro alvo, que homem nenhum jamais acertou, verei se consigo atingi-lo, e que Apolo me conceda a glória.» Falou, e apontou uma flecha amarga a Antínoo.

Homero, Odisseia 22.1 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

Entre a imagem do músico e a primeira flecha há uns poucos versos.

A cama de oliveira

Penélope não aceita o reconhecimento depois da matança. Diante dele, manda que tirem a cama do quarto e a ponham cá fora, e é isso que o faz falar.

«Mulher, esta é uma palavra amarga que disseste. Quem me pôs a cama noutro lugar? Difícil seria a alguém, por mais hábil que fosse, a não ser que um deus viesse ele mesmo e a mudasse de sítio à sua vontade. Mas de homens não há mortal vivo, por mais novo e forte, que a arrancasse com facilidade do seu lugar, pois há um grande sinal trabalhado na cama lavrada, e fui eu que a fiz, e mais ninguém. Um arbusto de oliveira de folhas compridas crescia dentro do pátio, forte e vigoroso, e a sua grossura era como a de uma coluna. À volta dele construí o meu quarto, até o acabar, com pedras bem juntas, e cobri-o bem, e pus-lhe portas de duas folhas, bem ajustadas.»

Homero, Odisseia 23.188 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

Assim falou ele, e os joelhos dela afrouxaram onde estava sentada, e o coração derreteu-se-lhe ao reconhecer os sinais seguros que Odisseu lhe dera. Então, desfeita em lágrimas, correu direita a ele e lançou-lhe os braços ao pescoço, e beijou-lhe a cabeça, e disse: «Não te enfureças comigo, Odisseu, pois em tudo o mais foste sempre o mais sensato dos homens.»

Homero, Odisseia 23.204 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

Ver Penélope. A armadilha desta cena é dela, e o homem que mente a toda a gente cai nela por causa de uma cama.

A carta de Penélope

Ovídio abre as Heroides com uma carta escrita por Penélope a um marido que ainda não voltou. A tradução inglesa que o corpus guarda é setecentista.

Caro Ulisses, a tua Penélope manda-te esta carta, a ti que tanto tardas a voltar para casa; não respondas nada por escrito: vem tu mesmo. Troia já não existe, aquela cidade tão justamente odiosa às mulheres gregas: mal valiam Príamo e todo o seu reino tamanha agitação. Ah, quem me dera que o infame adúltero, ao partir com a frota para a Lacedemônia, tivesse sido tragado pelos mares furiosos! Não teria eu ficado deitada, fria, numa cama solitária.

Ovídio, Heroides 1.1 (trad. inglesa anónima, 1813)

Ver Penélope. A primeira linha do livro é um pedido para que ele não escreva.

A morte que veio do mar

A profecia do canto 11 termina com a forma da morte dele, e é a última coisa que o adivinho diz.

«E a morte virá a ti mesmo longe do mar, uma morte tão suave que te há de abater quando estiveres vencido por uma velhice lustrosa, e o teu povo há de viver em prosperidade à tua volta. Nisto te disse a verdade.»

Homero, Odisseia 11.134 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

O grego do verso é θάνατος δέ τοι ἐξ ἁλὸς αὐτῷ. A expressão ἐξ ἁλός pode ser lida como «para fora do mar» ou como «longe do mar», e a tradução inglesa que esta página cita escolheu a segunda. A continuação da história, contada fora de Homero, escolheu a primeira.

E Circe, filha de Hélio, filho de Hipérion, amou o firme Odisseu e deu à luz Ágrio e Latino, irrepreensível e forte.

Hesíodo, Teogonia 1011 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

…e também deu à luz Telégono, pela vontade de Afrodite de ouro.

Hesíodo, Teogonia 1014 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

Ver Circe. É esse filho, criado na ilha dela, que vai procurar o pai.

Quando Telégono soube por Circe que era filho de Ulisses, embarcou à procura dele. E, tendo chegado à ilha de Ítaca, levou algum gado; e, quando Ulisses o defendeu, Telégono feriu-o com a lança que trazia na mão, guarnecida com o ferrão de uma arraia, e Ulisses morreu do ferimento.

Pseudo-Apolodoro, Epítome 7.36 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

Mas, quando Telégono o reconheceu, chorou amargamente, e levou o cadáver e Penélope a Circe, e ali casou com Penélope. E Circe mandou os dois para as Ilhas dos Bem-Aventurados.

Pseudo-Apolodoro, Epítome 7.37 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

A arma que o mata é um ferrão de arraia, e quem a traz é o filho que ele teve na ilha da feiticeira.

As duas Penélopes do Peloponeso

Pausânias viaja pela Arcádia mil anos depois e anota, à beira de uma estrada de Mantineia, um monte de terra alto.

Além dos caminhos já mencionados, há outros dois que levam a Orcômeno. Num deles fica o chamado estádio de Ladas, onde Ladas treinava a corrida, e ao lado um santuário de Ártemis; e à direita da estrada há um monte alto de terra. Dizem que é o túmulo de Penélope, mas o que sobre ela conta o poema chamado Tesprótis não está de acordo com isto.

Pausânias, Descrição da Grécia 8.12.5 (trad. W.H.S. Jones, 1918)

Pois nele o poeta diz que, quando Odisseu voltou de Troia, teve de Penélope um filho, Ptolipórtes. Mas a história dos mantineus sobre Penélope diz que Odisseu a acusou de levar amantes para casa e que, expulsa por ele, ela foi primeiro para a Lacedemônia e depois se mudou de Esparta para Mantineia, onde morreu.

Pausânias, Descrição da Grécia 8.12.6 (trad. W.H.S. Jones, 1918)

Em Esparta ele recolhe outra história, presa a uma estátua na estrada. Icário queria a filha em casa e seguiu o carro dos noivos a pedir que ela ficasse.

…por fim mandou que Penélope o acompanhasse de boa vontade ou então, se preferisse o pai, voltasse para a Lacedemônia. Dizem que ela não respondeu, mas cobriu o rosto com um véu em resposta à pergunta, de modo que Icário, percebendo que ela queria partir com Odisseu, a deixou ir e dedicou uma imagem do Pudor; pois foi a este ponto da estrada, dizem, que Penélope chegou quando se velou.

Pausânias, Descrição da Grécia 3.20.11 (trad. W.H.S. Jones, 1918)

Ver Penélope. As duas versões são locais, e cada uma está presa a uma coisa que Pausânias diz ter visto: um monte de terra em Mantineia e uma imagem à beira da estrada de Esparta.

A ilha, medida por um geógrafo

Estrabão trata Ítaca como um problema de descrição, e a dificuldade está em dois adjetivos que Homero põe no mesmo verso.

Pensa-se também que o verso seguinte revela uma espécie de contradição: «e a própria Ítaca jaz chthamale, panypertate sobre o mar»; pois chthamale quer dizer «baixa», ou «rente ao chão», ao passo que panypertate quer dizer «muito alta», como Homero indica em vários lugares, quando chama a Ítaca «áspera». E o mesmo se dá quando fala do caminho que sobe do porto, «vereda áspera por lugar arborizado», e quando diz que «nenhuma das ilhas que se apoiam no mar é boa de pastagens ou rica em prados, e Ítaca supera todas».

Estrabão, Geografia 10.2.12 (trad. Horace Leonard Jones, 1924)

O geógrafo lê o poema como quem confere um mapa, e é assim que a ilha entra na literatura técnica antiga.

O inimigo que pede o enterro dele

Sófocles abre o Ájax com Odisseu a rastrear o inimigo que enlouqueceu e retalhou o gado do exército julgando matar os chefes. Atena mostra-lhe o homem destruído e pergunta-lhe se conhece alguém assim.

Não conheço ninguém; mas, na sua desgraça, tenho pena dele na mesma, ainda que ele me odeie, porque está preso a uma cegueira ruinosa — e penso na minha própria sorte tanto quanto na dele.

Sófocles, Ájax 121 (trad. Richard Jebb, 1893)

Pois vejo que todos nós, os que vivemos, não somos mais do que fantasmas, ou sombra passageira.

Sófocles, Ájax 125 (trad. Richard Jebb, 1893)

No fim da peça, Agamêmnon e Menelau proíbem que o corpo seja enterrado. Quem os enfrenta é ele.

Também para mim este homem foi o inimigo mais odioso do exército, desde o dia em que o venci na posse das armas de Aquiles. Mesmo assim, por mais hostil que ele me fosse, eu não o desonraria em troca, nem me recusaria a admitir que, de toda a força grega em Troia, ele era, na minha opinião, o melhor e o mais valente, tirando Aquiles. Não seria justo, portanto, que fosse desonrado por ti. Não é a ele que farias mal, mas às leis dadas pelos deuses.

Sófocles, Ájax 1336 (trad. Richard Jebb, 1893)

Ver Aquiles. Quem ganhou as armas em disputa é quem argumenta pelo enterro do derrotado.

A língua manda em tudo

No Filoctetes, ele leva o filho de Aquiles a uma ilha deserta para roubar o arco de um homem que os gregos abandonaram lá nove anos antes. O plano é dito em cena, passo a passo, e o rapaz é instruído a mentir.

…quando ele perguntar quem és e de onde vens, diz que és filho de Aquiles — não é nesse ponto que o enganarás. Mas diz-lhe que navegas para casa e que deixaste a frota dos guerreiros aqueus, depois de os teres passado a odiar com um ódio sem limites.

Sófocles, Filoctetes 55 (trad. Richard Jebb, 1898)

A coisa para a qual temos de arranjar um ardil é precisamente esta: como poderás roubar-lhe as armas invencíveis.

Sófocles, Filoctetes 79 (trad. Richard Jebb, 1898)

Bem sei, meu filho, que por natureza não és capaz de dizer nem de tramar tais traições. Mas, sabendo que a vitória é um prêmio doce de ganhar, obriga-te a fazê-lo. A nossa honestidade será mostrada noutra ocasião. Agora, porém, dá-te a mim por um só dia sem vergonha, e depois, pelo resto do tempo…

Sófocles, Filoctetes 83 (trad. Richard Jebb, 1898)

Filho de um pai tão nobre, também eu, na juventude, tive uma vez a língua lenta e a mão ativa. Mas agora que vim à prova, vejo que é a língua, e não a ação, o que domina tudo entre os homens.

Sófocles, Filoctetes 96 (trad. Richard Jebb, 1898)

Ver Aquiles. A lição é dada ao filho dele, que a recebe como ordem de um superior.

A dívida com Hécuba

Na Hécuba de Eurípides, ele chega à tenda da rainha troiana cativa para levar a filha dela, Políxena, ao sacrifício sobre o túmulo de Aquiles. Hécuba lembra-lhe uma noite antiga: o dia em que ele entrou em Troia disfarçado e ela o deixou sair vivo.

Sabes quando vieste espiar Ílion,

Eurípides, Hécuba 239 (trad. Edward P. Coleridge, 1891)

— Fui eu que te salvei e te mandei embora outra vez?

Eurípides, Hécuba 247 (trad. Edward P. Coleridge, 1891)

— Sem dúvida encontrei muito que dizer, para salvar a vida.

Eurípides, Hécuba 250 (trad. Edward P. Coleridge, 1891)

Não estás então a fazer um triste papel, ao tramares contra mim depois do bom tratamento que, pela tua própria confissão, recebeste de mim, sem me mostrares gratidão nenhuma, mas todo o mal que podes? Raça ingrata! todos vós que cobiçais a honra vinda da multidão…

Eurípides, Hécuba 254 (trad. Edward P. Coleridge, 1891)

Ver Helena, que na Odisseia conta a mesma entrada em Troia como façanha. Nas Troianas, o sorteio das cativas entrega Hécuba a ele, e são estas as palavras com que ela recebe a notícia.

Rasga as faces com as unhas! Ai de mim! Caí como escrava nas mãos de um inimigo traiçoeiro que odeio, um monstro de ilegalidade,

Eurípides, As Troianas 282 (trad. Edward P. Coleridge, 1906)

…um homem que, com a sua língua dupla, virou contra nós tudo o que antes era amigo no acampamento dele, mudando isto naquilo e aquilo nisto outra vez. Chorai por mim, mulheres troianas! Perdida e desgraçada!

Eurípides, As Troianas 285 (trad. Edward P. Coleridge, 1906)

As armas de Aquiles

Ájax e Odisseu disputam as armas de Aquiles diante da assembleia grega. Ovídio dá um discurso a cada um e depois resolve a disputa em dois versos.

A assembleia dos chefes comoveu-se, e o que a eloquência pode ficou provado pelo desfecho: o eloquente levou as armas do homem valente.

Ovídio, Metamorfoses 13.382-383 (texto latino)

Ver Aquiles. O latim fecha o verso com disertus, «o eloquente», que é o sujeito da frase; as armas são fortis viri, «do homem valente».

Platão põe-no contra Aquiles

O Hípias Menor começa com uma pergunta de leitura: qual dos dois heróis Homero fez melhor, Aquiles ou Odisseu. Hípias responde citando os versos em que Aquiles chama Odisseu de mentiroso.

De modo nenhum, Sócrates; fê-lo o mais simples de todos; pois nas Preces, quando os representa a conversar um com o outro, faz Aquiles dizer a Odisseu: «Filho de Laertes, nascido de Zeus, Odisseu astuto, tenho de dizer a palavra sem me refrear, tal como agirei e penso que se há de cumprir; e não fiques a resmungar em discórdia, sentado aqui ao meu lado. Pois odioso me é como as portas do Hades aquele que esconde uma coisa no coração e diz outra. Mas eu direi aquilo que se há de cumprir.» Nestes versos ele mostra o caráter de cada um dos dois homens: que Aquiles é verdadeiro e simples, e Odisseu astuto e falso.

Platão, Hípias Menor 365 (trad. Harold North Fowler, 1926)

— Lembras-te de teres dito que Aquiles era verdadeiro e Odisseu falso e astuto? — Sim. — Percebes agora que o mesmo homem foi encontrado falso e verdadeiro, de modo que, se Odisseu era falso, torna-se também verdadeiro, e se Aquiles era verdadeiro, torna-se também falso, e os dois homens não são diferentes um do outro, nem opostos, mas iguais? — Sócrates, tu estás sempre a fazer argumentos enredados deste tipo.

Platão, Hípias Menor 369 (trad. Harold North Fowler, 1926)

— …ao passo que Odisseu, quando diz a verdade, di-la sempre de propósito, e quando diz a falsidade, também. — Então Odisseu, ao que parece, é melhor do que Aquiles. — De modo nenhum, Sócrates. — Como assim?

Platão, Hípias Menor 371 (trad. Harold North Fowler, 1926)

— É, portanto, próprio do homem bom cometer injustiça voluntariamente, e do homem mau cometê-la involuntariamente, se é que o homem bom tem uma alma boa. — Mas certamente tem. — Então aquele que erra voluntariamente e pratica atos vergonhosos e injustos, Hípias, se existir tal homem, não seria outro senão o homem bom. — Não posso concordar contigo nisso, Sócrates. — Nem eu comigo mesmo, Hípias; mas é isso que, neste momento, parece ser o resultado inevitável do nosso argumento.

Platão, Hípias Menor 376 (trad. Harold North Fowler, 1926)

Ver Aquiles. O diálogo termina sem acordo, e a última palavra é de Sócrates a dizer que anda de um lado para o outro nestas coisas e nunca fica com a mesma opinião.