AS CÁRITES — em latim Grátias, em português as Graças — eram as três deusas do encanto: aquilo que faz uma coisa ser agradável de ver, de ouvir e de receber. Filhas de Zeus e da oceânide Eurínome, andavam com Afrodite e com as Musas, e presidiam a festa, a dança e o dom. A palavra grega kháris, de onde vem o nome delas, significa ao mesmo tempo «beleza» e «favor» — e é dessa dupla significação que o português herdou o costume de agradecer dizendo «graças».
As três
Hesíodo é quem fixa o número em três e dá os nomes. A mãe é uma oceânide, o que as põe numa linhagem de água — e os nomes delas são todos abstratos, o que é raro: não são pessoas com história, são qualidades personificadas.
E Eurínome, filha do Oceano, bela de forma, deu-lhe três Cárites de belas faces: Aglaia, Eufrosina e a encantadora Talia.
Hesíodo, Teogonia 907 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
Os nomes traduzem-se: Aglaia é «o esplendor», Eufrosina «a alegria do coração», Talia «o viço». Note-se que Talia é também o nome de uma das nove Musas — coincidência que os próprios antigos comentavam, e que não se deve emendar: são duas divindades diferentes com o mesmo nome, como acontece com Eros e com as Horas.
O que elas fazem
As Cárites quase nunca agem sozinhas. Elas acompanham — Afrodite, Apolo, as Musas — e o que fazem é preparar, vestir, ungir, dançar. Na Odisseia, são elas que cuidam de Afrodite depois do episódio da rede de Hefesto.
Mas Afrodite, amante do sorriso, foi a Chipre, a Pafos, onde tem o seu recinto e o altar perfumado. Ali as Graças a banharam e a ungiram com óleo imortal, como o que reluz nos deuses que existem para sempre.
Homero, Odisseia 8.362 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)
Homero também as usa como moeda de troca entre deuses: na Ilíada, Hera promete a uma delas em casamento para conseguir um favor do Sono. É um detalhe que diz muito sobre o estatuto delas na poesia — são bens desejáveis, não agentes.
Por que «graça» significa duas coisas
A palavra kháris cobre, em grego, um campo que o português repartiu em vários termos: a beleza que agrada, o favor que se concede, a gratidão de quem o recebe, e o encanto que faz um discurso ou um gesto funcionar. As Cárites são a personificação desse campo inteiro, e não de uma das partes.
É por isso que os gregos as representavam dando as mãos em círculo, muitas vezes com uma delas de costas: o círculo é o do favor que circula — quem dá, quem recebe e quem retribui. A imagem atravessou a Antiguidade, foi copiada pelos romanos, redescoberta no Renascimento e é hoje uma das composições mais reconhecíveis da arte ocidental.
Três nomes, e uma mãe do Oceano
Hesíodo põe as Cárites na mesma sequência de casamentos de Zeus em que nascem as Horas e as Moiras, e dá-lhes nome uma a uma.
E Eurínome, filha do Oceano, bela de forma, gerou-lhe três Cárites de belas faces: Aglaia, Eufrosina e a amável Talia — de cujos olhos, ao lançarem o olhar, escorria o amor que afrouxa os membros; e é belo o olhar delas por baixo das sobrancelhas.
Hesíodo, Teogonia 905 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
Aglaia é «Esplendor», Eufrosina é «Alegria», Talia é «Florescimento». ★ E a mãe não é uma titânide olímpica: é **Eurínome, filha do Oceano** — sangue de água, não de céu. Ver Oceano.
A descrição física é o que a distingue: Hesíodo não fala de vestido nem de dança, fala do **olhar**. «O amor que afrouxa os membros» é a mesma expressão que ele usa para Eros na abertura da Teogonia — ver Eros primordial. As Cárites herdaram o efeito do quarto ser do universo.
Onde elas trabalham
As Cárites não têm mito próprio, e isso costuma ser lido como falta. É o contrário: elas aparecem sempre a serviço, e é a lista de serviços que as define.
Na Ilíada, uma delas é prometida em casamento por Hera a Hipnos, o Sono, para o convencer a adormecer Zeus — a Graça vale como moeda de suborno entre deuses. Nas Cárites está o que faz uma coisa ser desejável, e por isso elas são o que se oferece.
★ **É a diferença entre elas e as Musas.** A Musa dá o conteúdo — ver As Musas —, a Cárite dá o brilho. Um poema sem Musa não tem o que dizer; um poema sem Cárite diz e não encanta. A língua grega chama a isso *charis*, e a palavra serve tanto para a beleza de um verso como para o favor que se deve a alguém.
A palavra que sobrou
De todas as divindades menores da Grécia, as Cárites são as que mais deixaram rasto fora da mitologia — e o rasto está na língua.
*Charis* virou «graça»: a graça de um gesto, a graça que se pede, a graça que se agradece. Em grego, *eucharistó* — «dou graças» — é literalmente «faço boa charis», e é a palavra que os cristãos de língua grega tomaram emprestada para a Eucaristia.
⚠ Isto não é etimologia decorativa: mostra que as três irmãs cobriam um conceito para o qual não havia outra palavra — a **reciprocidade agradável**, o dar e o receber que deixa os dois lados satisfeitos. Um deus grego, para ser completo, precisava de ter isso; e por isso as Cárites aparecem no séquito de Afrodite, de Apolo e de Dioniso sem serem de nenhum deles.