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Alcmena

ALCMENA é a mãe de Hercules, e é a única mortal com quem Zeus se deitou de que a tradição diz que foi a última. ⚠ Mas a passagem que interessa não é a do deus: **é a da condição que ela impôs ao marido.** Hesíodo abre o *Escudo* com ela, e o retrato é de uma mulher que negociou com toda a gente — com o marido, com o destino e, no fim, com o rei que perseguiu os filhos dela.

★★ A condição imposta ao marido

Anfitrião matara sem querer o pai de Alcmena, numa discussão por causa de bois, e fugira com ela para Tebas. **Casaram — e ela não deixou que o casamento se consumasse.**

«Ali habitou ele com a sua modesta esposa, **sem as alegrias do amor, nem lhe era permitido chegar-se à de belos tornozelos**, filha de Electrião, enquanto não tivesse vingado a morte dos irmãos de coração grande da sua mulher e queimado por completo, com fogo ardente, as aldeias dos heróis, os Táfios e os Teléboas.»

Hesíodo, O Escudo de Héracles 1-56 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

★★★ **A condição é dela e a peça inteira nasce dela.** ⚠ E note-se a ironia da montagem: **é essa condição que abre a janela para Zeus.** Se Anfitrião estivesse em casa, não haveria noite em que o disfarce funcionasse.

★ Hesíodo não a apresenta pela beleza — apresenta-a pelo juízo: «em sabedoria nenhuma rivalizava com ela, de quantas mulheres mortais geraram da união com homens mortais». **É a fórmula que o poema usa para dizer que a inteligência dela era o máximo permitido a uma mortal.**

⚠ E o resto do retrato é sobre fidelidade: «e ela honrou o marido no coração como nenhuma das mulheres antes dela». **Hesíodo estabelece a virtude conjugal dela três versos antes de contar o adultério** — porque o adultério não é dela.

★★★ A noite que Zeus fez durar três

Apolodoro conta a mecânica sem uma palavra a mais, e é a versão que ficou.

«Mas antes de Anfitrião chegar a Tebas, Zeus veio de noite e, **fazendo de uma noite três, assumiu a aparência de Anfitrião** e deitou-se com Alcmena, e contou-lhe o que se passara a respeito dos Teléboas. Mas quando Anfitrião chegou e viu que não era bem recebido pela mulher, perguntou a causa; e quando ela lhe disse que ele tinha vindo na noite anterior e dormido com ela, soube por Tirésias como Zeus a tinha desfrutado.»

Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.4.8 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

★★★ **O disfarce não bastava: ele trouxe o relatório da campanha.** ⚠ Zeus conta-lhe a batalha contra os Teléboas — informação que só o marido podia ter. **A fraude não é de rosto, é de prova documental**, e é isso que a torna impossível de detetar.

⚠ E o detalhe que denuncia tudo é doméstico e triste: **Anfitrião chega e não é bem recebido.** A mulher acha que ele já veio ontem. É pela frieza dela que o marido descobre. Ver Tirésias, que faz o diagnóstico.

★★ **A noite tripla não é luxúria: é obstetrícia.** Zeus precisa de tempo para fabricar o filho que há de defender deuses e homens — Hesíodo di-lo com todas as letras: «o pai dos homens e dos deuses formava outro plano no coração, gerar um que defendesse da destruição os deuses e os homens que comem pão». **É um projeto, e Alcmena é a oficina.**

⚠⚠ Dois pais, uma noite, dois gémeos

O que quase nunca se conta é que Anfitrião chegou **na mesma noite** — Hesíodo é explícito — e foi direto ao quarto antes de ir aos rebanhos.

«E ela, tendo-se sujeitado em amor a um deus e a um homem sobremaneira excelente, deu à luz filhos gémeos na Tebas de sete portas. **Ainda que fossem irmãos, não eram de um só espírito**: um era mais fraco e o outro um homem muito melhor, terrível e forte, o poderoso Héracles. A este gerou-o do abraço do filho de Crono, senhor das nuvens escuras; e o outro, Íficles, de Anfitrião, o que brande a lança.»

Hesíodo, O Escudo de Héracles 1-56 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

★★★ **«Prole distinta: um da união com um homem mortal, o outro da união com Zeus.»** ⚠ Não são meios-irmãos por casamentos sucessivos: **são gémeos com pais diferentes, concebidos com horas de intervalo.** A medicina moderna tem nome para isso — superfecundação heteropaterna — e é raríssima.

★ E os dois rapazes servem de experiência controlada. Quando as serpentes entram no berço, Íficles foge e Hércules estrangula-as. ⚠ **Apolodoro regista uma versão em que foi o próprio Anfitrião a pôr as serpentes na cama** — «porque queria saber qual dos dois meninos era o dele». **É um teste de paternidade com cobras.**

Ver Hercules: tudo o que ele faz a seguir é a conta desta noite a ser paga a Hera.

★★★ O último ato: os olhos de Euristeu

⚠ A tradição costuma largar Alcmena depois do parto. Apolodoro não larga — e o que lhe reserva é a cena mais fria do livro.

Morto Hércules, o rei Euristeu persegue os filhos dele pela Grécia inteira. Os atenienses acolhem-nos, há batalha, e Hilo — filho de Hércules — apanha o rei em fuga junto às falésias Escirônias.

«Euristeu fugiu num carro, mas foi perseguido e morto por Hilo justamente quando passava pelas falésias Escirônias; e Hilo cortou-lhe a cabeça e deu-a a Alcmena; **e ela arrancou-lhe os olhos com agulhas de tear.**»

Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.8.1 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

★★★ **A cabeça é entregue à avó como se entrega uma encomenda, e ela usa a ferramenta que tem à mão.** ⚠ E a ferramenta é do ofício das mulheres: o tear. **A mesma economia da rede de Clitemnestra e dos alfinetes com que Edipo se cega** — na tragédia grega, quando uma mulher mata ou mutila, o instrumento vem quase sempre da caixa de costura.

★★ E o gesto é preciso: não é a cabeça que ela ataca — **são os olhos.** Euristeu passou uma vida a olhar Hércules trabalhar e a olhar os netos dela a fugir. **A pena é feita para caber no crime.**

⚠ Depois disto, Alcmena desaparece do texto. **Não há morte, não há túmulo, não há apoteose contada** — a mulher que produziu o maior herói da Grécia sai de cena a limpar um par de agulhas.