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Bestas e Monstros

A COISA MAIS SURPREENDENTE sobre os monstros gregos não é a forma deles: é o parentesco. A Quimera, a Hidra de Lerna, o Cérbero, a Esfinge e o Leão de Neméia não são criaturas avulsas que apareceram em lugares diferentes — são irmãos, sobrinhos e filhos uns dos outros, e Hesíodo desenha a árvore deles com o mesmo cuidado notarial com que desenha a dos olimpianos. Quem entende essa árvore entende metade dos trabalhos de Héracles antes de os ler.

O casal do fundo da caverna

No centro da genealogia estão dois nomes, e o primeiro deles é uma das descrições mais exatas que a poesia grega produziu.

E numa caverna funda gerou outro monstro, irresistível, em nada parecido nem com os homens mortais nem com os deuses imortais: a deusa, a feroz Equidna, que é metade ninfa de olhos brilhantes e faces belas, e metade de novo uma serpente enorme, grande e terrível, de pele malhada, comendo carne crua debaixo das partes secretas da terra sagrada.

Hesíodo, Teogonia 295-305 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

★ **«Em nada parecido nem com os homens mortais nem com os deuses imortais.»** É a definição grega de monstro, e ela é negativa: monstro é o que não cabe em nenhuma das duas categorias que existem.

O marido dela é Tifão — ver Tifeu —, o ser que quase destronou Zeus. **O pai dos monstros gregos é o único inimigo que o rei dos deuses não venceu de primeira**, e a mãe mora num buraco. A ninhada sai daí.

Os filhos, um a um, na ordem em que Hesíodo os conta

Dizem que Tifão, o terrível, ultrajante e sem lei, se uniu em amor a ela, a donzela de olhos brilhantes. Assim ela concebeu e deu à luz uma prole feroz: primeiro gerou Ortro, o cão de Gerião; e depois gerou um segundo, um monstro invencível e que não se pode descrever, o Cérbero que come carne crua, o cão de voz de bronze de Hades, de cinquenta cabeças, implacável e forte. E de novo gerou um terceiro, a Hidra de Lerna, de mente má, que a deusa de braços brancos, Hera, alimentou.

Hesíodo, Teogonia 306-312 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

★★ **O Cérbero tem cinquenta cabeças em Hesíodo, não três.** As três são iconografia posterior — o número que cabe num vaso. Ver Cerberus.

E repare em Ortro: um cão de duas cabeças que guarda o gado de Gerião, em Erítia — ver Erítia. Ele morre no décimo trabalho de Héracles e quase ninguém o conhece; mas é dele que vem, mais tarde, a segunda ninhada. **Um monstro que se cruza com a própria mãe.**

★ A ninhada seguinte, e a surpresa que ela guarda

Morta a Hidra por Héracles e Iolau, Hesíodo continua a lista — e é aqui que aparecem os dois nomes que ninguém espera ver juntos.

Ela foi a mãe da Quimera, que soprava fogo furioso — uma criatura terrível, grande, de pés velozes e forte, que tinha três cabeças: uma de leão de olhos ferozes, outra de cabra e outra de serpente, um dragão feroz; na parte da frente era leão, na parte de trás dragão, e no meio cabra, soprando um jato terrível de fogo ardente.

Hesíodo, Teogonia 319-325 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

A ela mataram-na Pégaso e o nobre Belerofonte; mas Equidna uniu-se em amor a Ortro e gerou a Esfinge mortífera, que destruiu os cadmeus, e o leão de Neméia, que Hera, a boa esposa de Zeus, criou e pôs a rondar os montes de Neméia, praga para os homens.

Hesíodo, Teogonia 319-325 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

★★★ **A Esfinge de Tebas e o Leão de Neméia são irmãos.** O enigma que Édipo resolve e a fera que Héracles estrangula saíram do mesmo parto — e o pai dos dois é o cão de duas cabeças. Ver Esfinge, Leao de Nemeia, Edipo e Hercules.

⚠ E há uma coisa que a árvore ensina e que nenhuma página sozinha ensinaria: **os monstros gregos são criados, não encontrados.** Hera «alimenta» a Hidra por rancor contra Héracles e «cria e põe» o leão em Neméia. Ver Hera. Eles não migram para o lugar onde o herói os encontra: são instalados ali, à espera.

A outra família: a do mar

Há um segundo tronco, e ele vem do outro lado — de Fórcis e Ceto, os velhos do mar. Este produz o que se enfrenta com espelho, não com clava.

E de novo Ceto gerou de Fórcis as Greias de belas faces, irmãs grisalhas desde o nascimento: e tanto os deuses imortais como os homens que andam na terra lhes chamam Greias — Pemfredo bem vestida e Enio de manto cor de açafrão — e as Górgonas, que habitam para lá do glorioso Oceano, na terra fronteiriça na direção da Noite, onde estão as Hespérides de voz clara: Esteno, Euríale e Medusa, que sofreu um destino desgraçado: ela era mortal, mas as duas eram imortais e não envelheciam.

Hesíodo, Teogonia 270-280 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

★ **«Medusa, que sofreu um destino desgraçado: ela era mortal.»** Hesíodo trata a única mortal da família com uma compaixão que não reserva a nenhum outro monstro do poema. Ver Medusa, Gorgonas e As Greias.

E da morte dela nascem duas coisas boas: **Crisaor** e **Pégaso**, que saltam do pescoço cortado. Ver Pegasus e Perseu. É o mesmo mecanismo do sangue de Urano — ver Uranus: na Grécia, o golpe que encerra alguma coisa quase sempre gera outra.

⚠ E o que NÃO é monstro nesta seção

A categoria do site herdou do original alguns nomes que não pertencem a nenhuma das duas famílias acima, e vale dizê-lo em vez de os misturar.

**Os Gigantes** nasceram do sangue de Urano — são parentes das Erínias, não de Equidna. Ver Os Gigantes e As Erínias. **As Greias** são velhas, não feras: o que as torna assustadoras é a partilha de um olho. **Os hipocampos**, os grifos e a fénix são fauna, não inimigos: aparecem como cavalgadura, guarda ou prodígio, e quase nunca como obstáculo. Ver Hipocampos, Grifos e Fenix.

★ E **Tritão** e **Aríon** estão aqui por herança do menu do site antigo: o primeiro é deus do mar, o segundo é um cavalo divino. Ver Tritao e Arion. Ficam porque tirá-los quebraria endereço que já existe — e porque a categoria «bestas» dos gregos era mesmo assim, mais larga do que a nossa.

As bestas, uma a uma

O monstro grego quase nunca é bicho: é parente. A Quimera, a Hidra, a Esfinge e o Cão de Hades saem da mesma ninhada, e a árvore genealógica que Hesíodo desenha para eles é tão cuidadosa quanto a dos deuses.