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Amalteia

AMALTEIA é a cabra que criou o rei dos deuses. Reia, grávida de Zeus e cansada de ver os filhos serem engolidos, foi parir numa gruta de Creta e entregou o menino a ninfas e a um bando de guerreiros dançantes. O leite era de Amalteia; o barulho, dos escudos.

Constelação de Amaltheia mitologia grega
Constelação de Amaltheia mitologia grega

A gruta, as ninfas e o coro armado

Apolodoro conta a montagem do esconderijo com a secura de quem descreve um plano — e o plano tem três peças.

Irritada com isto, Reia dirigiu-se a Creta, quando estava grávida de Zeus, e deu-o à luz numa caverna de Dicte. Entregou-o aos Curetes e às ninfas Adrasteia e Ida, filhas de Melisseu, para o criarem.

Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.1.6 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

★ Uma gruta, duas amas e uma escolta. Ver Reia e Cronos.

E a peça que faltava — a que resolve o problema acústico — vem na frase seguinte.

★ O leite, e o barulho por cima dele

A solução é de uma engenhosidade prática que a mitologia grega raramente exibe: contratar músicos para abafar um som.

Assim, estas ninfas alimentaram a criança com o leite de Amalteia; e os Curetes, em armas, guardavam o bebé na caverna, batendo com as lanças nos escudos para que Cronos não ouvisse a voz da criança.

Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.1.7 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

★★ **Um bebé que chora dentro de uma gruta, e um coro de homens armados a bater em escudos por cima do choro.** É a imagem fundadora de toda a religião cretense — a dança armada dos Curetes existia como rito, com música e passos, e este mito é a explicação dele.

E o disfarce tem uma segunda camada, no mesmo parágrafo: **«Reia envolveu uma pedra em panos e deu-a a Cronos para engolir, como se fosse o recém-nascido».** Ver Cronos — é a pedra que ele vomitará mais tarde, e que Pausânias diz ter visto em Delfos.

O que sobrou da cabra

Amalteia deixou à cultura ocidental um objeto que ainda se usa: o chifre dela.

A tradição conta que um dos cornos se partiu e que Zeus o abençoou para que desse sem parar tudo o que quem o segurasse desejasse. É a **cornucópia** — *cornu copiae*, «chifre da abundância» —, que atravessou a arte romana, a heráldica medieval e chegou aos brasões de estado modernos.

★ ⚠ E vale dizer o que a fonte antiga NÃO diz: Apolodoro não menciona chifre nenhum, nem catasterismo. A cabra dele é uma cabra que dá leite. A cornucópia e a subida ao céu vêm da tradição posterior — Higino, o Pseudo-Eratóstenes, Ovídio nos Fastos —, fora do acervo conferível deste site.

No céu, Amalteia é a estrela Capela, «a cabrinha», no ombro do Cocheiro — a sexta estrela mais brilhante que se vê da Terra. Ver Capricórnio, a outra figura caprina do zodíaco.

O que se vê no céu

Amalteia não é uma constelação inteira: é uma **estrela**, e das grandes. Chama-se **Capela** — em latim *Capella*, «a cabrinha» — e é a sexta mais brilhante do céu, no ombro da constelação do Cocheiro.

★ Ao lado dela há três estrelas pequenas em triângulo, chamadas **os Cabritos** (*Haedi*). A cabra que amamentou Zeus está no céu com as crias, e os antigos usavam o nascer dos Cabritos como aviso de temporal no mar.

⚠ **Esta seção não tem citação antiga, e é de propósito.** Uma constelação é duas coisas: uma história e um desenho. A história deste site sai sempre de uma fonte com endereço; o desenho não se cita — vê-se. O que está acima é o que qualquer pessoa confere olhando para cima, numa noite limpa, sem instrumento nenhum.