DÂNAE é a mulher que um oráculo transformou em prisioneira. O pai dela perguntou aos deuses como teria filhos varões; a resposta foi que o filho da filha o mataria. Ele então trancou-a — e o que aconteceu a seguir é a coisa mais pintada da história da arte ocidental.
O quarto de bronze
Apolodoro conta a prisão com a mesma frieza com que conta tudo, e a arquitetura do cárcere é o que fica.
Quando Acrísio perguntou ao oráculo como teria filhos varões, o deus disse que a filha dele daria à luz um filho que o mataria. Temendo isso, Acrísio construiu um quarto de bronze debaixo da terra e ali guardou Dânae.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.4.1 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★ **Um quarto de bronze, enterrado.** É a resposta de um homem que acreditou no oráculo — e é por acreditar que ele o cumpre. Ver Perseu.
⚠ E note-se o que o oráculo NÃO disse: não disse que ele devia impedir o nascimento. Disse o que ia acontecer. **Acrísio inventou sozinho a parte da prisão.**
★ Duas versões, e Apolodoro imprime as duas
Sobre como ela engravidou, a fonte oferece duas explicações e não escolhe — o que é, ele próprio, um dado sobre a história.
Contudo, ela foi seduzida, como alguns dizem, por Preto — donde nasceu a querela entre os dois; mas outros dizem que Zeus se uniu a ela em forma de um fio de ouro que se derramou pelo teto até ao colo de Dânae.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.4.1 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★★ **Uma versão é um tio, a outra é uma chuva de ouro.** A primeira explica uma guerra de família; a segunda explica um herói. A arte escolheu a segunda — Ticiano, Rembrandt, Klimt —, e a fonte não escolheu nenhuma.
⚠ Este site guarda as duas, como faz sempre. E vale notar o que a primeira versão implica: **a chuva de ouro pode ser a versão contada por uma família para explicar uma gravidez.**
A arca no mar
O fecho é a parte que a arte pinta menos e que é a mais dura: o avô não acredita, e resolve o problema pondo os dois numa caixa.
Quando Acrísio soube depois que ela tivera um filho, Perseu, não quis acreditar que fora seduzida por Zeus, e, pondo a filha com a criança numa arca, lançou-a ao mar. A arca deu à costa em Serifos, e Díctis recolheu o menino e criou-o.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.4.1 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★ **«Não quis acreditar.»** O crime de Acrísio não é a crueldade: é a incredulidade. Ele prefere afogar a filha a aceitar a resposta que recebeu.
A arca chega a Serifos, e o resto é a história de Perseu — que acabará por matar o avô num lançamento de disco, sem saber quem ele é. **O oráculo cumpre-se por acidente, depois de tudo o que se fez para o impedir.**