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Orestes

ORESTES é o réu do primeiro julgamento por homicídio da literatura ocidental. Matou a mãe porque o oráculo mandou; as Erínias perseguiram-no porque matar mãe é o crime que elas existem para punir; e o impasse — dois deveres opostos, os dois obrigatórios — só se resolveu quando Atena inventou um tribunal e o júri empatou.

O crime, e a ordem que o mandou fazer

Apolodoro conta os fatos com a secura de sempre, e a primeira palavra da frase é a que muda tudo: **o deus deu licença.**

O deus deu-lhe licença, e assim ele partiu em segredo para Micenas em companhia de Pílades, e matou a mãe e Egisto. E, não muito depois, atingido de loucura e perseguido pelas Fúrias, foi a Atenas e foi julgado no Areópago.

Pseudo-Apolodoro, Epítome 6.25 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

★★ **A ordem é de Apolo.** Ver Apolo e Agamêmnon — o pai que Clitemnestra matou no banho, ver a morte contada por ele próprio no Hades.

⚠ E a loucura vem **depois** do ato, não antes. As Erínias não o impedem: cobram. Ver As Erínias.

★★★ A pergunta que ele faz antes de entrar

Ésquilo põe Orestes a hesitar na porta, com a espada na mão, e a hesitação dura três versos. A resposta que ele recebe é a frase mais dura do teatro grego.

«Pílades, que faço? Poupo a minha mãe, por piedade?» — «E que será, no futuro, dos oráculos de Lóxias declarados em Pito, e do nosso pacto jurado? **Tem todos os homens por inimigos, antes que os deuses.**» — «Julgo-te vencedor: aconselhas-me bem.»

Aeschylus, Libation Bearers 899-903 (trad. Herbert Weir Smyth, 1926)

★★★ **Pílades tem TRÊS versos em toda a peça, e são estes.** O amigo mudo fala uma vez só, para decidir um matricídio — e depois volta ao silêncio.

⚠ E note-se o argumento: não é «ela merece». É **«os deuses são piores inimigos que os homens»**. Ver Estige — a religião grega é, no fundo, um cálculo de a quem se deve mais.

★★ O tribunal que Atena inventa

As Erínias exigem o sangue dele; Apolo defende-o. Não há como decidir, porque os dois têm razão. Então Atena faz uma coisa que ninguém tinha feito antes: cria uma instituição.

«Ouçam agora a minha ordenação, povo da Ática, ao julgarem o primeiro processo por derramamento de sangue. No futuro, tal como agora, este tribunal de juízes existirá sempre para o povo de Egeu. (…) Nem anarquia nem tirania — é isto que aconselho os meus cidadãos a apoiar e respeitar, e a não expulsar inteiramente o medo da cidade.»

Ésquilo, Eumênides 681-710 (trad. Herbert Weir Smyth, 1926)

★★★ **«O primeiro processo por derramamento de sangue.»** Ésquilo está a encenar a fundação do Areópago, o tribunal real de Atenas — e a peça foi representada ali perto, para os cidadãos que o compunham. **É teatro sobre a instituição que o público integrava.**

⚠ E o conselho de Atena é político e não moral: **«não expulsem inteiramente o medo da cidade».** Ver Atena.

O voto que empata, e o argumento que o justifica

Atena vota por último, e o argumento dela é o mais discutido da Antiguidade — e o mais desconfortável.

«É meu dever dar o julgamento final, e darei o meu voto a Orestes. **Pois não houve mãe que me desse à luz;** e em tudo, salvo no casamento, estou de todo o coração pelo masculino e inteiramente do lado do pai. Por isso não darei maior honra à morte de uma mulher que matou o marido, o senhor da casa. Orestes vence, mesmo que a votação saia empatada.»

Ésquilo, Eumênides 734-741 (trad. Herbert Weir Smyth, 1926)

★★ **Ela justifica o voto pela própria biografia:** nasceu da cabeça de Zeus, sem mãe. Ver Métis — a mãe dela existia, e estava dentro do pai.

★★★ E o resultado é o que Apolodoro regista com uma frase de cartório: **«e, estando os votos empatados no julgamento, ele foi absolvido.»** O empate absolve. ⚠ **A justiça ateniense nasce de um impasse, não de uma certeza** — e é isso que a peça quer dizer.

As Erínias, derrotadas, ameaçam envenenar a Ática; Atena negocia com elas até aceitarem um culto e um nome novo — as **Eumênides**, «as Bem-Dispostas». Ver As Erínias.

A irmã, e o reencontro que quase não acontece

Há um epílogo, e ele liga esta página à do sacrifício de Áulide.

★ Perseguido ainda, Orestes recebe de Apolo uma última tarefa: trazer da terra dos tauros uma imagem de Ártemis. Ali é capturado — e a sacerdotisa que deve sacrificá-lo é **a irmã que ele julgava morta no altar**. Ver Ifigênia e Artemis.

⚠ Apolodoro regista também que a acusação no Areópago pode ter partido de **Erígone, filha de Egisto e Clitemnestra** — isto é, da meia-irmã. **O julgamento é, de qualquer ângulo, uma briga de família levada a tribunal**, e é assim que a Grécia inventa a justiça pública.