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Erítia

ERÍTIA é a ilha do poente — o nome quer dizer «a vermelha», que é a cor do céu onde ela fica. Está além do Oceano, isto é, fora do mundo: para o pensamento grego arcaico, a água que dá a volta na terra é a borda de tudo, e o que houver depois dela já não obedece à geografia. É lá que Héracles vai buscar o gado de Gerião, e a maneira como ele atravessa é a melhor definição do lugar.

Onde fica: além do Oceano

Hesíodo dá o endereço de Erítia numa frase que é toda feita de fronteiras: ilha cercada de mar, do outro lado do vau do Oceano, num pasto sombrio.

…em Erítia cercada de mar, junto aos seus bois de passo pesado, no dia em que levou os bois de larga testa para a sagrada Tirinto, e tinha atravessado o vau do Oceano e matado Orto e o vaqueiro Euritião no pasto sombrio, para além do glorioso Oceano.

Hesíodo, Teogonia 290 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

«Para além do glorioso Oceano» é a expressão-chave. O Oceano não é o Atlântico: é o rio que faz o contorno do disco da terra. Tudo o que está além dele está fora do mapa — e é por isso que Erítia divide vizinhança com o poente, com a morte e com o gado dos mortos.

A ilha vermelha, e o que havia nela

Erítia é o lugar mais distante a que Héracles vai, e Apolodoro localiza-a com uma precisão que soa a portulano.

Como décimo trabalho, foi-lhe ordenado buscar os bois de Gerião em Erítia. Ora, Erítia era uma ilha junto ao oceano; chama-se hoje Gádira. Esta ilha era habitada por Gerião, filho de Crisaor com Calírroe, filha do Oceano. Ele tinha o corpo de três homens crescidos juntos e unidos num só na cintura, mas partidos em três dos flancos e das coxas.

Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.5.10 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

★ **«Chama-se hoje Gádira»** — Cádis, no sul da Espanha. Apolodoro está dando ao mito um endereço postal do seu tempo. O fim do mundo grego é uma cidade real, e alguém que lesse aquilo podia ir lá.

O nome quer dizer «a vermelha», e a tradição explica-o pelo pôr do sol: a ilha fica onde o Sol se deita. Ver Hélio e Sobre Reinos.

★ O herói que apontou o arco para o Sol

No caminho acontece a cena mais insolente de toda a carreira de Héracles, e o desfecho dela é ainda mais estranho que a insolência.

Mas, aquecido pelo Sol na viagem, apontou o arco ao deus, o qual, em admiração pela ousadia dele, lhe deu uma taça de ouro na qual ele atravessou o oceano.

Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.5.10 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

Um homem ameaça o Sol porque está com calor. O Sol, **em vez de o fulminar, empresta-lhe o barco**. ★ A taça de ouro em que Hélio navega de volta pelo Oceano todas as noites vira, por um dia, a barca de Héracles.

E é no mesmo trajeto que ele levanta as duas colunas «nos limites da Europa e da Líbia» — as Colunas de Héracles, que são Gibraltar. Ver Hercules.