Ir para o conteúdo

Início

Atlas

ATLAS era o titã condenado a sustentar o céu. Filho de Jápeto e da oceânide Clímene, ficou do lado perdedor da guerra contra Zeus, e a pena que recebeu não foi o Tártaro, onde foram os irmãos: foi ficar de pé na borda ocidental da terra, com os braços e a cabeça erguendo a abóbada celeste para que ela não caísse sobre o mundo. É a única punição grega que consiste em prestar um serviço — e por isso a figura dele atravessou a Antiguidade como imagem do peso que não se pode pôr no chão.

A família de Jápeto

Hesíodo apresenta Atlas como o primeiro dos quatro filhos de Jápeto, e a lista inteira é significativa: os irmãos dele são Menécio, Prometeu e Epimeteu. Três dos quatro serão punidos por desafiar Zeus, cada um de um modo diferente.

Jápeto tomou por esposa a donzela de belos tornozelos Clímene, filha do Oceano, e subiu com ela ao mesmo leito. E ela lhe deu um filho de coração valente, Atlas.

Hesíodo, Teogonia 507 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

A pena: sustentar o céu

A frase de Hesíodo sobre o castigo é uma das mais citadas da Teogonia, e o que ela guarda de preciso é o lugar: não o Olimpo, não o Tártaro, mas o limite da terra, diante das Hespérides — o extremo oeste, onde o sol se põe.

E Atlas, por dura imposição, sustenta o vasto céu com a cabeça e os braços incansáveis, de pé nos confins da terra, diante das Hespérides de voz clara.

Hesíodo, Teogonia 517 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

Note-se o que a punição NÃO é. Menécio foi fulminado e desceu ao Érebo; Prometeu foi acorrentado e devorado pela águia. Atlas não é destruído nem torturado: é posto a trabalhar, para sempre, numa função de que o mundo depende. A poesia grega nunca resolve essa ambiguidade — ele é ao mesmo tempo o condenado e o sustentáculo.

Héracles e as maçãs de ouro

O episódio mais contado de Atlas não é o castigo, é a trégua. No penúltimo trabalho, Héracles precisa das maçãs do jardim das Hespérides, que Atlas pode colher e ele não. Apolodoro conta a versão em que os dois trocam de lugar — e em que Atlas tenta não voltar ao posto.

Mas quando Atlas recebeu três maçãs das Hespérides, veio a Héracles e, não querendo sustentar a esfera, disse que ele mesmo levaria as maçãs a Euristeu, e mandou Héracles erguer o céu no seu lugar.

Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.5.11 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

O que Héracles faz em seguida é a razão de a história ter sobrevivido: aceita, pede a Atlas que segure só um instante enquanto ele acomoda uma almofada nos ombros — e vai embora com as maçãs. É uma das raras vitórias gregas obtidas por conversa e não por força.

A montanha e o nome

Os gregos localizavam Atlas no extremo oeste conhecido, e a geografia acabou herdando o nome: a cordilheira do noroeste da África chama-se Atlas, e o oceano que fica além dela, Atlântico — «o mar de Atlas». O costume moderno de chamar «atlas» a um livro de mapas vem daí por um caminho mais longo, passando pela figura do titã impressa nas coleções cartográficas do século XVI.

As filhas dele também guardam o nome: as Plêiades e as Híades são chamadas Atlântides, e é por Maia, uma delas, que Atlas aparece na genealogia de Hermes. Poucos titãs deixaram descendência tão espalhada pela mitologia grega.

A sentença, e quem a assinou

Hesíodo põe o castigo de Atlas ao lado do de Prometeu, na mesma sequência, e é preciso ler os dois juntos para ver o que Zeus está fazendo.

E Atlas, por dura obrigação, sustenta o vasto céu com a cabeça e os braços incansáveis, de pé nos confins da terra, diante das Hespérides de voz clara; pois esta sorte lhe designou o sábio Zeus.

Hesíodo, Teogonia 517-520 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

★ **«Esta sorte lhe designou o sábio Zeus»** — é sentença, não acidente. E repare no que ela tem de particular: Atlas não está preso nem escondido. Está **trabalhando**, à vista, num posto útil.

No mesmo parágrafo, Menécio é fulminado e mandado para o Érebo, e Prometeu é acorrentado com uma águia comendo-lhe o fígado. Três irmãos, três penas diferentes — e a de Atlas é a única que serve para alguma coisa. Ver Iapetus, que é o pai dos três.

Onde ele está de pé

A localização importa, e Hesíodo dá-a duas vezes. A primeira é geográfica: «nos confins da terra, diante das Hespérides». A segunda é arquitetônica, e é muito mais interessante.

Diante dela, o filho de Jápeto está imóvel, sustentando o vasto céu com a cabeça e as mãos incansáveis, onde a Noite e o Dia se aproximam e se saúdam ao passarem a grande soleira de bronze.

Hesíodo, Teogonia 746-757 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

★★ **Atlas está à porta da casa da Noite.** O poste que segura o céu fica exatamente no lugar onde o dia e a noite trocam de turno — ver Hêmera e Nyx.

Não é decoração: é engenharia mítica. O ponto em que o céu encosta na terra é o mesmo ponto por onde o tempo passa. **Quem segura o espaço fica na porta do tempo.**

⚠ O que Atlas NÃO carrega

A imagem mais difundida do mundo — um homem com uma esfera às costas — é uma leitura tardia, e está errada em relação à fonte.

Hesíodo diz **«o vasto céu»**, e diz que ele o segura «com a cabeça e os braços». O que Atlas sustenta é a **abóbada celeste**, para que ela não caia sobre a terra. Ver Uranus: no mito, o céu já caiu uma vez sobre a Terra, e foi preciso separá-los à força.

★ A esfera terrestre nas costas do Atlas das estátuas romanas é outra coisa: é a esfera das constelações, o mapa do céu. E é dela que vem a palavra **atlas** para uma coleção de mapas — de um livro de Mercator, no século XVI, com o titã na capa.