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Aquário

AQUÁRIO é o copeiro, e o copeiro dos deuses é Ganimedes. A Ilíada o apresenta numa genealogia troiana, com um adjetivo e uma consequência: era o mais belo dos mortais, e por isso os deuses o levaram. O que a versão popular chama de honra, Homero chama de rapto pago em cavalos.

Constelação de Aquário mitologia grega
Constelação de Aquário mitologia grega

O mais belo dos mortais

Eneias recita a própria linhagem no meio da batalha, e Ganimedes aparece como um dos três filhos de Tros. A frase é seca e não pede desculpas.

E Erictônio gerou Tros, para ser rei entre os troianos; e de Tros nasceram três filhos sem par — Ilo, Assáraco e o divino Ganimedes, que nasceu o mais belo dos homens mortais; por isso os deuses arrebataram-no ao alto para ser copeiro de Zeus, por causa da sua beleza, para que habitasse com os imortais.

Homero, Ilíada 20.215 (trad. Augustus Taber Murray, 1924)

«Arrebataram-no ao alto»: o verbo é de rapto. E adiante, quando a Ilíada fala dos cavalos de Trós, ela explica de onde vieram — foram o preço que Zeus pagou pelo menino. A compensação é registrada como transação.

O jarro que não acaba

Na figura celeste, Aquário aparece derramando água de um vaso, e o fluxo desce até a constelação vizinha, o Peixe Austral. A astronomia grega chamava aquela região do céu de «o Mar» — ali estão Peixes, Cetus, Capricórnio e o Rio Eridano, todos aquáticos.

É um dos raros lugares em que o mapa do céu tem coerência de assunto, e não apenas figuras soltas. Ver Peixes, que fica na mesma vizinhança molhada.

E vale reter que Ganimedes substituiu alguém no cargo: antes dele, quem servia o néctar era Hebe, a filha de Zeus e Hera. A troca de copeiro é uma das poucas mudanças de pessoal que o Olimpo registra.

O rapaz que serve a bebida

Aquário é Ganimedes, e Homero o apresenta no meio de uma genealogia recitada em campo de batalha — Eneias explicando a Aquiles de quem descende.

E de Tros nasceram três filhos sem par: Ilo, Assáraco e o divino Ganimedes, que nasceu o mais belo dos homens mortais; por isso os deuses o arrebataram ao alto, para ser copeiro de Zeus, por causa da sua beleza, para que morasse com os imortais.

Homero, Ilíada 20.232 (trad. Augustus Taber Murray, 1924)

★ Repare em quem arrebata: **«os deuses»**, no plural, e o motivo declarado é a beleza. Homero não diz águia, não diz Zeus sozinho, não diz desejo. A versão da águia e do rapto amoroso é posterior; a mais antiga é esta, e é quase administrativa — o Olimpo precisava de um copeiro e escolheu o mais bonito.

O preço pago ao pai

O Hino Homérico a Afrodite conta a mesma história com uma parte que Homero omite: o que Tros recebeu em troca do filho.

Na verdade, o sábio Zeus arrebatou o loiro Ganimedes por causa da beleza dele, para estar entre os Imortais e servir a bebida aos deuses na casa de Zeus.

Hino Homérico 5, a Afrodite 202 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

No mesmo hino, Zeus manda Hermes explicar ao pai o que houve e entrega-lhe cavalos imortais como compensação — e o pai, diz o texto, deixa de chorar a partir daí. ★ **A dor de um pai é encerrada por um pagamento**, e o hino registra isso sem ironia nenhuma: é assim que se resolvem as coisas entre deuses e homens.

A constelação do Aquário derrama água de uma jarra, e a jarra é essa: o serviço que ele passou a prestar. É a única constelação do zodíaco que representa um emprego. Ver Hebe, que tinha o mesmo cargo antes dele.

O que se vê no céu

Aquário fica numa região do céu que os antigos chamavam **«o Mar»** — e não por acaso: as constelações vizinhas são Peixes, o Peixe Austral, a Baleia, o Golfinho e o Rio Erídano. Uma zona inteira de céu dedicada à água.

★ A figura derrama uma jarra, e o jato de estrelas fracas desce até a boca do Peixe Austral, onde está **Fomalhaut**, «a boca do peixe» em árabe. Ver Erídano e O Golfinho.

⚠ **Esta seção não tem citação antiga, e é de propósito.** Uma constelação é duas coisas: uma história e um desenho. A história deste site sai sempre de uma fonte com endereço; o desenho não se cita — vê-se. O que está acima é o que qualquer pessoa confere olhando para cima, numa noite limpa, sem instrumento nenhum.