ADÔNIS é a única criança da mitologia grega cuja guarda foi decidida por um tribunal. Afrodite escondeu-o numa arca e entregou-a a Perséfone; Perséfone abriu, viu, e não devolveu. Zeus nomeou uma juíza, e a sentença partiu o ano em três.
⚠ O nascimento, que é a parte que ninguém conta
A origem de Adônis é uma das histórias mais desconfortáveis do acervo, e Apolodoro conta-a inteira, sem atenuar.
Por causa da cólera de Afrodite, pois não honrava a deusa, esta Esmirna concebeu paixão pelo pai, e, com a cumplicidade da ama, partilhou o leito do pai sem que ele soubesse, durante doze noites. Mas, quando ele deu por isso, sacou da espada e perseguiu-a; e, sendo apanhada, ela rezou aos deuses para se tornar invisível; e os deuses, por compaixão, transformaram-na na árvore a que chamam smyrna (mirra). Dez meses depois a árvore rebentou e nasceu Adônis, como lhe chamam.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 3.14.4 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★★ **O castigo de Afrodite é a paixão, e a fuga é virar planta.** Ver Afrodite e Nêmesis — é a mesma lógica do excesso: uma moça não honra uma deusa, e a deusa devolve na moeda dela.
★ E a mirra é resina de verdade, usada em perfume e em embalsamamento no Mediterrâneo antigo. **O mito explica de onde vem uma mercadoria** — como o âmbar em Erídano.
★ O processo, e a sentença que parte o ano
A disputa entre as duas deusas é a coisa mais parecida com um litígio de guarda que a Antiguidade escreveu — com depósito, quebra de confiança e arbitragem.
…a quem, por causa da beleza, ainda bebé, Afrodite escondeu numa arca sem o saberem os deuses e confiou a Perséfone. Mas quando Perséfone o viu, não quis devolvê-lo.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 3.14.4 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★★★ O caso vai a Zeus, que **nomeia uma juíza — a musa Calíope** — e a sentença é aritmética: o ano em três partes. Uma com Perséfone, uma com Afrodite, e **uma em que Adônis escolhe.** Ver Perséfone e As Musas.
⚠ E ele dá as duas partes dele a Afrodite. Perséfone reclama; e a partir daí a história caminha para o javali.
A morte, e o que ela repete
O fim é dito em meia linha, e o agente é o mesmo bicho de outra página deste site.
E Adônis, ainda rapaz, foi ferido e morto na caça por um javali, pela cólera de Ártemis.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 3.14.4 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★ **«Pela cólera de Ártemis.»** Apolodoro atribui a morte a uma deusa ofendida, não a um acidente de caçada. Ver Artemis e Javali Calidoneo — é o segundo javali enviado por ela neste acervo.
⚠ E vale a comparação: em Cálidon o javali destrói uma região inteira por um sacrifício esquecido — ver Meleagro; aqui mata um rapaz. **A mesma deusa, o mesmo animal, duas contas cobradas.**