AS ERÍNIAS são a parte mais velha da justiça grega, e a mais estranha para nós: elas não julgam, não ouvem defesa e não são chamadas por um tribunal. São acionadas por uma maldição — a de um pai, a de uma mãe, a de um mendigo mal recebido — e perseguem quem derramou sangue de parente. Não há como negociar com elas, porque não há nada que elas queiram.
Nascidas do sangue de uma castração
A certidão de nascimento mais antiga das Erínias é violenta até na sintaxe: elas não são geradas, são **respingadas**.
…ela gerou as fortes Erínias e os grandes Gigantes de armadura reluzente, segurando lanças compridas nas mãos, e as Ninfas a que chamam Melíades por toda a terra sem limites. E assim que ele cortou os membros com o sílex e os atirou da terra para o mar revolto…
Hesíodo, Teogonia 185 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
★ O sangue de Urano castrado cai na Terra, e da Terra nascem três coisas ao mesmo tempo: **as vingadoras, os gigantes e as ninfas dos freixos.** Ver Uranus, Gaia e Os Gigantes.
A lógica é impecável e é o que torna as Erínias diferentes de tudo o mais no panteão: elas nasceram do primeiro crime de família da história do mundo, e o crime foi um filho contra o pai. **A punição do parricídio é filha do parricídio.**
O que elas fazem
Ésquilo lhes dá uma definição em quatro palavras, e é a mais exata que a literatura grega produziu sobre o ofício delas.
Expulsamos os assassinos das suas casas.
Ésquilo, Eumênides 421 (trad. Herbert Weir Smyth, 1926)
Não matam: expulsam. A pena que aplicam é o exílio e a loucura — a perda do lugar e a perda do juízo —, e o instrumento é um canto.
…enlouquecedor, destruidor da mente, o hino das Fúrias, um encanto que prende a alma, não afinado pela lira, que faz murchar a vida dos mortais.
Ésquilo, Eumênides 330 (trad. Herbert Weir Smyth, 1926)
«Não afinado pela lira» é uma provocação deliberada: a lira é o instrumento de Apolo, o deus que na mesma peça defende o réu. A justiça velha e a justiça nova se enfrentam ali também pela música — e o julgamento das Eumênides termina, justamente, com a criação de um tribunal humano para substituir a perseguição.
A outra certidão: filhas da Noite
Ésquilo dá-lhes outra mãe, e a diferença não é detalhe: muda o que elas são. Nas Eumênides, elas se dizem filhas da Noite — e a frase é uma queixa.
Ó mãe Noite, ouve-me, mãe que me deste à luz como retribuição para os cegos e os que veem. Pois o filho de Leto desonra-me.
Ésquilo, Eumênides 321 (trad. Herbert Weir Smyth, 1926)
★ **«Para os cegos e os que veem»** — quer dizer: para os mortos e para os vivos. A jurisdição delas não acaba com a morte do culpado, e não começa com o conhecimento do crime. Ver Nyx.
E a queixa é contra Apolo, que está protegendo Orestes — um matricida. É a peça em que a Grécia troca a vingança de sangue pelo tribunal, e as Erínias são o lado que perde. No fim, elas mudam de nome e passam a ser as **Eumênides**, «as Bem-Dispostas»: o nome que se dá ao que se teme para não o chamar pelo que é.