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Prometeu

PROMETEU é o titã que ficou do lado errado da guerra certa. Filho de Jápeto e de uma oceânide, ele não luta contra Zeus na Titanomaquia — luta contra ele por causa dos homens, três vezes, e perde as três. E o que a Grécia guardou dele não é a derrota: é a lista do que ele deu.

★ A divisão do boi, em Mecone

A briga começa num banquete de partilha, e Hesíodo conta o truque com todos os passos, como quem descreve uma fraude num contrato.

Pois quando os deuses e os homens mortais tiveram uma disputa em Mecone, então Prometeu adiantou-se a cortar um grande boi e a pôr as porções diante deles, tentando enganar a mente de Zeus. Diante dos outros pôs a carne e as vísceras gordas sobre o couro, cobrindo-as com o bucho do boi; mas para Zeus pôs os ossos brancos enfeitados com arte astuta e cobertos de gordura reluzente.

Hesíodo, Teogonia 535-545 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

★★ **Os dois montes são embalagem contra conteúdo.** Um parece nojento e é bom; o outro parece bom e é osso. Zeus reclama da divisão; Prometeu responde, «sorrindo de leve», que ele escolha o que quiser.

⚠ E Hesíodo é claro sobre o que aconteceu: Zeus **viu o truque** e escolheu os ossos mesmo assim, «e a cólera encheu-lhe o coração». **Ele não foi enganado: aceitou ser enganado, para ter motivo.** É por isso que, até hoje, o que se queima num altar grego é o osso com gordura — o mito explica um rito que já existia.

Ver Iapetus, o pai, e Clímene, a mãe.

O fogo, dentro de uma cana

A represália de Zeus é tirar o fogo. E a contra-represália de Prometeu é o gesto pelo qual ele é lembrado — e o detalhe do transporte é o que o torna concreto.

E desde esse tempo ele lembrou-se sempre do truque, e não quis dar a força do fogo incansável à raça dos homens mortais que vivem na terra. Mas o nobre filho de Jápeto enganou-o e roubou o brilho visível de longe do fogo incansável dentro de uma cana oca de funcho.

Hesíodo, Teogonia 561-570 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

★ **Numa cana de funcho.** A medula seca do *nárthex* arde devagar por dentro sem queimar a casca — é como um pastor grego transportava brasa de verdade, e qualquer leitor do século VIII reconhecia o objeto. **O roubo mais famoso da mitologia é feito com uma ferramenta doméstica.**

A resposta de Zeus vem na frase seguinte: «fez logo um mal para os homens como preço do fogo» — e o mal é uma mulher, moldada de terra por Hefesto e vestida por Atena. Ver Pandora e Epimeteu.

A pena, e a águia

O castigo de Prometeu é o mais detalhado dos três que Zeus distribui aos filhos de Jápeto — e o único que tem funcionário.

E Prometeu, de espírito pronto, atou-o com laços inextricáveis, correntes cruéis, e enfiou-lhe uma estaca pelo meio, e pôs sobre ele uma águia de asas compridas, que lhe comia o fígado imortal; mas de noite o fígado crescia outro tanto, em toda a parte, quanto a ave de asas compridas devorava durante o dia inteiro.

Hesíodo, Teogonia 521-525 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

★★ **A pena não é a dor: é a repetição.** Uma tortura que se completa e se desfaz todos os dias, sem progresso e sem fim. Ver A Águia e Atlas, o irmão que recebeu a outra pena vitalícia.

Quem o solta é Héracles, matando a águia a flecha — «não sem a vontade de Zeus Olímpico», acrescenta Hesíodo, protegendo o rei dos deuses de parecer derrotado. Ver Hercules. E a imortalidade que sobra vem de Sagitário: Quíron, envenenado e sem poder morrer, troca de lugar com ele.

★★★ A lista do que ele deu — e é uma lista de tudo

Ésquilo, no Prometeu Acorrentado, faz o titã enumerar o que ensinou. É o inventário mais completo da civilização humana escrito na Antiguidade, e ele começa por uma frase demolidora sobre o que havia antes.

«Ouçam antes as misérias que assediavam a humanidade — como eles eram sem juízo antes, e eu os fiz ter senso e dotei-os de razão. (…) Primeiro de tudo, embora tivessem olhos para ver, viam sem proveito; tinham ouvidos, mas não entendiam; e, tal como formas em sonhos, ao longo de todos os seus dias, sem propósito faziam tudo em confusão. Não tinham conhecimento de casas construídas de tijolo e voltadas para o sol, nem de trabalho em madeira; mas viviam debaixo da terra como formigas em enxame, em cavernas sem sol.»

Ésquilo, Prometeu Acorrentado 436-471 (trad. Herbert Weir Smyth, 1926)

★★ **«Tinham olhos e viam sem proveito.»** O dom de Prometeu, nesta versão, não é o fogo: é a **percepção**. O fogo entra na lista depois, quase no fim.

A enumeração continua e não pára: as estações, o nascer e o pôr das estrelas, o número, a escrita, a domesticação do boi e do cavalo, o navio de vela, a medicina, a adivinhação, a metalurgia. **Cada técnica que um grego usava, Ésquilo atribui a ele.**

★ O dom que ele conta por último, e que é o mais estranho

Num diálogo curto com o coro, antes da lista, Prometeu diz o que fez pelos homens — e a primeira coisa que menciona não é uma técnica.

«— Fizeste alguma transgressão para além desta? — Sim: fiz com que os mortais deixassem de prever o seu destino. — E que remédio achaste para esse mal? — Fiz habitar dentro do peito deles esperanças cegas. — Grande benefício foi esse que deste aos mortais. — Além disso, dei-lhes o fogo.»

Ésquilo, Prometeu Acorrentado 248-254 (trad. Herbert Weir Smyth, 1926)

★★★ **Ele apagou-lhes a data da morte e pôs no lugar «esperanças cegas».** Antes de Prometeu, na versão de Ésquilo, cada homem sabia o dia em que ia morrer — e por isso não construía nada. O primeiro dom da civilização é a **ignorância do fim**.

⚠ E repare no lugar do fogo na conversa: **entra depois, como quem se lembra.** «Além disso, dei-lhes o fogo.» A coisa pela qual ele é famoso é, no texto dele mesmo, o terceiro item de uma lista.

O nome dele quer dizer «o que pensa antes» — *pro-metheús*. O do irmão quer dizer o contrário. Ver Epimeteu.