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Tântalo

TÂNTALO é o castigo mais bem desenhado da literatura grega e o crime pior contado. Homero mostra-o dentro de água que foge e debaixo de fruta que o vento leva, e **não diz o que ele fez**. Eurípides dá-lhe outro castigo — uma pedra suspensa no ar — e outro crime: não ter sabido travar a língua à mesa dos deuses. Apolodoro cola os dois castigos um no outro e imputa-lhe duas faltas, e **nenhuma delas é o banquete**. O menino cozido aparece, sim — dois parágrafos adiante, numa frase sem sujeito nenhum. E há uma personagem, no meio do corpus, que nomeia a história do banquete só para dizer que **não acredita nela** — e é a bisneta dele, a rapariga que o próprio pai levou ao altar.

A cena, tal como Ulisses a vê

A descrição mais antiga é também a mais exata, e Ulisses conta-a de passagem, entre Tício e Sísifo.

«E vi Tântalo em violento tormento, de pé num lago, e a água chegava-lhe ao queixo. Parecia ter sede, mas não podia tomá-la e beber; pois cada vez que aquele velho se baixava, ávido de beber, cada vez a água era engolida e desaparecia, e aos seus pés aparecia a terra negra, porque algum deus a secava toda. E árvores altas e frondosas deixavam pender os frutos sobre a cabeça dele — peras, e romãs, e macieiras de fruto luzente, e figos doces, e oliveiras carregadas. Mas cada vez que aquele velho estendia a mão para elas, para as agarrar, o vento atirava-as para as nuvens sombrias.»

Homero, Odisseia 11.593 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

★★★ **Note-se o que aqui NÃO está.** Homero desenha o castigo até ao pormenor da lista de frutas, e **não diz uma palavra sobre o que Tântalo fez.** Duas linhas antes tinha explicado o crime de Tício («ofendera Leto»); aqui não explica nada.

★ E o pormenor que os quadros costumam perder: **a água chega-lhe ao queixo.** Não é um homem com sede num deserto — é um homem afogado até à boca, com sede.

★★★ Em Eurípides o castigo é outro, e o crime também

Na abertura do *Orestes*, Electra apresenta a família começando pelo bisavô. E o que ela descreve não se parece com nada do que está em Homero.

«Tântalo, o suposto filho de Zeus, voa no ar, encolhido de medo diante da rocha que lhe paira sobre a cabeça; pagando esta pena, dizem, pela vergonhosa fraqueza que mostrou ao não saber pôr freio aos lábios, quando foi admitido pelos deuses, sendo embora um homem.»

Eurípides, Orestes 5 (trad. Edward P. Coleridge, 1891)

★★★ **Nem água, nem fruta: uma pedra no ar.** E o crime é **falar de mais** — «não saber pôr freio aos lábios». O que ele quebrou foi um segredo, não um filho.

⚠ **E há uma reserva escondida em duas palavras:** «o *suposto* filho de Zeus», e «*dizem*». Eurípides não assina nem a paternidade nem o motivo. Põe as duas coisas na boca da tradição.

★★ Apolodoro cola os dois castigos, e dá dois crimes — nenhum é o banquete

O manual chega séculos depois e faz o que os manuais fazem: junta tudo o que encontrou, sem escolher.

«Tântalo é castigado no Hades tendo uma pedra suspensa sobre ele, estando perpetuamente num lago e vendo aos seus ombros, de um lado e do outro, árvores com fruta a crescer junto ao lago. A água toca-lhe nas mandíbulas, mas quando quer bebê-la, a água seca; e quando quer comer dos frutos, as árvores com os frutos são levantadas pelos ventos até às nuvens. Alguns dizem que ele é assim castigado porque tagarelou aos homens os mistérios dos deuses, e porque tentou repartir a ambrosia com os seus companheiros.»

Pseudo-Apolodoro, Epítome 2.1 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

★★ **A pedra de Eurípides e o lago de Homero passam a estar na mesma frase.** Apolodoro não decide entre as duas versões — soma-as. É assim que se fazem os manuais, e é assim que as versões deixam de se poder separar.

★★★ **E os dois crimes que ele nomeia são de boca:** contar o que não devia e repartir a comida dos deuses. **O banquete não está aqui.** Nem em Homero, nem em Eurípides, nem nesta linha.

⚠ O menino cozido aparece — numa frase sem sujeito

Dois parágrafos adiante, o mesmo autor conta o que aconteceu a Pélops. Vale a pena ler devagar quem é que faz a ação.

«Pélops, depois de degolado e cozido no banquete dos deuses, estava mais belo do que nunca quando voltou à vida; e por causa da sua beleza sem igual tornou-se favorito de Poseidon, que lhe deu um carro alado, tal que, mesmo quando corria pelo mar, os eixos não se molhavam.»

Pseudo-Apolodoro, Epítome 2.3 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

★★★ **«Degolado e cozido» — por quem?** A frase está na voz passiva e não tem sujeito. Apolodoro põe o castigo de Tântalo num parágrafo e o menino cozido noutro, **e nunca liga os dois com um verbo.** A ligação que toda a gente faz de cor não está escrita aqui.

⚠ **Isto não quer dizer que a história não exista** — existe, e o próximo trecho prova-o, porque alguém a nomeia. Quer dizer que, **nas obras citadas nesta página, nenhum autor escreve que Tântalo cozinhou o filho.** Ver Pélops, onde o resto desta vida está contado.

★★★★ E a bisneta dele recusa-se a acreditar na história

Em *Ifigénia entre os Tauros*, a rapariga está numa terra onde se sacrificam estrangeiros à deusa, e é ela que faz os sacrifícios. A dado momento pergunta-se se os deuses querem mesmo aquilo — e a resposta que dá a si própria passa pelo bisavô.

«Não é possível que Leto, a esposa de Zeus, tenha dado à luz semelhante loucura. Julgo que o banquete preparado por Tântalo para os deuses não é de acreditar, que eles se tenham alimentado da carne do filho dele; e penso que a gente daqui, que é ela própria assassina de homens, atribui aos deuses a sua própria maldade.»

Eurípides, Ifigénia entre os Tauros 385 (trad. Edward P. Coleridge, 1891)

★★★★ **É a frase mais dura do episódio inteiro, e não é sobre Tântalo: é sobre os deuses.** «Penso que a gente daqui atribui aos deuses a sua própria maldade.» Ifigénia não diz que a história é impossível de contar — diz que **é impossível de acreditar**, porque quem a conta está a pôr nos deuses o que é dos homens.

★★★ **E quem o diz é a única pessoa do corpus com autoridade para o dizer.** Ifigénia é descendente de Tântalo em linha direta, e é uma rapariga que o próprio pai levou a um altar. **A pessoa que quase foi sacrificada pelo pai recusa-se a acreditar que um pai tenha servido um filho aos deuses.**

⚠ E é a mesma operação de Narciso, onde Pausânias recusa o espelho, e de Helena, onde Heródoto recusa a guerra. **Os antigos discutiam a própria mitologia, e este site mostra a discussão em vez de a esconder.**

A lista dos condenados, e o nome dele no meio

Ovídio arruma os grandes castigos numa só respiração, e é dessa lista que vem a imagem que a Europa guardou.

«…as deusas levantaram-se. O lugar chama-se o Assento do Crime: Tício oferecia as entranhas a serem dilaceradas, e estava estendido por nove jeiras; a ti, Tântalo, nenhuma água se deixa apanhar, e a árvore que te pende por cima foge; ou buscas ou empurras, Sísifo, a pedra que há de voltar; gira Íxion, e persegue-se e foge de si…»

Ovídio, Metamorfoses 4.456-461 (texto latino)

★★ **Quatro nomes e quatro castigos numa frase.** Ver Íxion e Sísifo — o mesmo verso serve as três páginas, porque a condenação deles foi escrita de uma vez só.

★ E Ovídio também não diz o crime. **Dos autores citados aqui, só dois arriscam um motivo, e discordam um do outro.**

★★★ A filha usa o crime do pai como brasão

Níobe, filha de Tântalo, recusa-se a deixar que Tebas dê incenso a Leto e explica porquê. O argumento dela começa pelo pai.

«…e a minha divindade continua sem incenso? Tenho Tântalo por pai, o único a quem foi permitido tocar as mesas dos deuses; a minha mãe é irmã das Plêiades; o grandíssimo Atlas é meu avô, ele que leva nos ombros o eixo do céu; Júpiter é o outro avô, e ainda me glorio de o ter por sogro.»

Ovídio, Metamorfoses 6.172-176 (texto latino)

★★★ **O que condenou o pai é o que a filha exibe.** «O único a quem foi permitido tocar as mesas dos deuses» — a mesma intimidade que, em Eurípides e em Apolodoro, é a origem da falta. Ela não a esconde: **põe-na em primeiro lugar na lista.**

⚠ E é exatamente o gesto dos descendentes de Íxion, que usam o crime do antepassado como título. **Nesta mitologia, a vergonha de uma geração é o brasão da seguinte.** E Níobe acaba em pedra por causa desta fala — ver Níobe.

«Assim se poderia acreditar que Licáon foi transformado em fera, e Níobe, a filha de Tântalo, em pedra. Mas no tempo presente, quando o pecado cresceu a tal altura e se espalhou por toda a terra e por toda a cidade, já os homens não se transformam em deuses, exceto nas palavras aduladoras dirigidas aos déspotas, e a ira dos deuses fica reservada para quando os pecadores tiverem partido para o outro mundo.»

Pausânias, Descrição da Grécia 8.2.5 (trad. W.H.S. Jones, 1918)

★★ **Pausânias acredita nesta.** Diz que num tempo antigo era possível — e que o que mudou não foram os homens, mas a paciência dos deuses. **É um autor a datar o fim dos milagres.**

★★ Ele tem sepultura, e Pausânias diz que a viu

O homem que está no Hades tem um túmulo à superfície, num monte real, na Ásia Menor. E tem-no porque há **dois** Tântalos, e Pausânias precisa de os separar.

«Que o Tântalo aqui sepultado seja o filho de Tiestes ou de Brotéas — dão-se as duas versões — e que tenha casado com Clitemnestra antes de Agamémnon, não o contradirei; mas o túmulo daquele que a lenda diz ser filho de Zeus e de Pluto — vale a pena vê-lo — está no monte Sípilo. Sei-o porque o vi.»

Pausânias, Descrição da Grécia 2.22.3 (trad. W.H.S. Jones, 1918)

★★★ **«Sei-o porque o vi.»** Não é uma referência a um livro: é um homem a dizer que esteve lá. O castigado do Hades tem, para Pausânias, **um endereço à superfície da terra.**

«Que Pélops e Tântalo outrora habitaram no meu país, disso ficaram sinais até ao dia de hoje. Há um lago com o nome de Tântalo e um túmulo famoso, e num pico do monte Sípilo há um trono de Pélops, para lá do santuário de Plastene, a Mãe.»

Pausânias, Descrição da Grécia 5.13.7 (trad. W.H.S. Jones, 1918)

★★ **«No meu país.»** Quem escreve isto é da região — e enumera o que lá se pode ver: um lago com o nome dele, um túmulo, e o trono do filho num pico. **Nada disto é mito; é uma lista de coisas visitáveis.**

⚠ E há um segundo Tântalo, que morre pior

O nome repete-se na família, e o segundo é uma nota de rodapé com uma frase que ninguém esquece.

«E Agamémnon reinou sobre os micénios e casou com Clitemnestra, filha de Tíndaro, depois de matar o marido anterior dela, Tântalo, filho de Tiestes, juntamente com o filho de ambos. E nasceram a Agamémnon um filho, Orestes, e as filhas Crisótemis, Electra e Ifigénia.»

Pseudo-Apolodoro, Epítome 2.16 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

★★★ **«Juntamente com o filho de ambos.»** É meia linha de um manual e é a coisa mais brutal desta página. Agamémnon mata o marido de Clitemnestra e a criança dela, e casa com ela a seguir — **e a frase seguinte lista os filhos que tiveram, entre eles Ifigénia.**

«Mas quanto ao que se seguiu, não sei dizer ao certo se foi Egisto que começou o pecado, ou se Agamémnon pecou primeiro ao assassinar Tântalo, filho de Tiestes. Diz-se que Tântalo recebera Clitemnestra em casamento das mãos de Tíndaro, quando ela ainda era virgem. Eu próprio não desejo condená-los por serem maus por natureza; mas, se a mácula de Pélops e o espírito vingador de Mírtilo lhes seguiram os passos durante tanto tempo, era afinal apenas consequente…»

Pausânias, Descrição da Grécia 2.18.2 (trad. W.H.S. Jones, 1918)

★★ **Pausânias põe a pergunta e não a responde: quem começou?** E recusa-se a dizer que a família era má «por natureza» — prefere a explicação da mácula que se herda. **É a mesma pergunta que as tragédias inteiras não conseguem fechar.**

A maldição que corre para baixo

O que sobra de Tântalo, no teatro, não é o homem: é o nome da linhagem. Os poetas usam-no como se diz o nome de uma doença.

«Uma cólera terrível dos deuses ferveu contra a raça de Tântalo, e leva-a através de tormentos.»

Eurípides, Ifigénia entre os Tauros 987 (trad. Edward P. Coleridge, 1891)

«Ó Demónio que cais sobre esta casa e sobre os dois descendentes de Tântalo…»

Ésquilo, Agamêmnon 1468 (trad. Herbert Weir Smyth, 1926)

★★ **Nem Ésquilo nem Eurípides precisam de contar o crime.** Dizem «a raça de Tântalo» e o público sabe o que se segue: Pélops, Atreu e Tiestes, Agamémnon, Clitemnestra, Orestes. **O nome do bisavô virou o nome da desgraça**, e é assim que ele sobrevive — não pela água que foge, mas por ser o primeiro de uma lista.

A palavra que ficou

Do castigo dele saiu um verbo que se usa todos os dias, em quase todas as línguas da Europa: **tantalizar** — pôr à vista o que não se pode ter.

★★ **É o único castigo grego que virou palavra comum.** Sísifo virou adjetivo de tarefa inútil e Íxion não virou nada; a cena da água que baixa e da fruta que sobe foi tão bem desenhada por Homero que **a língua ficou com ela.**

⚠ E a palavra guarda o essencial e perde o resto: guarda a proximidade insuportável, **e perde por completo a pergunta de por que é que ele está ali.**

⚠ O que esta página não pode provar

⚠ **Que Tântalo tenha cozinhado o filho.** Nenhuma das sete obras citadas aqui o escreve. Apolodoro conta o castigo dele e dá dois motivos — a boca solta e a ambrosia repartida —, e conta o menino cozido dois parágrafos adiante, na voz passiva e sem sujeito. Eurípides nomeia a história do banquete uma vez, e é **para dizer que não acredita nela.**

⚠ **Qual é o castigo verdadeiro.** Homero dá a água e a fruta; Eurípides dá a pedra suspensa; Apolodoro dá as duas coisas ao mesmo tempo. Esta página apresenta as três e não arbitra.

⚠ **De quem ele era filho.** Eurípides escreve «o *suposto* filho de Zeus». Pausânias diz que a lenda o faz filho de Zeus e de Pluto. Nenhum deles assina.

⚠ **Quantos Tântalos houve.** Pausânias conta pelo menos dois e não consegue decidir se o segundo era filho de Tiestes ou de Brotéas — «dão-se as duas versões».

⚠ **De onde vem o nome.** As obras citadas não o explicam. O verbo «tantalizar» vem dele, e não ao contrário; este site não completa fontes com etimologia que elas não trazem.