Ir para o conteúdo

Início

Perses (o titã)

PERSES era filho de Crio e de Euríbia, irmão de Astreu e de Palas. Hesíodo dá-lhe meia linha e um elogio estranho — diz que se distinguiu «entre todos os homens pela sabedoria», o que é uma coisa curiosa de se dizer de um deus. Depois casa-o com Astéria e não volta a falar dele. ★★ **O que fica é a filha:** Hécate, a divindade a quem a Teogonia dedica mais versos do que a qualquer outra.

⚠ Três Perses, e só um é este

O nome colide três vezes nas fontes deste acervo, e vale separar antes de qualquer coisa. **Perses, o titã**, é este: filho de Crio, marido de Astéria, pai de Hécate.

O segundo é **Perses, filho de Perseu e de Andrómeda** — e é dele que os gregos faziam vir o nome de um império inteiro.

Quando Perseu, filho de Dânae e de Zeus, chegou a Cefeu, filho de Belo, e casou com a filha dele, Andrómeda, nasceu-lhe um filho a que chamou Perses, e deixou-o ali; pois Cefeu não tinha descendência masculina. Foi deste Perses que os persas tomaram o nome.

Heródoto, Histórias 7.61.3 (trad. A. D. Godley, 1920)

★ Ver Perseu, Dânae, Andrômeda e Cefeu. **Heródoto está a explicar os inimigos da Grécia como parentes dela** — e é assim que a genealogia mítica faz política.

⚠ E o terceiro Perses não é deus nenhum: **é o irmão de Hesíodo**, o homem a quem Os Trabalhos e os Dias é dirigido, que lhe tomou parte da herança subornando os juízes. O poema inteiro é uma repreensão em verso.

★★ O elogio que ninguém explica

A meia linha que a Teogonia lhe dá vem carregada de um adjetivo que não combina com o resto.

…e deu à luz o grande Astreu, e Palas, e Perses, que também se distinguiu entre todos os homens pela sabedoria.

Hesíodo, Teogonia 375 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

★★★ **«Entre todos os homens.»** Repare na medida: um titã elogiado por comparação com humanos, e não com deuses. E o elogio fica sem lastro — **nenhuma fonte diz o que ele soube, quando o soube, nem para que serviu.**

⚠ O nome empurra para o lado contrário. A filologia liga *Pérses* ao verbo *pérthō*, «saquear», «destruir» — a mesma raiz que se propõe para «Perseu». **O titã com nome de destruidor é apresentado como sábio.** Isto é leitura moderna e fica declarada como leitura, não como facto: as fontes antigas não comentam o nome.

★ E há uma sugestão de continuidade que o próprio poema deixa: a filha dele será a deusa da feitiçaria e das encruzilhadas. **A «sabedoria» do pai e o saber oculto da filha ficam encostados um ao outro, sem que ninguém os ligue.**

★★★ A única obra dele é uma filha

O casamento aparece no fim do bloco sobre a casa de Ceos, e junta duas linhas titânicas que até ali corriam separadas.

Então a deusa, pelo amor do deus, concebeu e deu à luz Leto de manto escuro, sempre suave, benévola para os homens e para os deuses imortais, suave desde o começo, a mais gentil de todo o Olimpo. Deu à luz também Astéria de nome feliz, a quem Perses um dia…

Hesíodo, Teogonia 405 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

…levou à sua grande casa para ser chamada esposa querida. E ela concebeu e deu à luz Hécate, a quem Zeus, filho de Cronos, honrou acima de todos.

Hesíodo, Teogonia 410 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

★ Astéria é filha de Céos e de Febe, e irmã de Leto — a mãe de Apolo e Ártemis. **Perses casa com a tia dos dois olimpianos de Delos**, e a filha que lhe nasce é a única deusa da Teogonia com parte na terra, no mar e no céu.

★★★ E é aqui que Hesíodo faz a coisa mais estranha do poema: **interrompe a genealogia e dedica cerca de quarenta versos seguidos a Hécate** — mais do que dá a quase qualquer olímpico. Ver Hécate. **O pai não recebe um verso; a filha recebe quarenta.**

O pai que a filha apagou

Apolodoro reduz tudo a seis palavras, e a redução é fiel: não há mais nada para dizer.

…e da Aurora e de Astreu nasceram os ventos e as estrelas; de Perses e Astéria nasceu Hécate; e de Palas e do Estige nasceram a Vitória, o Domínio, a Emulação e a Violência.

Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.2.4 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

⚠ **Não há um único ato de Perses em fonte nenhuma.** Não combate na Titanomaquia, não é acorrentado no Tártaro, não fala. A tradição tardia fez dele um deus da destruição pelo nome, e uma versão órfica dá-lhe outros filhos; **nada disso está nas fontes conferíveis.**

★★★ E o padrão é da família inteira. Os três filhos de Krios — Astreu, Palas e Perses — **não têm um episódio entre os três.** Têm descendência: o céu noturno, as quatro personificações que guardam o trono de Zeus, e a deusa das encruzilhadas.

★ Ver Astreu e Palas. **Uma casa inteira que só existe pelo que gerou** — e é essa a lacuna que estas três páginas mostram em vez de tapar.