SÍSIFO é a imagem que o Ocidente escolheu para o trabalho sem sentido, e a escolha é justa: Homero descreve o esforço, a chegada ao alto, e a queda — nesta ordem, todas as vezes. O que faz o castigo funcionar não é o peso: é que ele quase dá certo.
O que Ulisses viu
A descida ao mundo dos mortos, no livro 11 da Odisseia, é onde os três grandes castigos da mitologia grega aparecem juntos, um a seguir ao outro. Sísifo é o terceiro.
«Sim, e vi Sísifo em tormento violento, tentando erguer uma pedra enorme com as duas mãos. Na verdade, empurrando com as mãos e com os pés ao mesmo tempo, ia erguendo-a até ao cimo de uma colina; mas, sempre que estava prestes a fazê-la passar o cume, a força virava-a para trás, e de novo a pedra sem vergonha rolava até ao chão. Mas ele, esticando-se, tornava a empurrá-la, e o suor escorria-lhe dos membros, e a poeira levantava-se-lhe da cabeça.»
Homero, Odisseia 11.593 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)
★★ **«Sempre que estava prestes a fazê-la passar o cume.»** O castigo não é empurrar: é **quase conseguir**, todas as vezes. Homero repete o «de novo» que faz a frase doer.
⚠ E note-se o detalhe físico: **o suor e a poeira.** Sísifo é uma sombra no mundo dos mortos, e mesmo assim sua. A morte, na Odisseia, não tira o corpo de quem é castigado.
Por que ele está ali — e a fonte não diz
Aqui está o que quase nenhum resumo admite: **Homero não explica o crime de Sísifo.** Descreve o castigo e passa adiante.
Das outras duas figuras da mesma cena, o motivo está escrito: Tício «ofereceu violência a Leto» — ver Leto —, e Tântalo tem o dele contado noutro lugar. De Sísifo, nada.
★ As histórias que a tradição posterior lhe atribui — ter denunciado um rapto de Zeus, ter acorrentado a própria Morte, ter enganado Perséfone para voltar do Hades — **não estão nas fontes conferíveis deste site**, e por isso ficam declaradas como tradição, não como texto.
⚠ O que Homero **diz** dele, noutro lugar, é uma linha só e é elogiosa: Sísifo era «o mais astuto dos homens». **A Grécia castigou eternamente o homem mais inteligente que imaginou, e não escreveu por quê.**
A companhia: os outros dois
Vale ler os três juntos, porque a série tem uma lógica: cada castigo é a caricatura de um apetite.
«E vi Tício, filho da gloriosa Terra, deitado no chão. Estendia-se por nove jeiras, e dois abutres estavam sentados, um de cada lado, e rasgavam-lhe o fígado, enfiando os bicos nas entranhas, e ele não conseguia enxotá-los com as mãos. (…) E vi Tântalo em tormento violento, de pé num lago, e a água chegava-lhe ao queixo. Parecia sedento, mas não conseguia apanhá-la e beber; pois sempre que o velho se inclinava, ávido de beber, a água era engolida e desaparecia, e aos pés dele aparecia a terra negra.»
Homero, Odisseia 11.593 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)
**Tício** é rasgado por abutres — o corpo grande demais, punido no órgão. **Tântalo** tem água no queixo e fruta sobre a cabeça, e nem uma nem outra se deixam alcançar: o apetite que nunca se sacia. Ver Tântalo. **Sísifo** tem a pedra.
★★ Os três compartilham a mesma estrutura, e ela é a assinatura do inferno grego: **nada se completa, e nada acaba.** É a mesma lógica da sombra de Órion, que caça para sempre os animais que já matou, e do fígado de Prometeu, que cresce de noite o que a águia comeu de dia.