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Tétis

TÉTIS era uma das cinquenta filhas de Nereu, e a mais poderosa delas. Zeus e Posídon a desejaram, e desistiram os dois quando souberam da profecia: o filho que ela tivesse seria maior que o pai. Para que esse filho não ameaçasse o Olimpo, os deuses a casaram com um mortal — Peleu — e do casamento nasceu Aquiles. Toda a Ilíada é, num certo sentido, a consequência dessa decisão: uma deusa que teve o destino arrumado por outros, e que passa o poema inteiro tentando salvar o filho que ela sabe que vai morrer.

⚠ Duas Tétis, e não é a mesma

Antes de tudo, uma distinção que a tradição portuguesa embaralha. Há **duas** deusas com nome parecido, de gerações diferentes: Tétis, a titânide (Tethys), esposa de Oceano e mãe dos rios e das oceânides; e Tétis, a nereida (Thetis), filha de Nereu e mãe de Aquiles. Esta página é da segunda; a primeira tem verbete próprio neste acervo.

Em grego os nomes são distintos — Τηθύς e Θέτις — e nenhum autor antigo as confunde. A colisão nasce da transliteração para as línguas modernas, e vale desfazê-la sempre que o nome aparecer sozinho.

Uma das cinquenta nereidas

Hesíodo a arrola entre as filhas de Nereu, o velho do mar, e de Dóris. A lista é longa e Tétis aparece cedo, ao lado de Anfitrite — as duas irmãs que a poesia grega tirará do coro para dar papel próprio.

E de Nereu e de Dóris de belos cabelos, filha do Oceano, o rio perfeito, nasceram filhas belíssimas entre as deusas: Ploto, Eucrante, Sao e Anfitrite, e Eudora, e Tétis, Galena e Glauce.

Hesíodo, Teogonia 244 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

Ser nereida, na Ilíada, significa morar no fundo do mar com o pai e as irmãs. É de lá que Tétis sobe todas as vezes em que Aquiles a chama — e o poema descreve a subida com a mesma atenção que dá às batalhas.

A deusa que Zeus obedece

A cena que abre a Ilíada é a de um filho chamando a mãe. Aquiles, humilhado por Agamêmnon, senta-se na praia e chora; e o que ele pede a Tétis não é consolo, é intervenção no Olimpo.

Mas Aquiles rompeu em lágrimas e afastou-se dos companheiros, e sentou-se à beira do mar cinzento, olhando para o alto-mar cor de vinho. Ardentemente rezou à sua mãe querida, com as mãos estendidas.

Homero, Ilíada 1.357 (trad. Augustus Taber Murray, 1924)

O que se segue é o que faz de Tétis uma figura sem paralelo. Ela sobe ao Olimpo, toca os joelhos de Zeus na postura da súplica formal — e Zeus cede. A razão que ela invoca não é maternal: é uma dívida antiga, de quando ela o salvou de uma revolta dos outros deuses. Na Ilíada, Zeus deve um favor a uma nereida, e paga.

A profecia e o casamento

O casamento com Peleu não foi escolha dela. A tradição — desenvolvida sobretudo por Píndaro e por Ésquilo — conta que Zeus e Posídon disputavam Tétis até que se soube da profecia: o filho dela superaria o pai. Um deus com um filho assim seria o fim do Olimpo, e a solução foi entregá-la a um mortal.

Peleu teve de a agarrar e segurar enquanto ela se transformava em fogo, água, leão e serpente — o mesmo truque que se usa contra os deuses marinhos, que mudam de forma para escapar. É um casamento que começa com uma luta corporal, e a poesia grega nunca o apresenta como feliz.

Foi na festa desse casamento que a Discórdia, não convidada, lançou a maçã «para a mais bela» — o gesto de onde sai o Julgamento de Páris e, dele, a guerra de Troia. A mãe de Aquiles é, portanto, a razão de haver Ilíada em dois sentidos: por ter tido o filho e por ter tido as bodas.

A mãe que sabe

O que dá a Tétis a sua força trágica é o conhecimento. Ela sabe, desde o começo, que Aquiles pode escolher entre uma vida longa e obscura ou uma curta e gloriosa, e sabe qual ele vai escolher. Cada vez que o ajuda, está acelerando o que teme.

É ela quem consegue de Hefesto as armas novas depois da morte de Pátroclo — e o escudo que o deus fabrica, com o mundo inteiro gravado nele, é a passagem mais longa de descrição da Ilíada. Uma mãe encomenda ao ferreiro dos deuses o objeto mais bonito do poema para um filho que ela sabe que vai enterrar.

⚠ Duas Tétis, e a diferença de uma letra

Antes de qualquer história, o aviso — porque este é o par de nomes que mais confunde quem lê mitologia grega em português.

**Tétis, a Nereida** (grego *Thétis*) é filha de Nereu, mãe de Aquiles, deusa do mar. **Tétis, a Titânide** (grego *Tethýs*) é filha de Urano e Gaia, mulher do Oceano, mãe de todos os rios. Ver Thetys. Em grego as duas se distinguem à vista; em português, quase não.

Apolodoro lista a Nereida entre as cinquenta filhas de Nereu e Dóris:

A Nereu e a Dóris nasceram as Nereidas, cujos nomes são Cimótoe, Espeio, Glaucónome, Nausítoe, Hálie, Erato, Sao, Anfitrite, Eunice, Tétis, Eulímene, Ágave, Eudora, Doto, Ferusa, Galateia, Acteia…

Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.2.7 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

★ Ela entra na lista sem destaque nenhum, entre a Eunice e a Eulímene. E é a mais importante da lista — porque é a mãe do maior guerreiro que a Grécia imaginou.