AS MUSAS eram as nove filhas de Zeus e de Mnemósine, a Memória — e o parentesco é a definição. Toda a poesia grega antiga era falada de cor, sem livro, e por isso a arte de compor e a arte de lembrar eram a mesma coisa. Quem canta não inventa: recebe. É por isso que a Ilíada, a Odisseia e a Teogonia não começam contando a história, mas pedindo a alguém que a conte — e esse pedido não é enfeite de abertura, é a declaração de onde vem o que se vai ouvir.
Filhas da Memória
Hesíodo dá a genealogia num par de versos, no trecho final da Teogonia em que arrola os amores de Zeus. A mãe é Mnemósine, a Memória, e o número é nove.
E de novo, ele amou Mnemósine de belos cabelos: e dela nasceram as nove Musas de coroa de ouro, que se comprazem nas festas e nos prazeres do canto.
Hesíodo, Teogonia 915 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
Antes de Hesíodo o número não era fixo. Havia tradições com três Musas — as Musas mais antigas, ligadas ao monte Hélicon —, e é dessa camada anterior que o mapa do Theoi separa as «Musas Anciãs» das nove olímpicas. A fixação em nove, com nome próprio para cada uma, é obra da Teogonia, e foi ela que venceu.
Os nove nomes
A lista canônica está no proêmio da Teogonia, e Hesíodo a fecha destacando uma delas — a única a quem atribui primazia.
Estas coisas cantavam as Musas que habitam o Olimpo, as nove filhas geradas pelo grande Zeus: Clio e Euterpe, Talia, Melpômene e Terpsícore, e Érato e Polímnia e Urânia e Calíope — que é a primeira de todas.
Hesíodo, Teogonia 75 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
⚠ A repartição de domínios que se aprende hoje na escola — Clio a história, Talia a comédia, Melpômene a tragédia, Urânia a astronomia — **não é de Hesíodo**. Ele dá os nomes e não diz o que cada uma faz. A especialização é bem posterior, de época helenística e romana, e foi fixada por gramáticos, não por poetas. Um site que promete fidelidade tem de dizer isso: os atributos são tradição, e tradição tardia.
Por que a poesia começa pedindo
O primeiro verso da Teogonia não anuncia um assunto: anuncia de onde o poema vem. É a fórmula que abrirá quase toda a poesia grega arcaica, e ela é literal — o poeta não está sendo modesto.
Pelas Musas do Hélicon comecemos a cantar — elas que possuem o grande e sagrado monte Hélicon, e dançam com pés leves em torno da fonte de águas escuras e do altar do poderosíssimo filho de Crono.
Hesíodo, Teogonia 1 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
Hesíodo é o único poeta grego que conta o próprio encontro com elas. No mesmo proêmio, descreve-se pastoreando ovelhas ao pé do Hélicon quando as Musas lhe falam, entregam-lhe um ramo de loureiro e sopram nele um canto divino. É a cena fundadora da vocação poética na Europa, e ela acontece com um camponês trabalhando.
…e quando ele atravessa uma assembleia, saúdam-no como a um deus, com reverência mansa, e ele se destaca entre os reunidos: tal é o dom sagrado das Musas aos homens.
Hesíodo, Teogonia 94 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
O que elas davam, e a quem
O dom das Musas em Hesíodo não é só o canto: é a fala que persuade. No mesmo trecho, ele descreve o rei justo como alguém em quem as Musas derramaram doce orvalho sobre a língua, e cujas palavras acalmam uma disputa. Poesia e autoridade política saem, ali, da mesma fonte.
As Musas também são temíveis. A tradição guarda vários casos de mortais que as desafiaram e perderam — Tâmiris, o cantor trácio, que Homero diz ter sido privado da voz e da memória; e as filhas de Píero, transformadas em pegas. O castigo é sempre o mesmo, e é o mais coerente possível: quem disputa com a Memória perde a capacidade de lembrar.
★★★ A frase mais perigosa da poesia grega
A Teogonia abre com as Musas a aparecerem a um pastor no monte Hélicon, e a primeira coisa que elas dizem não é um elogio: é um insulto seguido de uma confissão.
«Pastores do descampado, coisas miseráveis de vergonha, meros ventres: sabemos dizer muitas coisas falsas como se fossem verdadeiras; mas sabemos, quando queremos, proferir coisas verdadeiras.»
Hesíodo, Teogonia 26-35 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
★★★ **As deusas da poesia declaram, na sua primeira fala, que sabem mentir.** E não dizem qual das duas coisas vão fazer com aquele pastor.
⚠ Nenhuma outra tradição literária do Mediterrâneo começa assim. É a fonte da inspiração avisando que a inspiração não garante verdade — e é, se se quiser, a certidão de nascimento da crítica de fontes. **Este site inteiro é uma resposta tardia a essa frase:** se a Musa pode mentir, cita-se o verso e diz-se onde ele está.
Depois do aviso, elas entregam o presente: um ramo de loureiro e «uma voz divina para celebrar as coisas que serão e as que foram antes». Ver Mnemosyne, que é a mãe delas, e Apolo.
O que elas cantam, e a ordem
Antes do encontro com o pastor, Hesíodo descreve o que as Musas fazem de noite — e o repertório delas é, ele próprio, um documento.
Dali levantam-se e saem de noite, veladas em névoa espessa, e soltam o seu canto com voz encantadora, louvando Zeus porta-égide, e a soberana Hera de Argos que anda em sandálias de ouro, e a filha de Zeus porta-égide, Atena de olhos brilhantes, e Febo Apolo, e Ártemis que se compraz nas setas, e Poseidon que segura a terra e a sacode, e a venerável Têmis, e Afrodite de olhar rápido, e Hebe de coroa de ouro, e a bela Dione, Leto, Jápeto, e Cronos de astuto conselho, Eos, e o grande Hélio…
Hesíodo, Teogonia 1-25 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
★ **É uma lista de precedência.** As Musas cantam os deuses numa ordem, e a ordem é a hierarquia do Olimpo tal como Hesíodo a entendia — Zeus, Hera, Atena, Apolo, Ártemis, Poseidon, e depois a geração de trás.
Repare em quem está lá dentro: Hebe, Dione, Jápeto, Cronos. **Titãs e divindades menores no mesmo hino que os olimpianos.** Ver Hebe, Iapetus e Cronos.