PASÍFAE é filha do Sol e mulher de Minos, rei de Creta. ⚠ **A paixão pelo touro não é um capricho dela: é uma pena aplicada ao marido e executada no corpo da mulher.** Poseidon manda um touro do mar, Minos fica com ele em vez de o sacrificar, e a fatura chega a quem não a assinou. O filho que nasce daí é o Minotauro — ver Minotauro.
⚠ A dívida era do marido
A história começa com um pedido de legitimidade. Minos disputa o trono de Creta e precisa de uma prova pública de que os deuses estão com ele — e a prova que escolhe é um animal.
E, ao sacrificar a Poseidon, rezou para que um touro aparecesse das profundezas, prometendo sacrificá-lo quando aparecesse. Poseidon mandou-lhe de facto um belo touro, e Minos obteve o reino, **mas mandou o touro para as manadas e sacrificou outro.**
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 3.1.3 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★★ **Ele usa o milagre e não paga o milagre.** O touro é bom demais para morrer, e o rei substitui-o por outro — a fraude é de gado, e é mesquinha.
⚠ E aqui está o que esta página existe para dizer: **quem responde pela fraude não é ele.** Ver Poseidon, que escolhe onde cobrar.
★★★ O castigo entra pela mulher
A frase de Apolodoro é curta e distribui as responsabilidades sem hesitar.
Mas, irado com ele por não ter sacrificado o touro, Poseidon tornou o animal selvagem **e maquinou que Pasífae concebesse uma paixão por ele.**
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 3.1.4 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★★★ **«Maquinou.»** O verbo não deixa margem: a paixão é engenharia divina, não desejo. Pasífae é o instrumento do castigo, e o alvo é o marido.
⚠ É a mesma economia de Alcmena e de Io: **quando um deus quer atingir um homem, o corpo em que trabalha é o de uma mulher da casa dele.**
A máquina de madeira, descrita passo a passo
O que se segue é a passagem mais técnica da mitologia grega depois das asas de Dédalo — e é o mesmo engenheiro.
No seu amor pelo touro, ela encontrou um cúmplice em Dédalo, um arquiteto que fora banido de Atenas por homicídio. **Ele construiu uma vaca de madeira sobre rodas**, pegou nela, escavou-a por dentro, cosê-la na pele de uma vaca que tinha esfolado, e pô-la no prado em que o touro costumava pastar. Depois introduziu ali Pasífae; e o touro veio e acasalou com ela, como se fosse uma vaca de verdade.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 3.1.4 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★★ **Rodas, casco escavado, pele verdadeira cosida por fora.** Não há magia nenhuma: há um projeto, um material e uma montagem no sítio certo. Ver Dédalo, que constrói primeiro o problema e depois a caixa onde o problema é guardado.
★ E o filho tem nome próprio antes de ter apelido: **chama-se Asterião** — o nome do rei que criou Europa e do avô adotivo de Minos. **«Minotauro» quer dizer só «o touro de Minos», e é o nome que a família lhe pôs em vez do dele.** Ver Minotauro e Europa.
★★★ A feiticeira, que quase ninguém cita
⚠ A tradição larga Pasífae no parto. Apolodoro não larga — e o que lhe reserva, quinze capítulos adiante, é a vingança mais fria do livro. Convém lembrar de quem ela é filha.
Minos, residindo em Creta, promulgou leis, **e casou com Pasífae, filha do Sol e de Perseis**; mas Asclepíades diz que a mulher dele era Creta, filha de Asterião.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 3.1.2 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★ **Filha do Sol e de Perseis é a mesma certidão de Circe** — são irmãs. E a família tem um ofício: ver Hélio, e reparar em quantas feiticeiras da mitologia grega descendem dele.
Ora, se alguma mulher tivesse relações com Minos, era-lhe impossível escapar com vida; pois, como Minos coabitava com muitas mulheres, **Pasífae enfeitiçou-o, e sempre que ele levava outra mulher para a cama, ele descarregava feras nas juntas dela**, e assim as mulheres pereciam.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 3.15.1 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★★★ **O rei que traía passou a matar quem traía com ele — e sem saber que era ele a arma.** ⚠ A pena que ela desenha não o impede de nada: deixa-o continuar, e faz de cada adultério um homicídio de que ele é o autor involuntário.
⚠ E note-se a simetria, que é perfeita e não é acaso: **Poseidon pôs um animal dentro do casamento dela; ela pôs animais dentro do casamento dele.** Ver Minotauro, Ariadne e Teseu — o resto da casa paga o resto da conta.