CIRCE é a virada mais estranha da Odisseia. Ela transforma metade da tripulação em porcos; é derrotada por uma erva e uma espada; e a partir daí passa a ser a pessoa que diz a Ulisses tudo o que ele precisa saber para sobreviver ao resto do poema. Sem o briefing dela, ninguém passa por Cila, pelas Sereias nem pelo gado do Sol.
A casa no meio do bosque, e os bichos à porta
A primeira descrição dela é feita de fora, e o que assusta não é ela: são os animais mansos demais.
«Dentro das clareiras do bosque acharam a casa de Circe, construída de pedra polida, num lugar de vista larga, e em volta dela havia lobos da montanha e leões, que a própria Circe tinha enfeitiçado, pois lhes dera drogas malignas. Mas esses animais não se atiraram aos meus homens, e sim andaram à volta deles a fazer festa, abanando as caudas compridas.»
Homero, Odisseia 10.230 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)
★★ **Lobos e leões abanando a cauda.** Homero constrói o horror pela docilidade — o mesmo procedimento do touro manso de Touro e da voz de cachorrinho de Cila. **O que é errado, na Odisseia, quase nunca ruge.**
E lá dentro ela está a cantar diante de um tear grande, «tal como é o trabalho das deusas». **Uma mulher tecendo e cantando, e a porta guardada por feras domesticadas.**
O molu, e a coisa que Hermes diz
Ulisses é o único que não vira porco, e a razão é técnica: recebe um antídoto de Hermes, com instruções de uso. Ver Hermes.
A erva chama-se **molu**: «raiz negra e flor branca como leite», diz o poema, e acrescenta que **«é difícil de arrancar para os homens mortais, mas os deuses podem tudo»** — a única vez em toda a Odisseia em que Homero admite uma planta que a farmacopeia humana não alcança.
★ E o conselho de Hermes é o que resolve: quando ela sacar a varinha, **avance com a espada como quem vai matar**. Ela vai oferecer a cama; aceite, mas faça-a jurar primeiro pelo grande juramento dos deuses que não fará mal. Ver Estige.
⚠ **É outra vez o juramento como mecanismo de segurança**, exatamente como Hipnos exige de Hera — ver Hipnos. Na Grécia, quem lida com um poder maior não pede boa vontade: pede fiança.
★ A virada: o inimigo vira o guia
Derrotada, Circe faz uma coisa que nenhum outro obstáculo do poema faz — hospeda a tripulação por um ano e, na despedida, entrega o roteiro.
É ela quem manda Ulisses descer ao mundo dos mortos para consultar Tirésias, e quem lhe dá o procedimento exato: a cova, as libações, o sangue das ovelhas, quem deixar beber primeiro. Ver Submundo e Os Juízes dos Mortos.
★★ E, na volta, é ela quem explica **as Sereias, as Rochas Errantes, Cila, Caríbdis e o gado do Sol** — os cinco perigos do resto da viagem, um a um, com instrução de manobra. Ver Sirenes, Cila, Caríbdis e Hélio.
⚠ Sem esse briefing o poema não fecha: **cada morte evitada nos livros 12 e seguintes é uma frase de Circe sendo obedecida** — e cada morte que acontece é uma frase dela sendo esquecida. É o caso do gado do Sol, que ela proibiu por extenso.
De quem ela é filha, e o que isso explica
Circe é filha de Hélio e de uma oceânide, e irmã de Eetes, o rei da Cólquida que guarda o Velo de Ouro. Ver Hélio e Jasao.
★ Isso põe **Medeia como sobrinha dela** — e as duas são, na literatura grega, as duas grandes conhecedoras de drogas. **A farmacologia mítica é um negócio de família, e a família é a do Sol.**
⚠ E há uma consequência que quase nenhum resumo aponta: quando Ulisses come o gado de Hélio, ele está ofendendo **o pai da mulher que acabou de o hospedar por um ano.** O poema não comenta; mas a geografia da Odisseia é mais parenta do que parece.