LAOMEDONTE é pai de Príamo e é a razão pela qual Poseidon odeia Troia. ⚠ **A muralha inexpugnável da Ilíada é obra assalariada** — e o salário nunca foi pago. Depois de enganar dois deuses, o mesmo rei enganou Hercules, que voltou com dezoito navios e tomou a cidade. **A Troia de Páris é a segunda Troia; a primeira caiu por causa de uma fatura.**
★★★ Dois deuses ao serviço, por um ano e por um preço
No canto 21 da Ilíada, Poseidon tenta convencer Apolo a lutar contra os troianos. E o argumento que usa não é teológico: **é laboral.**
«Louco, que coração sem juízo é o teu! Nem te lembras de todos os males que nós dois, sozinhos entre os deuses, suportámos em Ílion, quando viemos por ordem de Zeus e **servimos o soberbo Laomedonte por um ano e por um salário fixado**, e ele era o nosso capataz e impunha-nos as suas ordens. Eu construí para os troianos, em volta da cidade, uma muralha ampla e formosíssima, para que a cidade nunca pudesse ser rompida; e tu, Febo, apascentaste os bois de passo bamboleante nas encostas do Ida arborizado.»
Homero, Ilíada 21.434 (trad. Augustus Taber Murray, 1924)
★★★ **«Ele era o nosso capataz.»** ⚠ Não é uma metáfora: Homero põe o deus do mar e o deus do sol num contrato de um ano, com prazo, com tarefas e com um mortal a mandar. **A relação entre deuses e homens na Ilíada tem, uma vez, a forma de um emprego.**
★★ E a muralha que Poseidon diz ter feito «para que a cidade nunca pudesse ser rompida» é a mesma que resiste dez anos ao melhor exército da Grécia. **A obra foi entregue com a qualidade prometida. O que falhou foi o pagamento.**
«Mas quando por fim as estações alegres traziam ao seu termo o prazo do nosso salário, **então o terrível Laomedonte defraudou-nos a ambos de toda a paga**, e mandou-nos embora com uma palavra de ameaça. Ameaçou que nos ataria os pés e as mãos por cima, e que nos venderia para ilhas que ficam ao longe. E fez menção de nos cortar a ambos as orelhas com o bronze.»
Homero, Ilíada 21.434 (trad. Augustus Taber Murray, 1924)
⚠⚠ **Ele ameaçou vender dois deuses como escravos e cortar-lhes as orelhas.** É a hybris levada ao ponto de deixar de ser interessante e passar a ser administrativa — **e é a causa primeira da queda de Troia, muito antes de Páris ver Helena.** Ver Apolo.
A conta chega: peste, monstro e a filha na rocha
Apolodoro conta a mesma história do lado troiano — e acrescenta a razão pela qual os deuses aceitaram o emprego.
«Pois, **querendo pôr à prova a desmedida de Laomedonte**, Apolo e Poseidon assumiram a aparência de homens e comprometeram-se a fortificar Pérgamo a salário. Mas, quando a tinham fortificado, ele não lhes quis pagar o salário. Por isso Apolo mandou uma peste, e Poseidon um monstro marinho que, trazido por uma cheia, arrebatava a gente da planície.»
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.5.9 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★★★ **Era um teste.** ⚠ Os deuses não precisavam do dinheiro nem do trabalho: disfarçaram-se para verificar uma suspeita sobre o caráter do rei. **A muralha de Troia é o instrumento de uma sondagem moral** — e o rei reprovou.
★ E o castigo é duplo e complementar: **peste do deus do arco, monstro do deus do mar.** Cada um cobra na sua moeda.
«Mas, como os oráculos anunciassem libertação destas calamidades se Laomedonte expusesse a filha Hesíone para ser devorada pelo monstro marinho, **expô-la, atando-a às rochas junto ao mar**.»
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.5.9 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
⚠ **É a mesma cena de Andrômeda, traço por traço**: a filha do rei atada à rocha, o monstro marinho, o herói que passa por ali. Ver Cetus e Perseu. **A diferença está no que acontece depois de o herói ganhar.**
★★ E ele engana também quem lhe salva a filha
Hércules, de regresso da expedição às Amazonas, aporta em Troia e faz uma proposta comercial: mata o monstro, e em troca leva as éguas divinas.
★ E as éguas têm proveniência: **foram o pagamento de Zeus pelo rapto de Ganimedes** — o filho de Laomedonte levado para o Olimpo. ⚠ **O rei já tinha na cavalariça a compensação de um negócio anterior com os deuses.**
«Ao dizer Laomedonte que lhas daria, Hércules matou o monstro e salvou Hesíone. **Mas, quando Laomedonte não quis dar a recompensa estipulada**, Hércules fez-se ao mar depois de ameaçar guerra a Troia.»
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.5.9 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★★★ **É a terceira vez, e é o mesmo movimento exato:** contrata, recebe o serviço, não paga. **Laomedonte não é ganancioso — é reincidente**, e o texto trata-o como um padrão, não como um lapso.
⚠ E a ameaça não é retórica: é o anúncio da primeira destruição de Troia, marcada com anos de antecedência e cumprida à letra.
★★★ A primeira queda de Troia, e o nome de Príamo
Hércules volta com dezoito navios de cinquenta remos. É um exército pequeno — a comparar com os mil e cem navios de Agamêmnon — e chega.
★ E na brecha há uma cena que vale a página inteira: **Télamon entra na muralha primeiro, e Hércules puxa da espada contra ele**, por não suportar que alguém passasse por melhor homem. Télamon começa a juntar pedras do chão; perguntado, diz que está a erguer «um altar a Hércules Glorioso Vencedor». **Salvou-se com uma lisonja de improviso.**
«E, tendo tomado a cidade e abatido a tiro Laomedonte e os filhos dele, exceto Podarces, atribuiu a filha de Laomedonte, Hesíone, como prémio a Télamon, e permitiu-lhe levar consigo qualquer dos cativos que quisesse. Quando ela escolheu o irmão Podarces, Hércules disse que ele teria primeiro de ser escravo e depois ser resgatado por ela. Assim, quando ele estava a ser vendido, **ela tirou o véu da cabeça e deu-o como resgate**; e por isso Podarces passou a chamar-se Príamo.»
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.6.4 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★★★ **O rei de Troia da Ilíada foi comprado, em criança, por um véu de mulher.** ⚠ O nome «Príamo» é lido pelos gregos a partir do verbo *príamai*, «comprar» — de modo que **o pai de Heitor carrega no nome a fatura que o pai dele não pagou.**
★★ E fica a semente da segunda guerra: **Hesíone parte para a Grécia como prémio de Télamon.** Uma princesa troiana levada por gregos — que é, ponto por ponto, o que os troianos alegarão ter reparado quando Páris levar Helena.