CETO é nomeada quatro vezes por Hesíodo e duas por Apolodoro. São seis linhas em todo o corpus, e nenhuma delas descreve o corpo dela ou explica o nome. O que essas seis linhas fazem é gerar: as Greias, que dividem um olho; as Górgonas, entre elas Medusa; e o dragão que guarda as maçãs de ouro. E se o verso 295 da Teogonia for lido de uma certa maneira — a gramática permite as duas —, também Equidna é dela, e por Equidna vêm Cérbero, a Hidra de Lerna, a Quimera, a Esfinge, o Leão de Nemeia, Órtro e a águia que comia o fígado de Prometeu. A figura com menos texto do catálogo é a raiz da maior parte dos monstros que os heróis vão matar.
Ela entra no mundo dentro de uma lista, com um adjetivo
Hesíodo apresenta os cinco filhos de Ponto, o mar, com a Terra. Ceto é a quarta, e recebe duas palavras.
«E ainda gerou o grande Taumas e o soberbo Fórcis, unido à Terra, e Ceto de belas faces, e Euríbia, que tem no peito um coração de pedra.»
Hesíodo, Teogonia 233-239 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
★ **«De belas faces» é toda a descrição que existe dela.** O mesmo adjetivo volta a aparecer, mais adiante, aplicado às filhas — e é o único traço físico que o corpus lhe atribui. Nenhuma das obras citadas aqui diz de que forma ela era.
O irmão dela, Fórcis, recebe também uma só palavra: «soberbo». O casal que vai gerar o bestiário é apresentado em meia linha cada.
★★ As Greias e as Górgonas saem da mesma frase
A primeira ninhada vem num período só, e é dele que sai também o cavalo alado — porque Hesíodo não para na filha: continua até ao que aconteceu ao pescoço dela.
«E de novo Ceto gerou de Fórcis as Greias de belas faces, irmãs grisalhas desde o nascimento… e as Górgonas, que moram para lá do glorioso Oceano, na terra da fronteira, na direção da Noite, onde estão as Hespérides de voz clara: Esteno, e Euríale, e Medusa, que sofreu um destino doloroso: ela era mortal, mas as outras duas eram imortais e não envelheciam. Com ela se deitou o de Cabelo Escuro, num prado macio, entre flores da primavera. E quando Perseu lhe cortou a cabeça, saltaram fora o grande Crisaor e o cavalo Pégaso.»
Hesíodo, Teogonia 270-283 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
★★★ **Duas gerações num fôlego.** As As Greias e as Gorgonas nascem na mesma frase, e a frase não acaba nelas: segue até Perseu, até o corte, e até o que saltou do pescoço. Pégaso e Crisaor são bisnetos de Ceto, e Hesíodo dá-os na mesma respiração em que a apresenta como mãe.
⚠ **E Medusa é a exceção da família.** «Ela era mortal, mas as outras duas eram imortais e não envelheciam» — a única filha desta linhagem que pode morrer é a única de que toda a gente se lembra.
★★★ O verso em que a mãe de Equidna fica em dúvida
A frase que interessa começa por um pronome, e o pronome não tem dono certo. Para se ver o problema é preciso ler primeiro o que vem imediatamente antes — e o que vem antes já saiu de Ceto há muito.
«…Mas Crisaor uniu-se em amor a Calírroe, filha do glorioso Oceano, e gerou Gerião de três cabeças. A ele matou o poderoso Héracles em Eritia, cercada de mar, junto dos seus bois de passo lento, no dia em que levou os bois de larga fronte para a sagrada Tirinto, depois de atravessar o vau do Oceano e de matar Orto e o vaqueiro Euritião, na estância sombria para lá do glorioso Oceano.»
Hesíodo, Teogonia 287-294 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
★★★ **É daqui que sai a dúvida.** O último nome de mulher antes do verso 295 é **Calírroe**, e não Ceto. Quem lê a *Teogonia* frase a frase entrega Equidna a Calírroe; quem lê o catálogo como um bloco vê, quarenta versos abaixo, a assinatura «esta é a descendência de Ceto e de Fórcis» — e entrega-a a Ceto. A gramática grega permite as duas leituras, e o texto não arbitra.
«E numa gruta funda ela gerou outro monstro, irresistível, em nada parecido nem com os homens mortais nem com os deuses imortais: a deusa feroz Equidna, que é metade ninfa de olhos brilhantes e belas faces, e metade outra vez uma serpente enorme, grande e terrível, de pele malhada, a comer carne crua sob os lugares secretos da terra sagrada. E ali tem ela uma gruta funda debaixo de uma rocha oca, longe dos deuses imortais e dos homens mortais… e guarda em Árima, debaixo da terra, a sombria Equidna, uma ninfa que não morre nem envelhece em todos os seus dias.»
Hesíodo, Teogonia 295-305 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
⚠ **E o site não decide por Hesíodo.** As duas leituras circulam desde a Antiguidade, e a diferença entre elas é metade do bestiário grego.
★★ **E repare-se no adjetivo.** Equidna é «de olhos brilhantes e **belas faces**» — a mesma expressão que Hesíodo usa para Ceto e para as Greias. A meia-serpente que come carne crua herda o traço da avó.
★★★ E de Equidna sai o resto do bestiário
Unida a Tifão, Equidna gera em série. A lista de Hesíodo é curta e não tem nenhum nome pequeno.
«Dizem os homens que Tifão, o terrível, ultrajante e sem lei, se uniu em amor a ela… Assim concebeu e deu à luz uma prole feroz: primeiro gerou Órtro, o cão de Gerião; e depois gerou um segundo, um monstro que não se vence e que não se pode descrever, Cérbero, que come carne crua, o cão de voz de bronze do Hades, de cinquenta cabeças, implacável e forte. E de novo gerou um terceiro, a Hidra de Lerna de mente má… Foi ela a mãe da Quimera, que respirava fogo furioso… E Equidna, submetida em amor a Órtro, deu à luz a mortífera Esfinge, que destruiu os Cadmeus, e o leão de Nemeia.»
Hesíodo, Teogonia 306-325 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
★★★ **Órtro, Cérbero, a Hidra, a Quimera, a Esfinge e o Leão de Nemeia.** Seis nomes numa passagem, e quatro deles são trabalhos de Héracles ou provas de heróis inteiros. Se o verso 295 for lido a favor de Ceto, todos eles são netos e bisnetos dela.
⚠ **E há um incesto na conta:** a Esfinge e o Leão de Nemeia nascem de Equidna com **Órtro**, que é filho dela própria com Tifão. Hesíodo escreve-o sem comentário.
★ **O Cérbero de Hesíodo tem cinquenta cabeças**, e não três. O número três é de fontes posteriores; aqui o cão do Hades tem voz de bronze e cinquenta cabeças.
O dragão, e a frase que fecha o catálogo
O último filho é o guardião do pomar no fim do mundo, e a seguir a ele Hesíodo assina a lista.
«E Ceto uniu-se em amor a Fórcis e gerou a mais nova das suas crias, a serpente terrível que guarda as maçãs todas de ouro nos lugares secretos da terra escura, nos seus grandes confins. Esta é a descendência de Ceto e de Fórcis.»
Hesíodo, Teogonia 333-336 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
★★ **«Esta é a descendência de Ceto e de Fórcis» é a única frase do corpus que trata a linhagem como uma unidade.** Ela fecha uma lista que inclui as Greias, as Górgonas e o dragão das Hespérides — e é a fronteira que separa o que é dela do que é discutível.
A mesma família, contada em prosa
Apolodoro arruma tudo em duas frases de manual, e dá às filhas o nome do pai.
«E do Mar (Ponto) e da Terra nasceram Fórcis, Taumas, Nereu, Euríbia e Ceto… e de Fórcis e Ceto nasceram as Fórcides e as Górgonas, de quem falaremos quando tratarmos de Perseu.»
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.2.6 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
⚠ **Apolodoro dá-lhe duas linhas e nada mais.** Nas duas vezes em que a nomeia, ela é um elemento de uma lista de nascimentos. Nenhum autor antigo do corpus lhe dedica uma cena.
«…foi ter com as filhas de Fórcis, a saber, Ênio, Pefredo e Dino; pois Fórcis tivera-as de Ceto, e eram irmãs das Górgonas, e velhas desde que nasceram. As três tinham um só olho e um só dente, e passavam-nos de umas às outras à vez.»
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.4.2 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★ **É a segunda e última vez que Apolodoro escreve o nome dela**, e é para explicar de quem Perseu roubou o olho.
★★ Apolodoro muda a linhagem em três sítios
Onde Hesíodo põe Ceto e Equidna, Apolodoro põe outros pais — e não avisa que está a mudar nada.
«…guardadas por um dragão imortal de cem cabeças, filho de Tifão e de Equidna, que falava com muitas e diversas espécies de vozes. E com ele estavam de guarda também as Hespérides.»
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.5.11 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★★★ **Cem cabeças, e cada uma com uma voz diferente.** Em Hesíodo o dragão das maçãs é o filho mais novo de Ceto; aqui é neto dela por Equidna, e ganha um detalhe que Hesíodo não tem — falava, e falava em muitas vozes.
«No reinado dele caiu sobre Tebas uma pesada calamidade. Pois Hera mandou a Esfinge, cuja mãe era Equidna e o pai Tifão; e ela tinha rosto de mulher, peito e patas e cauda de leão, e asas de ave.»
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 3.5.8 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
⚠ **Em Hesíodo a Esfinge é filha de Equidna com Órtro; aqui é de Equidna com Tifão.** A mãe é a mesma; o pai muda, e com ele muda a geração.
«…Euristeu ordenou-lhe que trouxesse a pele do leão de Nemeia; ora aquela era uma besta invulnerável gerada por Tifão.»
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.5.1 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
⚠ **E o Leão de Nemeia, que em Hesíodo é filho de Equidna com Órtro, aqui é gerado por Tifão** — sem mãe nomeada. Três monstros, três genealogias diferentes das de Hesíodo, no mesmo autor.
★★ Os netos, medidos um a um — e a conta não bate
Hesíodo dá os nomes e quase nenhum corpo. Quem descreve estes bichos são outros autores, e quando descrevem discordam do que Hesíodo tinha escrito.
«Primeiro mandou-o matar a Quimera furiosa. Era de estirpe divina, e não de homens: leão pela frente, serpente por trás e cabra no meio, a soprar de modo terrível a força do fogo em chamas. E Belerofonte matou-a, confiando nos sinais dos deuses.»
Homero, Ilíada 6.179-183 (trad. Augustus Taber Murray, 1924)
★★ **Homero descreve a bisneta e não diz de quem ela é filha.** A Quimera da *Ilíada* tem três animais e nenhuma árvore de família. A genealogia que a liga a Equidna — e por Equidna, talvez, a Ceto — está na *Teogonia*, e não no poema em que ela morre.
«Ora este Cérbero tinha três cabeças de cão, a cauda de um dragão e, nas costas, cabeças de serpentes de toda a espécie.»
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.5.12 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★★★ **Cinquenta cabeças em Hesíodo, três em Apolodoro.** É o mesmo cão e a mesma linhagem, e a conta muda de um autor para o outro. O três é o número que a arte fixou e que chegou até nós; o cinquenta é o que está no texto mais antigo do corpus, e quase ninguém o repete.
«Ora a Hidra tinha um corpo enorme, com nove cabeças, oito mortais, mas a do meio imortal.»
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.5.2 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
⚠ **A Hidra ganha em prosa o que não tinha em verso.** Hesíodo dá-lhe o nome e a mãe; a contagem das cabeças, e a que não morre, são de Apolodoro — que a manda enterrar debaixo de uma pedra à beira da estrada de Lerna.
«…matou a tiro a águia, filha de Equidna e de Tifão, que devorava o fígado de Prometeu, e libertou Prometeu, escolhendo para si o laço de oliveira.»
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.5.11 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★★★ **A águia de Prometeu é da família.** Apolodoro dá-lhe os pais de passagem, no meio de uma frase sobre outra coisa — e com isso o castigo mais famoso da mitologia grega passa a ser executado por uma filha de Equidna. Se o verso 295 for lido a favor de Ceto, a ave que come o fígado do Titã é bisneta dela.
As netas, vistas por quem escreveu antes de Apolodoro
A descrição mais antiga das filhas de Ceto está numa tragédia, e a mais estranha também.
«…até chegares às planícies gorgóneas de Cistene, onde moram as filhas de Fórcis, donzelas antigas, três em número, com forma de cisnes, possuindo um olho entre todas e um só dente; nem o sol as olha com os seus raios, nem nunca a lua da noite.»
Ésquilo, Prometeu Acorrentado 790-800 (trad. Herbert Weir Smyth, 1926)
«…que à entrada dele moravam duas irmãs Fórcides, que repartiam entre si o uso de um único olho.»
Ovídio, Metamorfoses 4.770-775 (texto latino)
⚠ **Ésquilo conta três, Ovídio conta duas, Hesíodo nomeia duas e Apolodoro nomeia três.** O número de filhas de Ceto muda em todas as fontes, e nenhuma delas justifica a conta.
A Esfinge, que os trágicos herdaram sem a genealogia
Nas peças de Tebas, a bisneta de Ceto aparece sem árvore de família nenhuma — só como a coisa que estava na estrada.
«A Esfinge dos enigmas obrigou-nos a deixar de lado o que era obscuro e a investigar o que estava à nossa frente.»
Sófocles, Édipo Rei 130 (trad. Richard Jebb, 1887)
«…e quem dera que a Esfinge, aquela donzela alada, monstro vindo dos montes, nunca tivesse chegado como desgraça à nossa terra.»
Eurípides, As Fenícias 805 (trad. Edward P. Coleridge, 1891)
★★ **Nenhum dos dois trágicos diz de quem ela é filha.** Sófocles trata-a como um obstáculo lógico, Eurípides como uma calamidade vinda dos montes. A genealogia que a liga a Ceto está nos catálogos, e não nas peças.
⚠ Ceto não é o monstro que Perseu matou
Há duas palavras parecidas e um episódio só, e trocá-las é fácil. *Kētos*, em grego, é o nome comum de qualquer bicho enorme do mar — o que engole, o que arrasta o navio. **Ceto** é o nome próprio da filha de Ponto. E dá-se o caso de o mesmo herói que decapitou uma filha dela encontrar, poucas linhas depois, um *kētos*.
«Chegado à Etiópia, de que Cefeu era rei, encontrou a filha do rei, Andrómeda, exposta para ser presa de um monstro marinho. Pois Cassiopeia, mulher de Cefeu, disputara em beleza com as Nereidas e gabara-se de ser melhor do que todas; e por isso as Nereidas se iraram, e Poseidon, partilhando a cólera delas, mandou uma inundação e um monstro para invadir a terra.»
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.4.3 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★★ **Perseu leva na sacola a cabeça de uma filha de Ceto e mata a seguir um *kētos*** — e no texto as duas coisas não têm parentesco nenhum. O monstro da Etiópia é mandado por Poseidon a pedido das Nereidas, e Apolodoro não lhe dá mãe nem nome.
⚠ **Ceto é a mãe; *kētos* é a classe do bicho.** A semelhança das duas palavras deu à astronomia a constelação de **Cetus** — que é o monstro deste episódio, e não a deusa. Ver também Andrómeda e Cetea, que trata da classe inteira.
⚠ A conta, feita com cuidado
⚠ **Certo, porque o texto o diz:** de Ceto e Fórcis vêm as Greias, as Górgonas (Esteno, Euríale e Medusa) e o dragão das maçãs de ouro. Hesíodo fecha a lista com a assinatura «esta é a descendência de Ceto e de Fórcis».
⚠ **Por consequência, sem discussão:** Crisaor e Pégaso, que saltam do pescoço de Medusa, e de Crisaor vem também Gerião.
⚠ **Dependente da leitura do verso 295:** Equidna — e, por ela, Órtro, Cérbero, a Hidra de Lerna, a Quimera, a Esfinge, o Leão de Nemeia e a águia de Prometeu. Se o pronome for de Ceto, esta linhagem contém quase todos os monstros que os heróis gregos matam.
⚠ **Contestado por Apolodoro:** o dragão das maçãs (que ele faz filho de Tifão e Equidna), a Esfinge (Equidna e Tifão, e não Órtro) e o Leão de Nemeia (gerado por Tifão).
⚠ O que esta página não pode provar
⚠ **Que forma tinha Ceto.** Nenhuma das seis obras citadas aqui a descreve. «De belas faces» é o único traço, e é uma fórmula que Hesíodo aplica também às Greias e a Equidna.
⚠ **Que Equidna é filha dela.** O verso 295 diz «ela gerou», e o sujeito mais próximo no texto é outro. Esta página apresenta as duas leituras e não arbitra.
⚠ **Que houve alguma vez um culto, um lugar ou uma imagem dela.** Pausânias, que é o guia dos santuários deste corpus, não a nomeia uma única vez.
⚠ **Quantas filhas teve.** Hesíodo nomeia duas Greias; Apolodoro nomeia três; Ésquilo conta três; Ovídio conta duas. Nenhum concilia.
⚠ **De onde vem o nome.** Nenhuma das obras citadas o explica, e este site não completa fontes com etimologia que elas não trazem.