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O Cão Maior

O CÃO MAIOR é a constelação que segue Órion pelo céu, e a estrela dela — Sírio — é a mais brilhante que se vê da Terra. Para os gregos isso não era motivo de admiração e sim de cautela: Sírio nasce com o sol no auge do verão, e é a essa coincidência que eles atribuíam o calor que seca o corpo e adoece o gado. Daí vêm os «dias caninos», que a Europa herdou e que o português ainda guarda na canícula.

Constelação de Cão maior mitologia grega
Constelação de Cão maior mitologia grega

A estrela que resseca

Hesíodo põe Sírio no meio de uma passagem sobre o pior mês do ano, e o que ele descreve é fisiologia — o efeito da estrela sobre o corpo de quem trabalha.

…então as cabras estão mais gordas e o vinho mais doce; as mulheres estão mais lascivas, mas os homens mais fracos, porque Sírio resseca a cabeça e os joelhos, e a pele fica seca pelo calor. Mas nesse tempo dá-me uma rocha à sombra e vinho de Bíblis.

Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias 585 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

«A cabeça e os joelhos»: as duas partes que primeiro falham em quem trabalha ao sol. E a receita do poeta é a mesma de hoje — sombra e bebida fresca. É a passagem mais humana dos Trabalhos e Dias.

Hesíodo volta a ela quando o calor cede, e aí a estrela troca de horário: passa a ficar menos tempo sobre a cabeça dos homens e mais tempo na parte da noite.

…e Zeus todo-poderoso manda as chuvas de outono, e a carne dos homens se sente muito mais aliviada — pois então a estrela Sírio passa sobre a cabeça dos homens, que nasceram para a desgraça, só um pouco de dia, e toma para si maior parte da noite.

Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias 415 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

O sinal de Aquiles

Homero usa Sírio na comparação mais carregada da Ilíada. É o que Príamo vê do alto da muralha, quando Aquiles atravessa a planície para matar o filho dele — e a comparação diz, ao mesmo tempo, brilho e desgraça.

O velho Príamo foi o primeiro a vê-lo com os olhos, correndo todo reluzente pela planície, semelhante à estrela que surge no tempo da colheita, e brilhantes cintilam os seus raios entre a multidão das estrelas na escuridão da noite — a estrela a que os homens chamam pelo nome de Cão de Órion.

Homero, Ilíada 22.1 (trad. Augustus Taber Murray, 1924)

O poema segue explicando: é a mais brilhante de todas, e é um sinal de mal, porque traz febre aos homens miseráveis. Homero não escolheu uma estrela bonita para descrever o herói — escolheu a que anuncia doença. Ver Órion, o caçador de quem este cão é o cão.

A estrela que manda cortar a uva

Sírio, a estrela do Cão, é para Hesíodo um instrumento de medida — e a instrução em que ela aparece é a mais detalhada de todo o poema.

Mas quando Órion e Sírio chegam ao meio do céu, e a Aurora de dedos rosados vê Arcturo, então corta todos os cachos de uva, ó Perses, e leva-os para casa. Mostra-os ao sol dez dias e dez noites; depois cobre-os por cinco, e ao sexto dia tira para as vasilhas os dons do alegre Dioniso.

Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias 609-616 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

★★ **Dez dias ao sol, cinco tapados, ao sexto engarrafa.** É uma receita de vinho de palha datada pelo céu — e é a prova de que as constelações gregas eram, antes de tudo, um calendário de trabalho. Ver Órion, As Plêiades e Dionisio.

⚠ E é por isso que este site escreveu as constelações que HOMERO e HESÍODO nomeiam, e não as outras: são as que a poesia grega arcaica realmente usa. As demais chegam por Higino e pelo Pseudo-Eratóstenes, que não estão no acervo conferível.

O que se vê no céu

O Cão Maior guarda **Sírio**, a estrela mais brilhante de todo o céu noturno — e por larga margem. Acha-se prolongando a linha das três estrelas do cinturão de Órion para baixo.

★★ Sírio cintila em cores quando está baixa no horizonte, e isso não é da estrela: é da atmosfera. **Os «dias de cão» do verão** — a canícula — vêm daqui: os romanos achavam que o calor de agosto era Sírio somando o seu fogo ao do Sol, porque a estrela nasce junto com ele nessa época.

⚠ **Esta seção não tem citação antiga, e é de propósito.** Uma constelação é duas coisas: uma história e um desenho. A história deste site sai sempre de uma fonte com endereço; o desenho não se cita — vê-se. O que está acima é o que qualquer pessoa confere olhando para cima, numa noite limpa, sem instrumento nenhum.