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Anfitrite

ANFITRITE era a esposa de Posídon e a rainha do mar. Nasceu entre as cinquenta filhas de Nereu, o velho do mar, e a poesia grega usa o nome dela com tanta frequência para dizer «o mar» que às vezes é difícil saber se o poeta fala da deusa ou da água. O mito próprio dela é curto e tem um detalhe que sobreviveu a tudo: ela não quis casar, fugiu até os confins do Oceano, e quem a encontrou e convenceu foi um golfinho — que Posídon, em agradecimento, pôs entre as estrelas.

Uma das cinquenta

Hesíodo arrola as nereidas numa lista longa, e Anfitrite aparece entre as primeiras — ao lado de Tétis, a futura mãe de Aquiles. As duas irmãs terão destinos parecidos: ambas serão desejadas por um deus maior e ambas resistirão.

E de Nereu e de Dóris de belos cabelos, filha do Oceano, o rio perfeito, nasceram filhas belíssimas entre as deusas: Ploto, Eucrante, Sao e Anfitrite, e Eudora, e Tétis, Galena e Glauce.

Hesíodo, Teogonia 243 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

Ser nereida é ser do mar por nascimento, não por casamento. Isso importa para o que vem: quando Posídon a quer, Anfitrite não precisa dele para ter onde se esconder — o fundo do mar é a casa dela.

A fuga e o golfinho

A história é contada por Apolodoro e por autores posteriores com poucas variações. Anfitrite recusa o pedido e desaparece nas águas mais distantes; Posídon manda procurá-la; é um golfinho que a acha e a persuade a voltar.

Posídon desposou Anfitrite, filha do Oceano, e dela lhe nasceram Tritão e Rode, que se casou com o Sol.

Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.4.5 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

⚠ Vale separar o que a fonte antiga diz do que a tradição acrescentou. Apolodoro registra o casamento e os filhos, e a chama filha do Oceano — não de Nereu, como Hesíodo. O episódio do golfinho vem de outras fontes, sobretudo latinas; é bonito e é tardio, e esta página o conta como o que é.

O nome do mar

Na Odisseia, Homero usa «Anfitrite» como sinônimo poético do mar aberto — não do mar calmo, mas do mar que ruge e que engole. É um dos casos mais claros da língua grega em que o nome de uma divindade se tornou nome comum.

…pois de nenhum homem se pode dizer ao certo onde ele morreu — se foi vencido por inimigos em terra firme, ou no mar alto, entre as ondas de Anfitrite.

Homero, Odisseia 3.91 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

É por essa via que Anfitrite chega até nós sem que a maioria repare. A palavra sobrevive na taxonomia — há um gênero de vermes marinhos com o nome dela — e em dezenas de navios, e em cada caso o que se está invocando é a mesma coisa que Homero invocava: a extensão de água que não se domina.

★ Duas certidões que não batem — e as duas são de Apolodoro

Anfitrite tem um problema de origem que quase nenhum resumo enfrenta, e o mais curioso é que as duas versões estão no MESMO autor, a poucas páginas de distância. Primeiro, ela é filha do Oceano:

Ora, aos Titãs nasceram filhos: ao Oceano e a Tétis nasceram as Oceânides, a saber, Ásia, Estige, Electra, Dóris, Eurínome, Anfitrite e Métis.

Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.2.2 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

Cinco parágrafos adiante, no mesmo livro, ela é filha de Nereu — logo, neta de Ponto, e de outra família inteira:

A Nereu e a Dóris nasceram as Nereidas, cujos nomes são Cimótoe, Espeio, Glaucónome, Nausítoe, Hálie, Erato, Sao, Anfitrite, Eunice, Tétis, Eulímene…

Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.2.7 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

★ ⚠ **Não é descuido de copista: é como a mitologia grega funciona.** Apolodoro está compilando listas de fontes diferentes e não as concilia — imprime as duas. A regra deste site é a mesma: mostrar as duas e dizer que são duas. Ver Oceano e Tétis (nereida), que carrega a confusão gêmea entre Tétis-Nereida e Tétis-Titânide.

E há uma terceira, que dá a mesma resposta da primeira quando o assunto é o casamento.

A rainha do mar, e o filho

Apolodoro registra o casamento numa frase administrativa, no meio de uma lista de mortes e nascimentos.

Poseidon desposou Anfitrite, filha do Oceano, e dela lhe nasceram Tritão e Rode, que casou com o Sol.

Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.4.5 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

Dois filhos, e cada um vai para um dos dois lugares que o pai não alcança: o fundo do mar (Tritão) e o céu, pelo casamento com Hélio (Rode). Ver Tritao e Hélio.

Hesíodo descreve a casa da família, e a descrição é curta e não se esquece.

E de Anfitrite e do Sacudidor da Terra de rugido alto nasceu o grande Tritão de vasto domínio, e ele possui as profundezas do mar, vivendo com a mãe querida e com o senhor seu pai na casa de ouro deles — um deus terrível.

Hesíodo, Teogonia 930 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

★ **«Casa de ouro», no fundo do mar.** Poseidon tem palácio como Zeus tem Olimpo, e Anfitrite é rainha nele com o mesmo estatuto que Hera tem no alto — ver Hera e Poseidon. A diferença é que quase nenhum mito se passa lá dentro.

Onde ela aparece, e o som que faz

Anfitrite quase não tem enredo próprio, mas tem uma coisa que vale mais para entender o que ela é: um epíteto que se repete.

E estavam com ela todas as principais deusas — Dione, Reia, Icneia, Têmis e Anfitrite de gemido alto — e as outras deusas imortais, salvo Hera de braços brancos, que estava sentada nas salas de Zeus que junta as nuvens.

Hino Homérico 3, a Apolo 95 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

Ela está no parto de Apolo, em Delos, entre as maiores. E o epíteto é sonoro: **«de gemido alto»** — a mesma palavra que Homero usa para o marido, o «Sacudidor da Terra de rugido alto».

★ É a definição grega dela em duas palavras: Anfitrite **é** o barulho do mar. Não a água, não a profundidade, não a rota — o som. Na Odisseia o nome dela aparece quase sempre como sinónimo do mar aberto, e é assim que Homero prefere nomeá-la: não como personagem, mas como lugar.