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Os Juízes dos Mortos

TODO MUNDO sabe que os gregos tinham juízes dos mortos. Poucos sabem que essa ideia não está na Odisseia. Quando Ulisses desce e vê Minos, o que ele descreve é uma cena de tribunal comum — sombras que se aproximam para resolver disputas, e um rei com um cetro de ouro decidindo. Não há pesagem de virtude, não há sentença de prêmio ou castigo, e não há dois caminhos. O tribunal moral aparece muito depois, e aparece num filósofo.

Homero: um rei em audiência

Na descida de Ulisses, Minos surge no meio de uma lista de figuras vistas de passagem. O detalhe que importa é quem o procura e para quê.

Ali então vi Minos, o glorioso filho de Zeus, com o cetro de ouro na mão, dando sentença aos mortos do seu assento, enquanto eles, sentados e de pé em volta do rei pela casa de largas portas de Hades, lhe pediam julgamento.

Homero, Odisseia 11.567 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

«Lhe pediam julgamento»: são os próprios mortos que procuram Minos, como quem procura um magistrado — não são réus levados a uma sentença. Minos era rei de Creta em vida e é rei de disputas na morte; a função continua, o cargo não mudou de natureza.

E na mesma descida não há duas estradas. Todos estão no mesmo lugar — Aquiles, que preferiria ser servo de um lavrador vivo a reinar sobre os mortos, está no mesmo prado que os outros. A ideia de destinos diferentes conforme a conduta ainda não faz parte do quadro.

O Elísio de Radamanto, e o que ele não é

Há, é verdade, um lugar melhor na Odisseia — mas ele não é prêmio de julgamento, e quem manda nele não é Hades.

…mas para a planície do Elísio e os confins da terra os imortais te levarão, onde mora Radamanto, o de cabelos claros, e onde a vida é a mais fácil para os homens.

Homero, Odisseia 4.554 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

Radamanto aparece ali como morador e senhor do lugar, não como juiz. E o motivo de Menelau ir para lá é ser genro de Zeus — parentesco, não mérito. Ver Elísio para a passagem inteira.

Platão: o prado onde a estrada se divide

É no fim do Górgias que a cena que todo mundo imagina aparece pela primeira vez inteira: Zeus explica por que nomeou juízes, quem são eles e onde julgam.

Ora eu, sabendo tudo isto antes de vós, nomeei filhos meus para serem juízes: dois da Ásia, Minos e Radamanto, e um da Europa, Éaco. Estes, quando a sua vida tiver terminado, darão sentença no prado, na bifurcação do caminho, de onde partem…

Plato, Gorgias 524 (trad. Walter Rangeley Maitland Lamb, 1925)

Três juízes, dois continentes, uma estrada que se divide. É a planta do além que a arte cristã herdaria e repetiria por mil anos — e ela nasce num diálogo filosófico, como argumento de que é melhor sofrer injustiça do que cometê-la.

Vale guardar essa distância. Entre a sombra de Minos com o cetro e o tribunal de três juízes há uns trezentos anos e uma mudança inteira de ideia sobre o que a morte é. Este site guarda as duas — e diz qual é qual.

Antes dos três, havia um só — e ele não julga

Homero mostra um tribunal no Hades, e é preciso ler com cuidado o que ele diz, porque a leitura corrente não bate com o texto.

«Ali então vi Minos, o glorioso filho de Zeus, com o cetro de ouro na mão, dando sentença aos mortos do seu assento, enquanto eles se sentavam e se punham de pé em volta do rei, pela casa de portões largos de Hades, e lhe pediam sentença.»

Homero, Odisseia 11.576 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

★★ **Minos não está separando bons de maus.** Ele está resolvendo disputas ENTRE mortos, como um magistrado numa ágora — os mortos «lhe pediam sentença», que é a expressão técnica para abrir um processo. Não há prêmio nem castigo nesta cena; há litígio.

⚠ A imagem do juiz que decide o destino eterno de cada alma não é de Homero. É de Platão — e o site mostra de onde ela vem.

★ A reforma judiciária do Hades, segundo Platão

No Górgias, Sócrates conta um «relato verdadeiro» e a coisa é apresentada como reforma administrativa, com motivo e data.

Desses homens havia juízes no tempo de Cronos, e ainda há pouco no reinado de Zeus — homens vivos a julgar os vivos no dia em que cada um ia expirar; e assim as causas eram decididas mal.

Plato, Gorgias 523 (trad. Walter Rangeley Maitland Lamb, 1925)

O problema era técnico: julgado vestido e vivo, o homem enganava o tribunal com a beleza do corpo, a roupa, as testemunhas e a família. Plutão foi queixar-se a Zeus, e Zeus mudou o processo — passa-se a julgar a alma nua, depois da morte, por juízes também mortos.

★ **É a origem de tudo o que o Ocidente veio a imaginar sobre juízo final**, e ela está num diálogo filosófico do século IV a.C., contada como se fosse notícia antiga. Ver Hades e Elísio.

⚠ E a lei que os juízes aplicam vem do tempo de Cronos: quem viveu justa e piamente vai para as Ilhas dos Bem-Aventurados; quem viveu injustamente vai para o Tártaro. Ver Tártaro.