TRITÃO era o filho de Posídon e Anfitrite, e o herdeiro do fundo do mar. A forma dele — homem da cintura para cima, peixe da cintura para baixo — é a mais reproduzida da arte grega depois dos próprios olímpicos, e o atributo que o identifica é uma concha retorcida que ele sopra como trombeta: soprada de um jeito acalma as ondas, de outro as levanta. Com o tempo o nome deixou de designar um só deus e passou a nomear uma espécie inteira, os tritões, que povoam o cortejo marinho na cerâmica e nos mosaicos.
A casa de ouro no fundo
Hesíodo apresenta Tritão em duas linhas que dizem tudo o que se precisa: filho de quem, dono de quê, e com quem mora.
E de Anfitrite e do Sacudidor da Terra de rugido alto nasceu o grande Tritão de vasto domínio, e ele possui as profundezas do mar, vivendo com a mãe querida e com o senhor seu pai na casa de ouro deles — um deus terrível.
Hesíodo, Teogonia 930 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
★ Repare no adjetivo final: **«um deus terrível»** (*deinos*). Tritão não é o tritãozinho decorativo das fontes barrocas — é uma potência de fundo de mar, e Hesíodo fecha a apresentação dele com a palavra que se usa para o que mete medo.
Ver Anfitrite e Poseidon. A família tem palácio submarino e quase nenhuma história — o que torna a única história de Tritão ainda mais valiosa.
A concha
O atributo de Tritão é um búzio — a concha grande e espiralada que, furada na ponta, funciona como trombeta. É com ela que ele anuncia a chegada do pai, e é com ela que serena ou revolve a água. Ovídio conta que foi ao som dela que as águas do dilúvio recuaram.
O instrumento não é enfeite iconográfico: o búzio era usado de verdade na navegação grega, para sinalizar entre embarcações e do porto para o mar. Tritão faz, em escala divina, o que um marinheiro faz na prática — dizer ao mar e a quem está nele o que vai acontecer.
De um deus para uma espécie
A partir do período clássico, «tritões» no plural passa a designar uma raça inteira de seres meio-homem meio-peixe, que acompanham as Nereidas nos cortejos marinhos. Pausânias, viajando pela Grécia no século II d.C., viu um deles conservado e descreveu-o com o detalhe de quem examina um espécime.
Vi outro Tritão entre as curiosidades de Roma, menor em tamanho do que o de Tanagra. Os Tritões têm o seguinte aspecto. Na cabeça crescem-lhes cabelos como os da rã dos pântanos, não só na cor, mas também na impossibilidade de separar um fio do outro. O resto do corpo é áspero de escamas finas, tal como o do tubarão. Sob as orelhas têm guelras e um nariz de homem; mas a boca é mais larga e os dentes são de fera.
Pausânias, Descrição da Grécia 9.21.1 (trad. W.H.S. Jones, 1918)
A passagem é um documento sobre outra coisa além de mitologia: mostra que cidades gregas exibiam «tritões» conservados como atração, e que um viajante culto os examinava sem descrer. O que Pausânias descreve com esse cuidado era, quase certamente, um animal marinho preparado — mas o interesse dele em anotar a textura do cabelo é o mesmo interesse que hoje se chamaria de zoológico.
★ O deus que cobrou pedágio a Jasão
A melhor aparição de Tritão não está num poema: está em Heródoto, contada como coisa que os líbios dizem. O navio Argo encalha num lago da Líbia e não acha saída.
Mas quando ele estava ao largo do Maleia, um vento norte apanhou-o e levou-o para a Líbia; e antes de avistar terra, entrou nos baixios do lago Tritónida. Ali, sem conseguir achar saída, Tritão (diz a história) apareceu-lhe e disse a Jasão que lhe desse a trípode, prometendo mostrar aos marinheiros o canal e mandá-los embora sãos e salvos.
Heródoto, Histórias 4.179.2 (trad. A. D. Godley, 1920)
**É uma negociação.** O deus não salva por bondade nem afunda por raiva: propõe uma troca e cumpre o combinado. Ver Jasao.
E o que ele faz com o objeto recebido é a parte que transforma a história num documento político.
A profecia que fez um povo esconder uma trípode
Recebida a trípode, Tritão põe-na no próprio templo — e antes profetiza sobre ela, em voz alta, diante da tripulação.
Jasão assim fez, e Tritão então mostrou-lhes o canal para fora dos baixios e pôs a trípode no seu próprio templo; mas primeiro profetizou sobre ela, declarando a coisa toda aos companheiros de Jasão: que, se algum descendente da tripulação do Argo levasse a trípode, então cem cidades gregas seriam fundadas nas margens do lago Tritónida. Ouvindo isso, diz-se, o povo líbio da região escondeu a trípode.
Heródoto, Histórias 4.179.3 (trad. A. D. Godley, 1920)
★★ **Um oráculo que anuncia colonização, e os nativos escondem o objeto para adiar o futuro.** É a passagem mais política de toda a seção do mar deste site: Heródoto está registrando, com nome de deus, a memória líbia da chegada dos gregos — e o medo dela.
⚠ E vale notar como o historiador se protege: «diz a história», «diz-se». Heródoto conta e não assina. É o mesmo cuidado que este site tenta ter.