O CENTAURO do céu é, dependendo de quem conta, Quíron ou Folo — os dois únicos centauros que a mitologia grega trata com respeito. E os dois morrem na mesma passagem de Apolodoro, na mesma tarde, pela mesma arma: as flechas de Héracles, untadas com o fel da Hidra.

O jarro que não devia ter sido aberto
A tragédia começa por hospitalidade. Folo recebe Héracles, serve-lhe carne assada — e come a sua crua —, e recusa-se a abrir o vinho.
Ele pôs carne assada diante de Héracles, enquanto ele próprio comia a sua carne crua. Quando Héracles pediu vinho, disse que receava abrir o jarro que pertencia aos centauros em comum. Mas Héracles, dizendo-lhe que tivesse coragem, abriu-o.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.5.4 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★ **O jarro era de todos.** Folo sabia disso e disse-o; Héracles mandou-o abrir mesmo assim. O cheiro atrai os centauros armados de pedras e pinheiros, e a partir daí é matança.
Ver Hercules. E note-se o detalhe que separa Folo dos outros: **ele come carne crua** — é centauro de verdade —, mas serve a carne assada ao convidado. A civilidade dele é para fora.
A flecha que não era para ele
Os centauros refugiam-se em Quíron. Héracles atira contra o grupo, e o tiro atravessa um e crava-se noutro.
Enquanto os centauros se encolhiam em volta de Quíron, Héracles disparou-lhes uma flecha, que, atravessando o braço de Élato, cravou-se no joelho de Quíron.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.5.4 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★★ **O melhor dos centauros é atingido por uma flecha que ia para outro.** E ele é imortal, o que transforma um ferimento incurável numa condenação sem fim — até Prometeu trocar de lugar com ele. Ver Sagitário, onde o site conta a permuta.
E o anfitrião morre da própria curiosidade
O fecho da cena é a morte mais absurda da mitologia grega, e Apolodoro conta-a em duas linhas, sem comentário.
Mas Folo, tirando a flecha de um cadáver, admirou-se de que uma coisa tão pequena pudesse matar sujeitos tão grandes; contudo, ela escorregou-lhe da mão e, caindo-lhe no pé, matou-o no mesmo instante.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.5.4 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★★★ **Ele estava examinando a arma.** Não lutava, não fugia, não fora atingido: pegou numa flecha para perceber como funcionava, deixou-a cair, e o pé recebeu-a. Ver Hidra, de cujo fel vem o veneno.
Héracles volta, encontra o anfitrião morto e enterra-o. ⚠ **Os dois centauros que o trataram bem morreram por causa dele, e nenhum dos dois na batalha.** É o retrato mais duro que a mitologia grega faz do preço de estar perto de um herói.
⚠ A ligação entre esta história e o desenho no céu chega até nós por Higino e pelo Pseudo-Eratóstenes, que não estão no acervo de fontes conferíveis deste site. O que está — e é o que a página cita — é a história grega que a constelação comemora.
O que se vê no céu
⚠ Cuidado com a confusão: há **duas** figuras de centauro no céu, e são constelações diferentes. **Sagitário** é a do zodíaco; **Centaurus** é a do sul, enorme, invisível da Grécia em boa parte.
★★ E é a de baixo que guarda o vizinho mais próximo: **Alfa Centauri**, o sistema estelar mais perto do Sol, a pouco mais de quatro anos-luz. Do Brasil vê-se todas as noites; da Grécia de Hesíodo, quase nunca. Ver Sagitário.
⚠ **Esta seção não tem citação antiga, e é de propósito.** Uma constelação é duas coisas: uma história e um desenho. A história deste site sai sempre de uma fonte com endereço; o desenho não se cita — vê-se. O que está acima é o que qualquer pessoa confere olhando para cima, numa noite limpa, sem instrumento nenhum.