PERSEU é o herói cuja história começa com um homem tentando escapar de uma frase. O oráculo disse a Acrísio, rei de Argos, que o filho da sua filha o mataria; ele trancou a filha; a filha teve o filho mesmo assim; e o filho, muitos anos depois, matou-o por acidente, num jogo, com um disco. Entre uma coisa e outra cabem a cabeça da Górgona, as três velhas que dividiam um olho e uma princesa acorrentada a um rochedo.

A câmara de bronze e a chuva de ouro
O começo não é do herói: é do avô. Acrísio pergunta ao oráculo como ter filhos homens e recebe a única resposta que não queria — e a resposta descreve um neto.
Quando Acrísio consultou o oráculo sobre como teria filhos homens, o deus disse que a sua filha daria à luz um filho que o mataria. Temendo isso, Acrísio construiu uma câmara de bronze debaixo da terra e ali guardou Dânae. Ela, porém, foi seduzida — como alguns dizem, por Preto, de onde nasceu a querela entre os dois; mas outros dizem que Zeus se uniu a ela sob a forma de uma corrente de ouro que se derramou pelo teto até o colo de Dânae.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.4.1 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
Apolodoro não escolhe entre as duas versões, e o hábito é característico dele: registra a que é escandalosa (o tio Preto) e a que é famosa (a chuva de ouro) lado a lado. Guardar as duas é mais honesto do que escolher, e é o que a página faz também.
O que se segue é o castigo pela dúvida: Acrísio não acredita em Zeus, e põe filha e neto numa arca no mar. A arca não afunda, e é assim que Perseu chega a Sérifos, criado por um pescador chamado Díctis.
A promessa feita numa festa de casamento
A missão de Perseu não nasce de um oráculo nem de uma ordem divina. Nasce de uma bravata dita em voz alta na hora errada.
Assim, convocou os amigos, incluindo Perseu, com o pretexto de recolher contribuições para um presente de casamento a Hipodamia, filha de Enómao. Ora, tendo Perseu declarado que não recuaria nem diante da cabeça da Górgona, Polidectes exigiu dos outros cavalos e, não recebendo cavalos de Perseu, ordenou-lhe que trouxesse a cabeça da Górgona.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.4.2 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★★ **O rei estava montando uma armadilha e Perseu entrou nela sozinho.** Polidectes queria Dânae e não podia chegar até ela porque o filho já era homem; a coleta de presentes é o pretexto para se livrar dele — e o rapaz forneceu a desculpa com a própria boca.
A princesa acorrentada, e a vaidade da mãe dela
De volta com a cabeça no alforge, Perseu passa pela Etiópia, e ali encontra a segunda história pela qual será lembrado — que começa com uma frase dita por uma rainha.
Chegado à Etiópia, de que Cefeu era rei, encontrou a filha do rei, Andrômeda, posta como presa de um monstro marinho. Pois Cassiopeia, mulher de Cefeu, rivalizara em beleza com as Nereidas e gabara-se de ser melhor que todas elas; por isso as Nereidas ficaram iradas, e Poseidon, partilhando a cólera delas, enviou uma inundação e um monstro para invadir a terra.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.4.3 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★ **A filha paga pela frase da mãe**, e o pai é obrigado pelo próprio povo a amarrá-la ao rochedo. Ver Andrômeda, Cassiopeia, Cetus e Cefeu — os quatro estão no céu, e o site conta cada um.
Perseu negocia antes de agir: mata o monstro **se** lhe derem a moça. Jurado o acordo, cumpre. E quando o antigo noivo dela conspira, resolve o assunto mostrando a cabeça — «transformou-o em pedra, a ele e aos conspiradores, num instante».
O disco: o oráculo cobra
O fecho é a parte que faz de Perseu uma história grega, e não uma história de aventura. Acrísio foge de Argos ao saber que o neto vem visitá-lo; Perseu, sem procurá-lo, vai competir em jogos numa cidade distante.
Perseu apressou-se com Dânae e Andrômeda para Argos, a fim de ver Acrísio. Mas este, sabendo disso e temendo o oráculo, abandonou Argos e partiu para a terra pelásgica. Ora, Teutâmides, rei de Larissa, celebrava jogos atléticos em honra do pai morto, e Perseu foi competir. Participou do pentatlo mas, ao lançar o disco, atingiu Acrísio no pé e matou-o no mesmo instante.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.4.4 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
Ninguém quis matar ninguém. O avô fugiu, o neto competiu, o disco errou o alvo e acertou a profecia. E o desfecho tem uma delicadeza que costuma ser esquecida: Perseu tem vergonha de herdar Argos de um homem que morreu pela sua mão, e troca o reino com um primo, ficando com Tirinto.
As três velhas de um olho só
O caminho para as Górgonas passa por uma chantagem, e é a primeira demonstração de que Perseu resolve problemas com a cabeça.
Assim, sob a guia de Hermes e de Atena, dirigiu-se às filhas de Fórcis, a saber, Enio, Pefredo e Dino; pois Fórcis as tivera de Ceto, e eram irmãs das Górgonas, e velhas desde o nascimento. As três tinham apenas um olho e um dente, e passavam-nos umas às outras por turno.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.4.2 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★ Ele **apanha o olho e o dente no meio da passagem** e só os devolve depois de elas indicarem o caminho das ninfas. Ver As Greias.
Das ninfas ele recebe as sandálias aladas e a *kíbisis* — o alforge. O elmo de Hades, o que torna invisível, é o terceiro item. **Perseu é o herói mais bem equipado da mitologia grega, e nada disso é dele.**