ANANQUE é a Necessidade — a força que obriga, aquela a que nem os deuses escapam. ⚠ E é o verbete mais estranho deste acervo, porque **quase tudo o que se conta dela não se pode conferir aqui.** A Ananque enroscada com o Tempo à volta do ovo do mundo, mãe de Phanes, é órfica, e os poemas órficos não estão neste corpus. O fuso da Necessidade, que faz girar os céus no fim da República de Platão, está no corpus **só em grego, sem tradução de domínio público** — e por isso esta página nomeia-o e não o cita. ★★★ **O que sobra é pouco, é conferível, e é bastante melhor do que aquilo que se perdeu.**
⚠ Ela não está na Teogonia — e o que lá está é uma corda
Comecemos pelo lugar onde ela devia estar e não está. Hesíodo abre a Teogonia a nomear o que veio primeiro — o Caos, a Terra, o Tártaro, o Amor; ver Khaos, Gaia, Tártaro e Eros primordial. ⚠ **Ananque não consta da lista.** A palavra existe no poema, mas em minúscula, e a fazer outra coisa.
…não escapou à cólera pesada dele, mas por necessidade fortes laços o prenderam, ainda que soubesse muitas manhas.
Hesíodo, Teogonia 615 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
★★★ **Em Hesíodo, a necessidade não é uma pessoa: é uma corda.** A frase é sobre Prometeu amarrado, e o que o prende não é uma deusa — é o facto de não haver saída. ★ Reparem na direção do movimento: **primeiro a palavra descreve o que acontece a quem está preso; só muito depois é que alguém a põe de pé e lhe dá um trono.**
⚠ E isto tem uma consequência prática para quem lê catálogos de mitologia. A Ananque «primordial», irmã do Caos e da Noite, filha de ninguém, **não vem de Hesíodo**: vem da tradição órfica, que é tardia, fragmentária e não está neste acervo. Ver Sobre os Primordiais e Nyx. Enquanto não houver texto conferível, o que este verbete pode dizer dela é o que vem a seguir — e não é a genealogia.
★★★ Ésquilo pergunta quem manda nela
Prometeu está pregado ao rochedo e sabe o futuro; é essa a tortura. Quando o coro lhe pergunta se não há modo de escapar, ele responde com uma frase que vale por um tratado.
Não é assim que o Destino, que tudo leva a cumprimento, há de completar este curso. Só depois de eu ter sido dobrado por dores e tormentos infinitos hei de escapar aos meus grilhões. A perícia é muito mais fraca do que a Necessidade.
Ésquilo, Prometeu Acorrentado 511 (trad. Herbert Weir Smyth, 1926)
★★ **«A perícia é muito mais fraca do que a Necessidade.»** Vejam quem o diz: o deus da técnica, aquele que deu aos homens o fogo e os ofícios, a admitir que o seu próprio recurso não chega. E o coro, em vez de se calar, faz a pergunta certa.
Quem é então o piloto da Necessidade?
Ésquilo, Prometeu Acorrentado 515 (trad. Herbert Weir Smyth, 1926)
As Moiras de tripla forma e as Fúrias que não esquecem.
Ésquilo, Prometeu Acorrentado 516 (trad. Herbert Weir Smyth, 1926)
Será então que Zeus tem menos poder do que elas?
Ésquilo, Prometeu Acorrentado 517 (trad. Herbert Weir Smyth, 1926)
★★★ **A última pergunta fica sem resposta:** Prometeu diz que ainda não é tempo de saber, e muda de assunto. ⚠ Mas o que já ficou dito não se desfaz — **a Necessidade tem leme, e quem o segura são as As Moiras e as As Erínias, não Zeus.** ★ E note-se a economia da cena: em quatro versos, Ésquilo põe em causa a hierarquia inteira do mundo e recusa-se a fechá-la.
★★ O único recinto dela está fechado
De uma deusa quase sem mito seria de esperar culto nenhum. Acontece o contrário: Pausânias, a subir o Acrocorinto, encontra-a — e encontra-a acompanhada.
…Depois destes há altares a Hélio, e um santuário da Necessidade e da Força, no qual não é costume entrar.
Pausânias, Descrição da Grécia 2.4.6 (trad. W.H.S. Jones, 1918)
★★★ **Um recinto onde «não é costume entrar».** ⚠ Não diz que é proibido: diz que não se costuma — é a fórmula grega para aquilo que se evita sem que ninguém tenha de o mandar. **Para a deusa daquilo que não se pode contornar, é o retrato exato:** um lugar que existe, que se vê da estrada, e ao qual não se vai. Ver Hélio, que tem os altares logo antes.
★ E a companhia dela diz muito. «A Necessidade e a Força» traduz Ananque e Bia — e Bia, na Teogonia, é filha de Palas e do Estige, uma das quatro que ficam de pé junto ao trono de Zeus. ⚠ Esta identificação é leitura, e fica declarada como leitura: a tradução escreve «Força», e é o grego que lhe dá o nome próprio. ★★ No parágrafo seguinte, Pausânias regista ali ao lado um templo das As Moiras e outro de Demeter e da Donzela, **com imagens que também não se mostram.** Três recintos seguidos de coisas que não se olham.
A Necessidade como princípio, não como pessoa
Onde ela ganha estatuto a sério não é no culto nem na genealogia: é na filosofia. E o preço disso é deixar de ser alguém.
Porque, na verdade, este Cosmos, na sua origem, foi gerado como um composto, da combinação da Necessidade e da Razão. E na medida em que a Razão dominava a Necessidade, persuadindo-a a conduzir para o melhor fim a maior parte das coisas que vinham a ser, foi assim e por isso, cedendo a Necessidade à persuasão inteligente, que este nosso Universo foi ao princípio construído desta maneira.
Plato, Timaeus 48 (trad. Robert Gregg Bury, 1929)
★★★ **A Razão não vence a Necessidade: persuade-a.** Vejam o verbo, porque é ele que faz o mundo — Platão não põe uma força a esmagar a outra, põe-nas a negociar, e o cosmos é o resultado dessa negociação. ★★ **É a única cena que este acervo tem em que a Necessidade cede** — e cede a ser convencida, não a ser derrotada.
…e quanto àqueles primeiros tratos entre os deuses que Hesíodo e Parménides relatam, tomo-os por obra da Necessidade, e não do Amor, se é que há alguma verdade nessas histórias. Porque não teria havido castrações, nem uns a agrilhoarem os outros, nem nenhuma daquelas várias violências, se o Amor estivesse entre eles.
Plato, Symposium 195 (trad. Walter Rangeley Maitland Lamb, 1925)
★★★ **Reparem no que Agatão acaba de fazer:** atribuiu à Necessidade a foice de Gaia, a castração de Uranus e as correntes dos titãs — a Teogonia inteira, do princípio ao fim, arrumada debaixo de um nome que Hesíodo nunca escreveu. ⚠ E aí está, dito por um ateniense num jantar, o problema desta página: **Ananque é grande demais para caber numa genealogia e pequena demais para ter uma história.** Não age, não fala, não tem filhos que se possam conferir; e mesmo assim é a ela que se atribui tudo o que aconteceu antes de haver deuses. Terá sido isso que a manteve fora da Teogonia — ou terá sido isso, precisamente, que Hesíodo não tinha como pôr em verso?