LEÃO é a primeira das doze tarefas de Héracles e a que define o herói: uma fera que nenhuma arma fere. Apolodoro registra a genealogia dela em três palavras — gerada por Tifão — e é essa origem que explica a invulnerabilidade. O que resolve o problema não é força maior: é engenharia.

A fera que a arma não fere
A ordem é simples e o obstáculo aparece no meio da frase, quase de passagem.
Primeiro, Euristeu ordenou-lhe trazer a pele do leão de Neméia; ora, esse era um animal invulnerável, gerado por Tifão.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.5.1 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
Héracles primeiro tenta o normal — atira uma flecha. Não funciona. Levanta a clava e persegue. Também não. E aí vem a solução, que é de topografia.
E quando o leão se refugiou numa caverna de duas bocas, Héracles tapou uma das entradas e entrou sobre a fera pela outra, e, passando-lhe o braço em volta do pescoço, segurou-o…
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.5.1 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
Tapar a saída e entrar pela outra: a primeira das doze tarefas é resolvida com uma parede improvisada e um estrangulamento. É bom que a primeira seja assim, porque estabelece a regra das outras onze.
A pele
O prêmio é o problema seguinte: como esfolar um bicho que nenhuma lâmina corta. A tradição responde que Héracles usou as próprias garras do leão — e a pele vira a armadura que ele carrega em toda a iconografia grega.
É por isso que se reconhece Héracles num vaso mesmo sem legenda: o homem de clava com um capuz de leão. A constelação comemora a fera; a arte comemora a pele. Ver Câncer, o outro animal que virou estrela na mesma série de tarefas.
De onde vem um bicho que arma nenhuma fere
Apolodoro resolve a invulnerabilidade em três palavras — «gerado por Tifão» —, mas é Hesíodo quem dá a ficha completa, e nela o leão tem mãe, irmãos e um criador.
Equidna uniu-se em amor a Ortro e gerou a Esfinge mortífera, que destruiu os cadmeus, e o leão de Neméia, que Hera, a boa esposa de Zeus, criou e pôs a rondar os montes de Neméia, praga para os homens.
Hesíodo, Teogonia 326 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
★ Duas coisas nessa frase. A primeira: o leão e a Esfinge são irmãos — a fera que Héracles estrangula e o enigma que Édipo resolve saíram da mesma ninhada. Ver Esfinge e Edipo. A segunda: o leão foi **criado e posto** ali. Não migrou para Neméia; foi instalado.
«Praga para os homens» é a fórmula que Hesíodo reserva para o que existe contra a humanidade em geral, e não contra um inimigo. Repare que Hera cria o leão do mesmo modo que cria a hidra — ver Câncer: a mesma deusa, dois monstros, um herói.
O que a constelação comemora
Vale dizer o que está e o que não está no céu. A constelação chama-se Leão, e não Héracles — o herói tem estrela sua, noutro canto. Quem foi posto entre os astros foi a fera derrotada.
É a regra do céu grego, e ela se repete no Câncer, no Escorpião e no Touro: o catasterismo quase nunca premia o vencedor. Ele guarda o que foi perdido, o que foi morto ou o que foi disfarce. Uma constelação, para os gregos, é mais parecida com um túmulo do que com um troféu.
O que se vê no céu
Leão é uma das poucas constelações que se parecem mesmo com o que dizem ser: uma foice de estrelas forma a cabeça e a juba, e o corpo estende-se para trás, terminando numa estrela chamada Denébola, «a cauda do leão».
★ A estrela principal é **Régulo** — «o reizinho» —, e ela fica quase exatamente sobre a eclíptica, o caminho do Sol. Por isso é ocultada pela Lua com frequência, o que fazia dela um dos relógios mais úteis da astronomia antiga.
⚠ **Esta seção não tem citação antiga, e é de propósito.** Uma constelação é duas coisas: uma história e um desenho. A história deste site sai sempre de uma fonte com endereço; o desenho não se cita — vê-se. O que está acima é o que qualquer pessoa confere olhando para cima, numa noite limpa, sem instrumento nenhum.