CASSIOPEIA cometeu o crime mais leve e mais grego que existe: falou de si mesma. Rainha da Etiópia, mulher de Cefeu, mãe de Andrômeda, comparou-se às Nereidas e saiu-se melhor na comparação — feita por ela. O mar respondeu com uma inundação e um monstro, e a fatura foi cobrada à filha.

A frase, e o tamanho da resposta
Apolodoro registra a ofensa e a resposta na mesma respiração, e a desproporção entre as duas é o ponto.
Pois Cassiopeia, mulher de Cefeu, rivalizara em beleza com as Nereidas e gabara-se de ser melhor que todas elas; por isso as Nereidas ficaram iradas, e Poseidon, partilhando a cólera delas, enviou uma inundação e um monstro para invadir a terra.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.4.3 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★ **Uma frase, um dilúvio.** Não houve roubo, assassínio nem sacrilégio; houve uma mulher dizendo-se bonita diante das divindades erradas. É o que os gregos chamavam *hýbris* — e a definição prática dela é esta: não é maldade, é **ocupar um degrau que não é o seu**.
As Nereidas são as cinquenta filhas de Nereu — ver Tétis (nereida) e Anfitrite. Poseidon entra por casamento, «partilhando a cólera delas».
Quem paga
A parte que faz a história ser lembrada não é o castigo dela: é o de quem não fez nada.
Mas, tendo Ámon predito que haveria libertação da calamidade se Andrômeda, filha de Cassiopeia, fosse exposta como presa do monstro, Cefeu foi obrigado pelos etíopes a fazê-lo, e amarrou a filha a um rochedo.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.4.3 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★★ **O oráculo nomeia a filha «de Cassiopeia»** — não «de Cefeu». A fonte marca a linhagem pelo lado de quem falou. Ver Andrômeda e Cefeu.
A punição, nesta mitologia, quase nunca é pessoal. Ela é **familiar e territorial**: cai sobre a casa e sobre a terra. É a mesma lógica da fome de Cálidon por um nome esquecido num sacrifício — ver Meleagro.
A cadeira que gira
A tradição astronômica conta que Cassiopeia foi posta no céu presa a um trono, e que Poseidon a arrumou de tal modo que, metade do ano, ela roda de cabeça para baixo — humilhação permanente e visível.
⚠ A ligação entre esta história e o desenho no céu chega até nós por Higino e pelo Pseudo-Eratóstenes, que não estão no acervo de fontes conferíveis deste site. O que está — e é o que a página cita — é a história grega que a constelação comemora.
★ **O que se pode conferir é a observação:** Cassiopeia é circumpolar no céu do norte, isto é, nunca se põe, e portanto passa metade de cada noite invertida. A explicação mítica veio depois do fato — e é assim que quase todo catasterismo funciona. Ver Escorpião, onde a mesma regra aparece com Órion.
O que se vê no céu
Cassiopeia é a constelação mais fácil de identificar do céu do norte: um **W** de cinco estrelas brilhantes, do outro lado da Polar em relação à Ursa Maior.
★ E é circumpolar — nunca se põe. Por isso ela roda em torno do polo, e metade de cada noite passa-a **de cabeça para baixo**. Ver Cassiopeia: a tradição explicou a inversão como castigo, mas a inversão é o fato, e veio antes da explicação.
⚠ **Esta seção não tem citação antiga, e é de propósito.** Uma constelação é duas coisas: uma história e um desenho. A história deste site sai sempre de uma fonte com endereço; o desenho não se cita — vê-se. O que está acima é o que qualquer pessoa confere olhando para cima, numa noite limpa, sem instrumento nenhum.