MENELAU é rei de Esparta, irmão de Agamêmnon e marido de Helena. Quando Páris a leva, ele cobra o juramento que todos os pretendentes tinham feito — e mil navios saem. ⚠ E aqui está o desconforto que esta página existe para dizer: **de todos os heróis da Ilíada, Menelau é o que Homero trata com menos entusiasmo e o que Homero recompensa melhor.**
⚠ O que um deus diz dele pelas costas
A Ilíada tem centenas de epítetos elogiosos para Menelau — «caro a Ares», «de belos cabelos», «de bom grito de guerra». **Mas há um momento em que um deus fala dele a sério, e o veredicto é outro.**
A cena: Menelau acaba de matar Podes, o companheiro predileto de Heitor, e de arrastar o corpo de Pátroclo para fora da linha troiana. Apolo aproxima-se de Heitor disfarçado, para o envergonhar.
«Heitor, que outro homem entre os aqueus te temerá ainda, vendo que assim recuaste diante de Menelau, **que dantes era um guerreiro fraco**? Agora, sem ninguém a ajudá-lo, levou o morto de entre as fileiras dos troianos e foi-se — sim, matou o teu companheiro de confiança, um bom homem entre os primeiros combatentes, Podes, filho de Eécion.»
Homero, Ilíada 17.567 (trad. Augustus Taber Murray, 1924)
★★★ **«Que dantes era um guerreiro fraco.»** É a avaliação de Apolo, e é dita para picar Heitor — mas só pica se for verdade reconhecida no acampamento. **A guerra de dez anos foi travada pela honra de um homem que os próprios deuses classificam abaixo dos outros.**
⚠ E note-se a mecânica do insulto: Apolo não diz que Menelau é fraco. Diz que **Heitor recuou perante um fraco** — o desprezo por Menelau é o instrumento, não o alvo. Ver Apolo.
★★★ A guerra devia ter acabado no canto 3
Antes de a Ilíada ter meia dúzia de mortos, os dois exércitos combinam resolver tudo num duelo: Menelau contra Paris, o vencedor fica com Helena e com o tesouro, e todos vão para casa.
**E Menelau ganha.** Quebra a espada no elmo de Paris, agarra-o pela cimeira e arrasta-o pelo chão. ⚠ A correia estrangula-o — e é Afrodite que rebenta a correia e leva Paris embrulhado em névoa para o quarto dele.
«Ouvi-me, troianos e dárdanos e aliados. **A vitória vê-se agora, com certeza, que fica com Menelau**, caro a Ares; entregai portanto a argiva Helena e o tesouro com ela, e pagai em retribuição a compensação que for devida, tal que fique na memória dos homens que ainda hão de vir.»
Homero, Ilíada 3.421 (trad. Augustus Taber Murray, 1924)
★★★ **Agamêmnon declara a guerra ganha e o assunto encerrado — e todos os aqueus gritam que sim.** A Ilíada tem vinte e um cantos depois deste. O poema mostra a paz possível e depois desfá-la, para que o leitor saiba exatamente quanto custa o que se segue.
⚠ E quem a desfaz é o arqueiro Pândaro, empurrado por Atena: uma flecha que atinge Menelau no cinto, no meio da trégua jurada. **O sangue dele é a rutura do juramento.**
«Irmão querido, foi para a tua morte, ao que parece, que jurei este juramento com sacrifício, pondo-te sozinho diante dos aqueus a combater os troianos, visto que os troianos assim te feriram e **calcaram aos pés os juramentos de fé**. Mas de modo nenhum um juramento é sem efeito, nem o sangue dos cordeiros e as libações de vinho puro e os apertos de mão em que confiamos.»
Homero, Ilíada 4.127 (trad. Augustus Taber Murray, 1924)
A casa mais rica da Grécia, e o dono que não a quer
Na Odisseia, Telémaco chega a Esparta e fica deslumbrado: bronze, ouro, electro, prata, marfim — «assim, penso eu, é a corte de Zeus olímpico por dentro».
Menelau ouve o rapaz e responde com a frase que define a personagem.
«Enquanto eu vagueava por essas terras a juntar muita fazenda, entretanto outro matou o meu irmão à socapa e de surpresa, pela astúcia da mulher maldita dele. Assim, bem vês, **não tenho alegria nenhuma em ser senhor desta riqueza**; e bem podeis ter ouvido isto dos vossos pais, quem quer que eles sejam, pois muito sofri, e deixei cair em ruína uma casa senhorial e cheia de muito belo tesouro.»
Homero, Odisseia 4.78 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)
★★ **Ele voltou no oitavo ano, por Chipre, Fenícia, Egito, Etiópia e Líbia, e trouxe uma fortuna** — e o que diz dela é que a trocaria por um terço, se os mortos voltassem. Ver Agamêmnon, o irmão assassinado à mesa; ver Clitemnestra, a «mulher maldita» da frase.
★ É o mesmo Menelau que, para saber por que não tem vento no Egito, empurra o velho Proteu para dentro de uma cova na areia debaixo de peles de foca. **A perseverança dele nunca esteve em causa; o brilho é que não estava lá.**
★★★ O único a quem prometem o paraíso — e o motivo
Homero não promete vida depois da morte a ninguém. O Hades da Odisseia é o lugar onde Aquiles diz que preferia ser servo de um camponês vivo a rei dos mortos. **Há uma exceção, e é este homem.**
«Mas quanto a ti, Menelau, criado por Zeus, não está determinado que morras e encontres o teu destino em Argos, criadora de cavalos, mas para a planície Elísia e os confins da terra os imortais te levarão, onde habita Radamanto de belos cabelos, e onde a vida é mais fácil para os homens. **Não há ali neve, nem tempestade pesada, nem nunca chuva.**»
Homero, Odisseia 4.561 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)
★★★ **E a razão dada é literalmente o casamento**: «porque tens Helena por mulher, e és aos olhos deles o marido da filha de Zeus». Não a coragem, não a piedade, não o comando — **o parentesco por aliança.** Ver Elísio.
⚠ **A Odisseia é coerente ao ponto de ser cruel:** a mesma mulher que lhe custou dez anos de guerra e o desprezo dos deuses é a razão pela qual ele não morre. **O prémio e o castigo são a mesma pessoa.**
⚠⚠ E se ela nunca tivesse ido a Troia?
Há uma tradição, que Heródoto leva a sério e Eurípides põe em cena, segundo a qual Helena passou os dez anos da guerra **no Egito** — e o que estava em Troia era um fantasma feito de ar.
Na peça de Eurípides, Menelau naufraga no Egito com a «Helena» que resgatou de Troia guardada numa gruta, e encontra a verdadeira. A reposta dela é uma linha só.
«**Não fui à terra de Troia; era uma imagem.**»
Euripides, Helen 582 (texto grego)
★★★ **Dez anos de cerco, e a coisa por que se lutava não existia.** Hera fabricara o fantasma para que Paris não a tivesse — de modo que o prémio de Paris era ar, e a vingança de Menelau caiu sobre uma cidade que não tinha o que ele veio buscar.
⚠ E é a versão mais antiga do que parece: já o poeta Estesícoro dizia tê-la escrito depois de ficar cego por difamar Helena. **A Grécia guardou, lado a lado, a guerra por uma mulher e a guerra por um engano** — e nunca escolheu. Ver Helena.