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Virgem

VIRGEM é a Justiça. Os gregos a chamavam Dice, filha de Zeus e de Têmis; os romanos, Astreia. E o mito dela é o único do zodíaco que não é uma aventura: é uma partida. Enquanto os homens foram justos, ela morou entre eles; quando deixaram de ser, foi-se embora — e foi a última a ir.

Constelação de Virgem mitologia grega
Constelação de Virgem mitologia grega

A última a partir

Ovídio conta as quatro idades do mundo no primeiro livro das Metamorfoses, e a idade de ferro acaba com um verso que virou proverbial.

A última dos celestes, Astreia deixou a terra.

Ovídio, Metamorfoses 1.150 (texto latino)

O verso anterior diz que a piedade jaz vencida; este diz quem foi embora por último. A imagem não é de castigo divino — é de retirada. Os deuses não punem a idade de ferro: eles saem dela.

E é assim que ela vira constelação: a Justiça que subiu. Uma vez no céu, continua visível e continua fora de alcance — que é, exatamente, o que o mito quer dizer sobre a justiça na terra.

Dice, a que se senta ao lado de Zeus

Antes de Ovídio, Hesíodo já tinha dado a ela uma função concreta, e não celeste: ela senta ao lado do pai e conta o que os homens fizeram.

E há a virgem Justiça, filha de Zeus, que é honrada e reverenciada entre os deuses que habitam o Olimpo; e sempre que alguém a fere com calúnia mentirosa, ela se senta ao lado do pai, Zeus, filho de Cronos, e denuncia o pensamento injusto dos homens.

Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias 255 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

«Denuncia o pensamento injusto dos homens»: a Justiça de Hesíodo não julga — testemunha. É por isso que a saída dela da terra, em Ovídio, é uma sentença de outro tipo: quando a testemunha vai embora, ninguém mais está contando.

A Justiça que se senta ao lado do pai

Hesíodo não descreve a Justiça como ideia: descreve como pessoa, com endereço e com hábito. Ela mora no Olimpo e faz uma coisa muito concreta quando é ofendida.

E há a virgem Justiça, filha de Zeus, honrada e reverenciada entre os deuses que moram no Olimpo; e sempre que alguém a fere com calúnia mentirosa, ela se senta ao lado do pai, Zeus filho de Cronos.

Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias 255 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

★ «Senta-se ao lado do pai» — não grita, não castiga, não aparece ao ofensor. Ela vai contar. O castigo dos Trabalhos e os Dias é sempre indireto: quem paga é a cidade inteira, na colheita seguinte. A palavra grega é **Diké**, que é ao mesmo tempo o nome da deusa e a palavra comum para «processo judicial».

É essa figura — a virgem que observa e denuncia — que a tradição astronômica põe no céu como a constelação de Virgem, com a espiga de trigo na mão. A espiga é a assinatura de Hesíodo: a justiça, para ele, mede-se em safra.

A outra candidata: a moça que achou o pai

Há uma segunda história por trás da mesma constelação, e ela é de Ática, não de Beócia. Ícaro recebeu de Dioniso o vinho e cometeu o erro de dividi-lo com quem não sabia bebê-lo.

Ícaro foi ter com uns pastores, que, tendo provado a bebida e bebido dela em abundância sem água, pelo prazer que dava, imaginaram estar enfeitiçados e mataram-no; mas de dia entenderam o que se passara e sepultaram-no.

Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 3.14.7 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

Quando a filha dele, Erígone, procurava o pai, um cão doméstico chamado Mera, que acompanhara Ícaro, mostrou-lhe o corpo, e ela chorou o pai e enforcou-se.

Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 3.14.7 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

Três personagens desta história foram para o céu na tradição posterior: o pai, a filha e o cão. ★ E o detalhe que faz a passagem doer é o dos pastores entendendo «de dia» o que fizeram de noite — a primeira bebedeira da humanidade acaba com um homicídio e um enterro feito pelos próprios assassinos.

O que se vê no céu

Virgem é a segunda maior constelação do céu, e a marca dela é uma estrela azul-branca de primeira grandeza: **Espiga** — em latim *Spica*, e em grego *Stákhys*: a espiga de trigo que a figura segura na mão.

★★ **O nome da estrela é o argumento do mito.** A justiça de Hesíodo mede-se em colheita — ver Virgem e As Horas —, e a estrela mais brilhante da constelação da Justiça chama-se, há três mil anos, «espiga de trigo».

⚠ **Esta seção não tem citação antiga, e é de propósito.** Uma constelação é duas coisas: uma história e um desenho. A história deste site sai sempre de uma fonte com endereço; o desenho não se cita — vê-se. O que está acima é o que qualquer pessoa confere olhando para cima, numa noite limpa, sem instrumento nenhum.