TESEU é o herói de Atenas, e a diferença entre ele e os outros é essa: os demais pertencem a uma história, ele pertence a uma cidade. Foi feito para ser o fundador — o que limpa a estrada, o que acaba com o tributo, o que junta os povoados numa capital. E, como todo herói grego, termina cobrando o preço: o único morto que a sua vitória causa é o pai.
A pedra, a espada e a estrada
O reconhecimento de Teseu é por objeto escondido: Egeu deixara a espada e as sandálias debaixo de uma pedra, e o filho seria reconhecido quando conseguisse levantá-la. O que ele faz em seguida é a parte que interessa — em vez de tomar o navio, vai a pé.
Etra deu a Egeu um filho, Teseu; e quando ele cresceu, empurrou a pedra, tomou as sandálias e a espada e correu a pé para Atenas. E limpou a estrada, que estava tomada por malfeitores. Pois primeiro, em Epidauro, matou Perifetes, filho de Hefesto e de Anticleia, que era chamado o Clavígero por causa da clava que carregava.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 3.16.1 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
A clava de ferro do primeiro bandido Teseu toma para si e passa a carregar. É um detalhe de caráter: o herói de Atenas se arma com o que tirou do inimigo, e a estrada limpa a golpes vira o currículo com que ele se apresenta à cidade.
O terceiro tributo
Atenas devia a Creta um pagamento em gente, e Teseu entra na história como item de uma lista.
E ele foi contado entre os que deviam ser enviados como terceiro tributo ao Minotauro; ou, como alguns afirmam, ofereceu-se voluntariamente. E, como o navio tinha vela negra, Egeu encarregou o filho de, se voltasse vivo, içar velas brancas no navio.
Pseudo-Apolodoro, Epítome 1.7 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★ ⚠ **«Ou, como alguns afirmam, ofereceu-se voluntariamente.»** As duas versões cabem numa linha e mudam o herói inteiro: num caso ele é sorteado, no outro ele escolhe. Apolodoro não decide, e este site também não.
A vela é o detalhe que mata o pai. Ver Minotauro.
A vela preta
O fim é o de sempre nesta casa: a vitória volta como desgraça, e a causa é um esquecimento. Apolodoro liga as duas coisas numa frase só — o luto por Ariadne e a vela que não foi trocada.
Na sua tristeza por causa de Ariadne, Teseu esqueceu-se de içar velas brancas no navio quando se aproximou do porto; e Egeu, vendo da acrópole o navio de vela negra, supôs que Teseu tivesse morrido; então lançou-se do alto e morreu.
Pseudo-Apolodoro, Epítome 1.10 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
Compare com o disco de Perseu: em ambos os casos o herói mata um parente sem querer, e em ambos a morte é causada por um sinal mal lido — um lance que erra o alvo, uma cor de pano no horizonte. A tragédia grega tem uma preferência clara por acidentes que parecem sentença.
Depois disso Teseu reina em Atenas — e o primeiro ato do reinado é matar os cinquenta filhos de Palas, os primos que disputavam o trono. O fundador da cidade começa a governar limpando a família, como limpara a estrada.
O fio, e o que Teseu faz com ele
A saída do labirinto é o episódio mais mal contado da mitologia popular, e a fonte é bem mais precisa que a lenda.
E por sugestão dele, ela deu a Teseu um fio quando ele entrou; Teseu prendeu-o à porta e, arrastando-o atrás de si, entrou. E, tendo encontrado o Minotauro na última parte do labirinto, matou-o à força de murros; e, puxando o fio atrás de si, saiu de novo.
Pseudo-Apolodoro, Epítome 1.9 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★★ **«À força de murros.»** Sem espada, sem arma nenhuma. O herói de Atenas mata o monstro de Creta com as mãos — e é essa a razão de a arte grega o mostrar quase sempre desarmado nessa cena.
E o fio não é de Ariadne por invenção dela: a sugestão é de Dédalo, o arquiteto do labirinto. **Quem construiu o problema entregou a solução.**
O que aconteceu na ilha do caminho
O regresso tem uma parada em Naxos, e o que acontece ali é contado por Apolodoro sem uma linha de comentário.
E de noite chegou com Ariadne e as crianças a Naxos. Ali Dioniso apaixonou-se por Ariadne e levou-a; e, tendo-a levado a Lemnos, gozou dela e gerou Toante, Estáfilo, Enopião e Peparetos.
Pseudo-Apolodoro, Epítome 1.9 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★ Repare no que a fonte NÃO diz: não diz que Teseu a abandonou. Diz que um deus a levou. ⚠ **A versão do abandono — Ariadne acordando sozinha na praia — é de Catulo e de Ovídio, e não desta fonte.** As duas leituras existem, e a diferença entre elas é a diferença entre um herói ingrato e um herói espoliado.
Ver Dionisio. O resto da viagem é a vela negra esquecida, e o rei atirando-se do alto.