DESPOINA quer dizer «a Senhora» — e não é um nome, é um modo de não dizer o nome. Na Arcádia, região montanhosa e conservadora do centro do Peloponeso, cultuava-se uma deusa filha de Deméter e Posídon cujo nome verdadeiro só era revelado aos iniciados nos mistérios de Licosura. Pausânias, que visitou o santuário no século II d.C. e descreveu tudo o que viu, chega ao ponto de dizer o nome e para. É a única vez em toda a obra dele que um viajante grego declara, por escrito, que sabe e não vai contar.
★★★ O nome que Pausânias se recusa a escrever
Não há, em toda a literatura grega conservada, confissão mais desconcertante que esta. Pausânias percorreu a Grécia inteira anotando estátuas, e diante desta deusa ele para.
Esta Senhora os arcádios veneram mais que a qualquer outro deus, declarando que ela é filha de Poseidon e de Deméter. «Senhora» é o sobrenome dela entre a multidão, assim como chamam «a Donzela» à filha de Deméter com Zeus. Mas, ao passo que o nome verdadeiro da Donzela é Perséfone, como dizem Homero e Pamfos antes dele nos seus poemas, o nome verdadeiro da Senhora tenho medo de escrever aos não iniciados.
Pausânias, Descrição da Grécia 8.37.9 (trad. W.H.S. Jones, 1918)
**«Despoina» não é o nome dela: é o cargo.** Quer dizer «Senhora», «Dona da casa» — o feminino de *despotes*. O nome verdadeiro existia, era pronunciado nos mistérios de Licosura, e morreu com eles.
★ ⚠ **E repare no que Pausânias faz com Perséfone, no mesmo parágrafo:** o nome dela ele escreve, e justifica — «como dizem Homero e Pamfos». Ou seja, ele distingue o que já está publicado em poema do que é segredo de iniciação. É um homem antigo aplicando, em 150 d.C., a mesma regra que este site aplica: só se afirma o que se pode apontar numa fonte.
O irmão de quatro patas
O mesmo parto arcádio deu à luz mais um filho, e este a tradição pôde nomear à vontade.
Dizem que Deméter teve de Poseidon uma filha, cujo nome não costumam divulgar aos não iniciados, e um cavalo chamado Aríon. Por essa razão dizem que foram os primeiros arcádios a chamar Poseidon «Cavalo».
Pausânias, Descrição da Grécia 8.25.7 (trad. W.H.S. Jones, 1918)
★ **Um cavalo e uma deusa, do mesmo parto.** A versão arcádia conta que Deméter, fugindo de Poseidon, se transformou em égua para se esconder no meio de um rebanho; Poseidon virou cavalo. Nascem os dois. Ver Arion.
É a mitologia mais antiga e mais rural que a Grécia guardou — a de uma Deméter que ainda é bicho, e de um Poseidon que é o deus dos cavalos antes de ser o do mar. Quem a preservou não foram os poetas: foram os mistérios de uma cidade pequena, e um viajante que se recusou a contar o fim.
O que ficou por saber
Por causa da recusa de Pausânias, o nome verdadeiro de Despoina não chegou até nós. Sabe-se o que ela governava, onde era cultuada, de quem era filha, como era a estátua, e não se sabe como ela se chamava. É o exemplo mais nítido do que os mistérios gregos conseguiram guardar.
⚠ E é preciso resistir à tentação de preencher o vazio. Há palpites modernos, e todos são palpites: nenhuma fonte antiga escreveu o nome. Um acervo que promete «autor, obra e verso» não completa lacuna com hipótese — regista a lacuna, que é ela mesma o dado mais interessante desta página.
A deusa mais importante da Arcádia
A frase de abertura de Pausânias merece ser lida devagar: os arcádios «veneram-na mais que a qualquer outro deus». Mais que Zeus, mais que Deméter, mais que Apolo.
Isso desmonta a ideia de um panteão grego único e arrumado. ★ **Na Arcádia do século II, a divindade principal era uma cujo nome não chegou até nós.** O que sobreviveu foi o panteão de Atenas e o de Homero — não porque fossem os verdadeiros, mas porque foram os escritos.
Ver Demeter, Perséfone e Poseidon: Despoina é filha dos dois primeiros nomes desta lista e do terceiro, num arranjo que nenhuma das páginas olímpicas do site menciona.