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Hécate

HÉCATE é o caso mais estranho da Teogonia. Ela é filha de Titãs — e, quando Zeus derruba os Titãs, ela não perde nada. Hesíodo interrompe a genealogia para lhe dedicar quarenta versos, mais do que dá a quase qualquer olímpico, e o argumento dele é o mesmo o tempo todo: ela tem parte em tudo, porque Zeus lhe deixou a parte que ela já tinha.

A honra que atravessou a guerra

A apresentação é feita com um verbo de preferência, e não de parentesco: Zeus a honrou acima de todos.

…levou-a à sua grande casa para ser chamada esposa querida. E ela concebeu e deu à luz Hécate, a quem Zeus, filho de Cronos, honrou acima de todos. Deu-lhe presentes esplêndidos: ter uma parte da terra e do mar estéril. Recebeu honra também no céu estrelado…

Hesíodo, Teogonia 410 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

Terra, mar e céu — os três terços do sorteio entre Zeus, Poseidon e Hades. Hécate tem parte nos três, o que faz dela a única divindade da Teogonia que atravessa a divisão do cosmos em vez de caber nela.

Para que serve

O poema é concreto sobre a utilidade dela, e a lista é longa: quem reza, quem julga, quem compete, quem cavalga, quem navega, quem cria gado. Hesíodo começa pelo mais geral.

…e é honrada extraordinariamente pelos deuses imortais. Pois até hoje, sempre que algum dos homens sobre a terra oferece sacrifícios ricos e reza por favor segundo o costume, ele invoca Hécate. Grande honra vem com facilidade àquele cujas preces a deusa recebe favoravelmente.

Hesíodo, Teogonia 415 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

«Sempre que algum dos homens... invoca Hécate»: ela não é a deusa de uma coisa, é a deusa da eficácia do pedido. É por esse caminho — e não pela feitiçaria, que é associação posterior — que ela chega a ser a divindade a quem se recorre quando se quer que alguma coisa dê certo.

A que ouviu o grito

No Hino Homérico a Deméter, quando Perséfone é levada, ninguém a ouve — nem deus nem homem. A exceção aparece adiante, e é ela: Hécate, na sua caverna, ouviu, e é quem leva a notícia à mãe.

…lamentando. Então gritou agudamente com a sua voz, chamando pelo pai, o filho de Cronos, que é o mais alto e o mais excelente. Mas ninguém, nem dos deuses imortais nem dos homens mortais, ouviu a sua voz, nem tampouco as oliveiras carregadas de fruto rico…

Hino Homérico 2, a Deméter 20 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

É por isso que Hécate acaba ligada ao mundo dos mortos e às passagens: ela é a que percebe o que atravessa a fronteira. Nos séculos seguintes essa competência vira encruzilhada, tocha, cão e magia — mas a raiz está aqui, numa deusa que estava numa caverna e escutou o que ninguém escutou.

★ O elogio mais longo da Teogonia é para ela

Há um fato sobre Hécate que quase nenhum resumo moderno registra, e ele é mensurável: **Hesíodo dedica-lhe mais versos do que a qualquer outro deus do poema** — mais que a Zeus na hora da vitória, mais que a Afrodite ao nascer. São cerca de quarenta versos de louvor seguido.

E ela concebeu e deu à luz Hécate, a quem Zeus, filho de Cronos, honrou acima de todos. Deu-lhe presentes esplêndidos: ter uma parte da terra e do mar estéril. Recebeu honra também no céu estrelado, e é honrada em excesso pelos deuses imortais.

Hesíodo, Teogonia 411-425 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

Terra, mar e céu — **os três domínios que Zeus, Poseidon e Hades dividiram entre si.** Hécate tem parte nos três ao mesmo tempo, e é a única. Ver Zeus, Poseidon e Hades.

A titânide que não perdeu nada na guerra

E aqui está o detalhe político que faz esta passagem valer o dobro: Hécate é da geração anterior, e mesmo assim saiu ilesa da troca de poder.

Pois de quantos nasceram da Terra e do Oceano, entre todos estes ela tem o seu quinhão devido. O filho de Cronos não lhe fez mal nenhum nem lhe tirou nada de tudo o que era o quinhão dela entre os antigos deuses titãs: ela guarda, tal como a divisão foi feita no princípio, desde o começo.

Hesíodo, Teogonia 411-425 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

★★ **Zeus derrubou os titãs, acorrentou uns, enterrou outros — e a esta confirmou os direitos antigos.** Ver Sobre os Titas e Tártaro. É a única exceção declarada de toda a Titanomaquia, e Hesíodo não explica por quê.

⚠ A explicação mais citada pelos estudiosos é que Hesíodo tinha devoção pessoal por ela, ou que o culto dela era forte na Beócia dele. Nenhuma dessas hipóteses está no texto, e por isso ficam aqui como hipótese e não como fato.

A quem os homens chamam de verdade

O que Hesíodo diz do culto dela é, talvez, a informação mais concreta que a Teogonia dá sobre religião praticada.

Pois até hoje, sempre que algum dos homens na terra oferece sacrifícios ricos e reza por favor segundo o costume, ele invoca Hécate. Grande honra vem com facilidade àquele cujas preces a deusa recebe com favor, e ela concede-lhe riqueza; pois o poder está seguramente com ela.

Hesíodo, Teogonia 411-425 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

★ Não é «a deusa da bruxaria» — essa é uma leitura muito posterior, de época helenística e romana. Na fonte mais antiga, Hécate é **a deusa a quem se reza primeiro**, em qualquer sacrifício, seja qual for o assunto. Uma espécie de intermediária universal.

A associação com encruzilhadas, cães e magia noturna chega depois — e o site prefere mostrar a camada de baixo, porque é a que quase ninguém conta.