ÁRIES é o carneiro do velo de ouro, e a história dele começa com uma fome fabricada. Ino, segunda mulher de Atamante, convence as mulheres da Beócia a torrar o trigo de semeadura; a terra não produz; o oráculo é subornado para exigir o sacrifício do enteado. E é nesse ponto que o carneiro aparece.

O trigo torrado
Apolodoro conta a trama com uma frieza administrativa, e o detalhe que a torna terrível é técnico: trigo torrado não germina — a fome foi construída na cozinha.
Mas Ino conspirou contra os filhos de Néfele e persuadiu as mulheres a torrar o trigo; e, tendo-o recebido, elas fizeram-no sem o conhecimento dos homens. Mas a terra, semeada com trigo torrado, não deu as suas colheitas anuais.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.9.1 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
O resto é engrenagem: Atamante manda consultar Delfos, Ino compra os mensageiros, e a resposta que volta manda sacrificar Frixo. O pai é «forçado pelos habitantes da terra» a levar o filho ao altar — a fome fabricada vira pressão popular.
O carneiro que voa
O socorro vem da mãe, Néfele — que é uma nuvem —, e vem com um animal recebido de Hermes.
Mas Néfele arrebatou-o, e à filha, e deu-lhes um carneiro de velo de ouro, que recebera de Hermes; e, levados pelo ar pelo carneiro, atravessaram terra e mar.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.9.1 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
No caminho, Hele cai e se afoga — e o estreito onde ela caiu passa a chamar-se Helesponto, «o mar de Hele», que é o Dardanelos de hoje. É a segunda vez, nesta seção do site, que uma travessia sobre um animal batiza uma geografia; a primeira é Touro.
O velo pregado no carvalho
Chegando à Cólquida, Frixo faz aquilo que a história costuma esquecer de contar.
E Frixo sacrificou a Zeus, o deus da Fuga, o carneiro de velo de ouro, e o velo deu-o a Eetes, que o pregou num carvalho num bosque de Ares.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.9.1 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
O salvo mata o salvador e presenteia a pele. É esse velo, pregado numa árvore e guardado por um dragão, que Pélias mandará Jasão buscar uma geração depois — ver Jasao. A constelação, portanto, comemora um animal que foi imolado por quem ele carregou.
O que aconteceu com quem armou a fome
A história costuma parar quando o carneiro decola. Não devia: Apolodoro continua, e o que vem depois é a conta que a casa de Atamante paga pelo trigo torrado.
Mas depois Atamante ficou privado também dos filhos de Ino, pela cólera de Hera; pois enlouqueceu e matou Learco com uma flecha, e Ino atirou-se ao mar com Melicertes.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.9.2 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
Repare no equilíbrio da narrativa: Ino tramou contra os enteados e perde os próprios filhos — um morto pela mão do pai, o outro no mar com ela. O carneiro salvou dois meninos; a vingança levou dois. É a aritmética implacável que a mitologia grega prefere ao castigo declarado.
E é bom notar quem NÃO aparece nessa conta: nenhum deus condena Ino em julgamento. A punição chega pelo enlouquecimento de um homem — «pela cólera de Hera», diz o texto, e mais nada. A causa é divina; a mão é humana.
O velo que Jasão vai buscar
Uma geração depois, o velo pregado no carvalho da Cólquida volta à história pela boca de um homem que faz a pergunta errada. Pélias pergunta a Jasão o que ele faria se soubesse que um cidadão o mataria.
Jasão respondeu, fosse ao acaso, fosse instigado por Hera irada — para que Medeia viesse a ser a maldição de Pélias, que não honrava Hera —: «Eu o mandaria», disse, «buscar o Velo de Ouro.» Mal ouviu isso, Pélias mandou-o partir em busca do velo.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.9.16 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★ O detalhe que quase todo resumo perde: a missão que funda a Argonáutica foi SUGERIDA pela própria vítima. Jasão inventou a própria viagem respondendo a uma pergunta hipotética — e o texto avisa que a resposta pode ter sido soprada por Hera. Ver Jasao.
Do carneiro que salva a criança em Orcômeno até o navio que junta metade dos heróis da Grécia, a corrente é uma só, e o elo é uma pele de animal. A constelação de Áries é o começo dessa corrente.
O que se vê no céu
Áries é uma das constelações mais apagadas do zodíaco: um triângulo pequeno de três estrelas fracas, entre Peixes e Touro. A mais brilhante chama-se **Hamal**, do árabe «o carneiro».
★ O tamanho da figura não corresponde ao tamanho da fama, e vale saber por quê: durante mais de dois mil anos, o **ponto vernal** — a posição do Sol no equinócio da primavera, o marco zero de toda a astronomia antiga — ficou dentro de Áries. Era o começo do ano celeste.
⚠ Hoje já não fica: a precessão dos equinócios arrastou-o para Peixes. **O «primeiro signo do zodíaco» é um cargo que Áries perdeu há dois mil anos** e continua a exercer nos horóscopos.
⚠ **Esta seção não tem citação antiga, e é de propósito.** Uma constelação é duas coisas: uma história e um desenho. A história deste site sai sempre de uma fonte com endereço; o desenho não se cita — vê-se. O que está acima é o que qualquer pessoa confere olhando para cima, numa noite limpa, sem instrumento nenhum.