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Reinos

Os gregos não descreviam o mundo como um mapa, e sim como uma REPARTIÇÃO. Antes de haver lugares havia um sorteio: três irmãos tiraram a sorte, e cada um ficou com um terço do que existe. O que sobrou de fora do sorteio — a terra onde os homens vivem e o pico onde os deuses se reúnem — ficou comum aos três, e é por isso que a Ilíada pode dizer, sem contradição, que Zeus manda no céu e que o Olimpo não é dele sozinho.

O sorteio: três irmãos, três terços

A divisão do cosmos não é contada por um narrador: é dita por Poseidon, com raiva, quando Zeus manda que ele saia do campo de batalha. É a fala de quem se sente tratado como subalterno por um irmão que tirou a sorte melhor — e por isso ela explica o arranjo inteiro em cinco linhas.

Pois somos três irmãos, gerados de Cronos e nascidos de Reia — Zeus, eu, e o terceiro é Hades, senhor dos mortos lá embaixo. Em três partes foi tudo dividido, e a cada um coube o seu domínio. Eu, quando as sortes foram sacudidas, ganhei o mar grisalho para nele morar para sempre; Hades ganhou a treva sombria, e Zeus ganhou o céu largo, no ar e nas nuvens. Mas a terra e o alto Olimpo continuam comuns a todos nós.

Homero, Ilíada 15.184 (trad. Augustus Taber Murray, 1924)

Guardar essa última linha é guardar a chave do resto: o Olimpo NÃO é o reino de Zeus. É o terreno comum, o lugar onde os três podem estar. O reino de Zeus é o céu — o ar e as nuvens —, e o Olimpo é onde os donos dos três terços se encontram. Um site que arruma os deuses por lugar precisa dessa distinção, senão põe Hades como forasteiro na própria casa da família.

O Olimpo: o lugar que o tempo não alcança

A descrição mais famosa do Olimpo não é uma descrição de montanha: é uma lista do que lá NÃO acontece. Homero define o lugar pela ausência de clima — e clima, para um grego, é o nome do que muda.

Assim dizendo, a deusa de olhos brilhantes, Atena, partiu para o Olimpo, onde, dizem, fica a morada dos deuses, que permanece firme para sempre. Nem os ventos a sacodem, nem a chuva a molha, nem cai nela a neve; o ar se estende claro e sem nuvens, e sobre ela paira uma brancura radiante. Ali os deuses bem-aventurados se alegram todos os seus dias.

Homero, Odisseia 6.1 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

«Permanece firme para sempre» traduz um verbo de imobilidade, e é o oposto exato do que a mesma poesia diz da terra: lá embaixo tudo sacode, molha, congela e acaba. O Olimpo é o antônimo geográfico da vida humana — e é por isso que subir até ele, nas histórias, é sempre transgressão.

O Tártaro: a distância, medida a bigorna

O Tártaro não é o reino dos mortos: é a prisão, e fica ABAIXO do reino dos mortos. Zeus a define numa ameaça, e a ameaça traz medida, porta e batente — a arquitetura de um cárcere.

…ou o agarrarei e o lançarei no Tártaro sombrio, muito longe, onde é o abismo mais fundo debaixo da terra, cujos portões são de ferro e o batente de bronze, tão abaixo do Hades quanto o céu está acima da terra. Então sabereis o quanto sou o mais forte de todos os deuses.

Homero, Ilíada 8.1 (trad. Augustus Taber Murray, 1924)

Hesíodo repete a medida e a torna aritmética: uma bigorna de bronze cairia nove dias do céu até a terra, e outros nove da terra até o Tártaro. É a mesma distância duas vezes — o cosmos, aqui, é simétrico em torno do chão onde pisamos.

…tão abaixo da terra quanto o céu está acima dela; pois é essa a distância da terra ao Tártaro. Uma bigorna de bronze caindo do céu por nove noites e nove dias chegaria à terra no décimo; e outra vez, uma bigorna de bronze caindo da terra por nove noites e nove dias…

Hesíodo, Teogonia 720 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

O Elísio: o fim que não é morte

Na Odisseia, o Elísio aparece uma vez só, e não como recompensa por virtude: Menelau irá para lá porque é genro de Zeus. O que a passagem descreve, de novo, é um clima — e é o mesmo clima do Olimpo, escrito com outras palavras.

…mas para a planície do Elísio e os confins da terra os imortais te levarão, onde mora Radamanto, o de cabelos claros, e onde a vida é a mais fácil para os homens. Não há neve ali, nem tempestade pesada, nem jamais chuva; mas o Oceano manda sempre os sopros do Zéfiro de assobio agudo, para dar frescor aos homens.

Homero, Odisseia 4.554 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)

Repare em quem julga: Radamanto, não Hades. O Elísio da Odisseia ainda não é um departamento do submundo — é um lugar deste mundo, «nos confins da terra», beirando o Oceano. A fusão do Elísio com o reino dos mortos, e a ideia de que se chega lá por mérito, é obra de poetas posteriores.

O Oceano: a moldura de tudo

Os quatro lugares acima têm uma borda comum, e ela é um deus: o Oceano, o rio que dá a volta na terra. É por isso que o Zéfiro do Elísio sopra dele, é por isso que o sol nasce e se põe nele, e é por isso que, na Ilíada, quem quiser desfazer a ordem do mundo tem de começar por ali.

…o Oceano, de quem os deuses nasceram, e a mãe Tétis, que com amor me criaram e me nutriram em suas casas, quando me tomaram de Reia, no tempo em que Zeus, cuja voz se ouve ao longe, lançou Cronos para morar debaixo da terra e do mar que não descansa.

Homero, Ilíada 14.193 (trad. Augustus Taber Murray, 1924)

Hera diz isso para enganar Afrodite, mas a mentira precisa ser verossímil — e o que a torna verossímil é a geografia: o Oceano é a fronteira, e ir até ele é ir ao limite do que existe. Repare no que a frase carrega de passagem: o Oceano é anterior à guerra dos deuses, e foi para a casa dele que uma criança do Olimpo foi levada quando o mundo virou. Quem tem o verbete dos Titãs à mão encontra o Oceano lá também, como pessoa; aqui ele entra como lugar, que é a outra metade da mesma coisa.

Os lugares, um a um

Os cinco endereços do cosmos grego: o cume onde os deuses comem, a casa de baixo, o poço debaixo dela, o campo dos bem-aventurados e a ilha vermelha no fim do Oceano.