PEIXES são dois, e estão presos um ao outro por uma fita. O mito que explica a fita é contado por Ovídio nos Fastos: quando Tifão atacou, os deuses fugiram e cada um tomou a forma de um animal. Dione — que aqui é Vênus — atirou-se ao rio com o filho, e os dois viraram peixes. A fita é o que impediu que a correnteza os separasse.

A fuga
Ovídio conta a cena no calendário, ao chegar ao dia em que a constelação aparece. E o começo nomeia o perseguidor.
Dione, fugindo outrora do terrível Tifão…
P. Ovidius Naso, Fasti 2.461 (texto latino)
É a mesma fuga que a mitologia grega conta de outras maneiras: quando Tifão sobe, os deuses do Olimpo se disfarçam de animais e correm para o Egito. Peixes é o único signo do zodíaco que comemora uma derrota temporária dos deuses.
Recebe em seguida, ó Peixe, os cavalos do céu.
P. Ovidius Naso, Fasti 2.458 (texto latino)
«Recebe os cavalos do céu» é o modo de Ovídio dizer que o sol entra naquele signo: os cavalos que puxam o carro solar passam ao Peixe. É calendário e mito na mesma frase — a mesma economia que Hesíodo usa com as Plêiades. Ver As Plêiades.
Por que dois, e por que atados
A figura celeste mostra dois peixes nadando em direções diferentes, unidos por um cordão que os liga pelas caudas. O mito e o desenho se explicam: são mãe e filho, e o cordão existe para que a água não os separe.
É o oposto exato do que acontece em Áries, onde o irmão que cai do carneiro se afoga e dá nome ao estreito. Aqui alguém pensou na corda antes.
A noite em que os deuses fugiram
Os Peixes são a lembrança de uma derrota. Quando Tifão sobe contra o céu, o Olimpo não resiste: o Olimpo corre.
Mas quando os deuses o viram investir contra o céu, fugiram para o Egito e, sendo perseguidos, mudaram as suas formas nas de animais.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.6.3 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★ **Uma frase, e o panteão inteiro perde a compostura.** É a passagem mais desconfortável de Apolodoro, e ele a escreve sem comentário: os doze do Olimpo viram bicho e atravessam o Mediterrâneo. A tradição posterior distribuiu os papéis — Afrodite e Eros viraram peixes e amarraram-se um ao outro por um cordão para não se perderem, e é esse cordão que a constelação desenha entre os dois peixes.
⚠ O nome dos animais de cada deus está em Ovídio e em Higino, e a lista completa não está nas fontes conferíveis deste site. O que está — e é o essencial — é a fuga e a metamorfose.
O tamanho do que os pôs para correr
Para entender a fuga é preciso ver o que vinha atrás. Apolodoro descreve Tifão como um problema de escala antes de ser um problema de força.
Em tamanho e força superava toda a descendência da Terra. Até as coxas era de forma humana e de tal volume prodigioso que ultrapassava todas as montanhas, e a cabeça muitas vezes roçava as estrelas.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.6.3 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
Cem cabeças de dragão nas mãos, víboras da cintura para baixo, fogo saindo pelos olhos e pela boca. Ver Tifeu. Diante disso, virar peixe e nadar para o Egito deixa de ser covardia e vira decisão sensata — que é, provavelmente, o que o mito quer dizer.
★ E há o fecho: quem venceu não foi um exército, foi um raio, depois de um roubo de tendões. Ver Capricórnio, a outra constelação que sobrou da mesma noite.
O que se vê no céu
Peixes é uma constelação grande e apagada: dois cordões de estrelas fracas que se encontram numa estrela chamada **Alrescha**, do árabe «a corda».
★★ **O nome da estrela é a fita.** A história dos dois peixes amarrados por um cordão para não se perderem — ver Peixes — está gravada no nome que os astrónomos árabes deram ao ponto onde os dois cordões se juntam, e que continua em uso.
⚠ **Esta seção não tem citação antiga, e é de propósito.** Uma constelação é duas coisas: uma história e um desenho. A história deste site sai sempre de uma fonte com endereço; o desenho não se cita — vê-se. O que está acima é o que qualquer pessoa confere olhando para cima, numa noite limpa, sem instrumento nenhum.