EUROPA era filha do rei de Tiro, na Fenícia. Zeus tomou a forma de um touro manso, deitou-se na praia entre as vacas do rebanho real, deixou-a coroar-lhe os chifres com flores e, quando ela lhe subiu para o dorso, entrou no mar. Em Creta deu-lhe três filhos: Minos e Radamanto, que passaram a julgar os mortos, e Sarpédon, que morreria em Troia à frente dos Lícios. O pai mandou os irmãos dela procurá-la e proibiu-os de voltar sem ela; nenhum a encontrou, nenhum voltou, e os lugares onde desistiram são hoje a Fenícia, a Cilícia, Tebas e Tasos. O continente tem o nome dela — e Heródoto, que escreveu o livro onde ela aparece primeiro, diz que ninguém sabe se foi por causa dela.
★★★ Júpiter não disse ao filho o que ia fazer com o rebanho
Ovídio começa o episódio pela logística. Antes do touro, antes da praia, há uma ordem dada a um mensageiro que não recebe explicação nenhuma.
«O pai chama-o à parte. E, sem confessar a causa, que era amor, diz: ‹Fiel executor das minhas ordens, filho, larga a demora e desce veloz no teu curso do costume; e aquela terra que olha para a tua mãe do lado esquerdo — os naturais chamam-lhe Sidónia pelo nome — procura-a, e o rebanho real que vês ao longe a pastar na erva da montanha, vira-o para a praia.› Disse, e os novilhos, expulsos há muito do monte, procuram as praias ordenadas, onde a filha do grande rei costumava brincar acompanhada pelas virgens de Tiro.»
Ovídio, Metamorfoses 2.833-845 (texto latino)
★★★ **«Sem confessar a causa, que era amor.»** Ovídio faz questão de registar o que Júpiter não diz. Mercúrio é mandado tocar um rebanho para a praia sem saber para quê, e o pastoreio dele é a primeira peça do rapto.
★ **E a manobra é sobre gado real.** O touro que se vai misturar ao rebanho precisa de um rebanho para onde se misturar, e é o filho de Júpiter quem o leva ao sítio certo à hora certa.
★★★ «Sem saber quem montava»
O livro II das Metamorfoses acaba nesta cena, e acaba a meio dela: o poema corta com a rapariga já dentro de água.
«A filha de Agenor admira-se de que seja tão belo e de que não ameace combate nenhum. Mas, por manso que fosse, teve medo de lhe tocar ao princípio: logo se aproxima e estende-lhe flores à boca branca. O que a ama alegra-se e, enquanto não vem o prazer esperado, dá beijos às mãos dela. Ora brinca e salta na erva verde, ora deita o flanco branco na areia amarela; e, tirado a pouco e pouco o medo, ora oferece o peito para ser batido pela mão virgem, ora os chifres para serem enredados em grinaldas novas. Atreveu-se também a donzela real, sem saber quem montava, a sentar-se no dorso do touro. Então o deus, da terra e da praia seca, põe devagar as falsas pegadas dos pés nas primeiras ondas: dali afasta-se mais, e pelo meio das águas do alto mar leva a presa. Ela treme e olha para trás, para a praia de onde foi levada, e com a mão direita segura um chifre, a outra está pousada no dorso; as vestes trémulas ondulam ao vento.»
Ovídio, Metamorfoses 2.858-875 (texto latino)
★★★ **`Nescia quem premeret` — «sem saber quem montava».** Quatro palavras em que o poema diz que ela não sabe. A cena inteira antes disso é de confiança construída passo a passo: as flores, as mãos, o flanco na areia, os chifres enfeitados.
★★ **E a palavra que Ovídio usa para ela, já no mar, é *praeda* — presa.** A última imagem é a de alguém a olhar para trás, agarrada a um chifre com uma mão e apoiada no dorso com a outra.
A mesma história em prosa, e o touro é «manso»
Apolodoro despacha o rapto em duas linhas, dentro de um capítulo que é sobre a casa de Agenor, e acrescenta a informação que Ovídio deixa de fora: o que aconteceu depois em Creta.
«Agénor foi para a Fenícia, casou com Telefassa e gerou uma filha, Europa, e três filhos, Cadmo, Fénix e Cílix. Mas alguns dizem que Europa era filha não de Agénor, mas de Fénix. Zeus amou-a e, transformando-se num touro manso, montou-a no seu dorso e levou-a pelo mar até Creta. Ali Zeus deitou-se com ela, e ela deu à luz Minos, Sarpédon e Radamanto. Ao desaparecer Europa, o pai dela, Agénor, mandou os filhos à procura dela, dizendo-lhes que não voltassem enquanto não tivessem encontrado Europa.»
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 3.1.1 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★★★ **«Que não voltassem enquanto não tivessem encontrado Europa.»** É a ordem que faz o resto do capítulo. Procuraram, não a acharam, e — no texto de Apolodoro — «desistiram da ideia de voltar a casa e fixaram residência em vários lugares».
★★★ **E os lugares onde desistiram viraram países.** Fénix ficou na Fenícia; Cílix ficou perto dela e chamou Cilícia à terra que passou a governar; Cadmo e a mãe, Telefassa, ficaram na Trácia — e Cadmo fundaria Tebas; Taso fundou a cidade de Tasos, na ilha. **O mapa do Mediterrâneo oriental está desenhado por homens que falharam uma busca.**
⚠ E Apolodoro já regista a dúvida sobre o pai: «alguns dizem que Europa era filha não de Agénor, mas de Fénix» — que, nesta mesma frase, é irmão dela.
★★ Os filhos, e os dois que passaram a julgar os mortos
Em Creta ela casa com o rei local, e os três filhos de Zeus são criados por ele. O que cada um faz da vida está no parágrafo seguinte.
«Ora Astério, príncipe dos Cretenses, casou com Europa e criou-lhe os filhos. Mas quando cresceram, brigaram uns com os outros… Sarpédon aliou-se a Cílix, que estava em guerra com os Lícios, e, tendo estipulado uma parte do país, tornou-se rei da Lícia. E Zeus concedeu-lhe viver três gerações… Radamanto legislou para os ilhéus, mas depois fugiu para a Beócia e casou com Alcmena; e desde que partiu do mundo faz de juiz no Hades ao lado de Minos. Minos, residindo em Creta, deu leis, e casou com Pasífae.»
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 3.1.2 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★★★ **Dois dos três filhos dela julgam os mortos.** Minos e Radamanto são, no Hades, os que sentenciam — e a competência vem, nos dois casos, de terem sido legisladores em vida. O terceiro, Sarpédon, ganha três gerações de vida e um reino.
⚠ **Astério é o padrasto, e não o pai.** É a casa dele que cria os filhos de Zeus, e é o nome dele que reaparece, noutras fontes, ligado ao Minotauro.
Sarpédon é apresentado em Troia como «filho de Europa»
No campo troiano, de noite, alguém procura quem acordar. A forma como o capitão dos Lícios é identificado não usa o nome dele.
«Acordai-os! Mandai um amigo à vossa própria companhia, arreai os cavalos. Quem irá ter com o filho de Panto? Quem com o filho de Europa, capitão do bando lício?»
Eurípides, Reso 29 (trad. Edward P. Coleridge, 1906)
★★ **Na boca de um soldado, a mãe basta como endereço.** O maior aliado de Troia depois de Heitor é chamado pelo nome dela, sem explicação, no meio de uma ordem urgente. O público sabia de quem se falava.
★★★ E há a versão sem deus e sem touro
Heródoto abre as Histórias com a contabilidade das ofensas entre a Ásia e a Grécia, tal como, segundo ele, os Persas a fazem. Europa aparece na segunda entrada da lista.
«Deste modo, dizem os Persas (e não como os Gregos), foi que Io chegou ao Egito, e este, segundo eles, foi o primeiro mal que se fez. A seguir, segundo a história deles, alguns Gregos (não sabem dizer quais) desembarcaram em Tiro, na Fenícia, e levaram a filha do rei, Europa. Estes Gregos devem, suponho eu, ter sido Cretenses. Até aqui, portanto, a conta entre eles estava equilibrada.»
Heródoto, Histórias 1.2.1 (trad. A. D. Godley, 1920)
★★★ **Sem Zeus, sem touro, e com um saldo.** Nesta versão o rapto de Europa é a resposta a um rapto anterior, o de Io, e o próprio Heródoto acrescenta um palpite — «devem ter sido Cretenses» — que explica por que ela acaba em Creta sem nenhum milagre pelo meio.
⚠ **É a versão dos Persas, e Heródoto diz isso.** «Dizem os Persas (e não como os Gregos)» separa a fonte da opinião dele; o «suponho eu» é o que ele acrescenta por conta própria.
O estreito tem o nome da outra
A primeira entrada da lista de Heródoto é Io, levada para o Egito. E é o caminho de Io, em Ésquilo, que dá nome à fronteira entre os dois continentes.
«…o istmo Cimério. Este deves deixar com coração firme e passar pelo canal do Meótis; e para sempre, entre os homens, haverá grande menção da tua passagem, e ele será chamado, por causa de ti, o Bósforo. Depois, deixando o solo da Europa…»
Ésquilo, Prometeu Acorrentado 730 (trad. Herbert Weir Smyth, 1926)
★★ **Duas mulheres, duas travessias, e a geografia ficou com as duas.** O estreito chama-se «passagem da vaca» por causa de Io; o continente, segundo a hipótese que Heródoto discute na seção seguinte, chama-se Europa por causa de Europa. As duas entram na mesma lista de agravos no primeiro capítulo das Histórias.
★★★ Heródoto não sabe de onde vem o nome do continente
No livro IV, ao arrumar o que se sabia dos três continentes, Heródoto chega à Europa e regista uma ignorância em três partes.
«Mas quanto à Europa, homem nenhum tem conhecimento de se ela é limitada por mares ou não, nem de onde lhe veio o nome, nem está claro quem lhe deu o nome, a não ser que digamos que a terra tomou o nome da Europa de Tiro, tendo antes disso sido (parece) sem nome, como as outras.»
Heródoto, Histórias 4.45.4 (trad. A. D. Godley, 1920)
★★★ **Não sabe os limites, não sabe a origem do nome, não sabe quem o deu.** A hipótese de Europa entra como último recurso — «a não ser que digamos» — e vem com um «parece» agarrado. O continente onde hoje vivem centenas de milhões de pessoas é nomeado, na fonte mais antiga que discute o assunto, por eliminação.
⚠ **E Heródoto levanta a objeção óbvia no mesmo passo:** a Europa de Tiro, se existiu, era da Ásia e nunca teria posto os pés no continente que ficou com o nome dela.
Os filhos brigam, e o mapa muda outra vez
A briga entre Minos e Sarpédon, que Apolodoro conta como história de família, aparece em Heródoto como a origem documentada de um povo.
«Ora houve uma disputa em Creta pelo poder real entre Sarpédon e Minos, filhos de Europa; Minos prevaleceu nessa disputa e expulsou Sarpédon e os partidários dele; que, depois de expulsos, foram para a terra Mília, na Ásia. O que hoje é possuído pelos Lícios era no passado Mílio, e os Mílios chamavam-se então Sólimos.»
Heródoto, Histórias 1.173.2 (trad. A. D. Godley, 1920)
★★ **O historiador usa a genealogia como fonte de povoamento.** Os Lícios, para Heródoto, são cretenses exilados — e a razão do exílio é uma disputa entre dois filhos de Europa. O mito serve-lhe de documento.
★★ Um Héracles de bronze pago por quem não a encontrou
Em Olímpia, entre as oferendas, Pausânias encontra uma estátua e explica quem a pagou. A explicação é a busca de Apolodoro, vista do outro lado, séculos depois.
«Os Tásios, que são fenícios por descendência, e que navegaram de Tiro e da Fenícia em geral, juntamente com Taso, o filho de Agénor, à procura de Europa, dedicaram em Olímpia um Héracles, sendo de bronze tanto o pedestal como a imagem.»
Pausânias, Descrição da Grécia 5.25.12 (trad. W.H.S. Jones, 1918)
★★★ **A busca falhada deixou descendentes, e os descendentes deixaram bronze.** Os habitantes de Tasos, no século II d.C., ainda se apresentavam como o povo que veio de Tiro atrás de Europa — e a estátua estava em pé, no maior santuário da Grécia, a contar isso a quem passasse.
★★ O lugar onde Zeus a escondeu ainda tinha nome
Na estrada da Beócia, Pausânias anota um sítio pela história que lhe está colada.
«Nesta estrada há um lugar chamado Teumesso, onde se diz que Europa foi escondida por Zeus. Há também outra lenda, que fala de uma raposa chamada a raposa Teumésia, e de como, por causa da ira de Dioniso, a besta foi criada para destruir os Tebanos.»
Pausânias, Descrição da Grécia 9.19.1 (trad. W.H.S. Jones, 1918)
⚠ **Escondida, e não instalada.** Esta é a única passagem do dossiê em que Zeus a esconde de alguém depois de a levar — e a Beócia fica longe de Creta. Pausânias regista a tradição local e passa à raposa.
★★★ Havia uma Deméter chamada Europa
No bosque do oráculo de Trofónio, em Lebadeia, Pausânias lista os santuários que se veem no caminho para a gruta.
«As coisas mais famosas do bosque são um templo e uma imagem de Trofónio; a imagem, feita por Praxíteles, é à semelhança de Asclépio. Há também um santuário de Deméter apelidada Europa, e um Zeus Chuvoso ao ar livre.»
Pausânias, Descrição da Grécia 9.39.4 (trad. W.H.S. Jones, 1918)
★★★ **«Europa» funcionava como epíteto de uma deusa.** Ao lado de uma imagem de Praxíteles e de um Zeus da chuva, havia em Lebadeia uma Deméter com este sobrenome — o que abre a possibilidade de o nome ter sido, em certos sítios, título divino antes de ser nome de princesa.
⚠ Pausânias não explica o epíteto nem o liga à filha de Agénor. Escreve-o e segue para o Zeus Chuvoso.
⚠ Outras Europas, outros pais, e um poema perdido
O nome não era exclusivo dela, e a paternidade muda de autor para autor. Quatro passagens bastam para desmontar a ideia de uma única Europa.
«…Cerceis de forma amável, e Plutó de olhos suaves, Perseis, Ianira, Acaste, Xante, Petreia a bela, Menesto, e Europa, Métis, e Eurínome, e Telesto vestida de açafrão, Criseis e Ásia e a encantadora Calipso…»
Hesíodo, Teogonia 357 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
⚠ **Esta Europa é uma Oceânide**, filha de Oceano e Tétis, numa lista de mais de quarenta irmãs. Nada tem com Tiro, com Creta ou com o touro.
«Ásio, o filho de Anfiptólemo, um sâmio, diz na sua epopeia que a Fénix nasceram Astipaleia e Europa, cuja mãe era Perimede, a filha de Eneu.»
Pausânias, Descrição da Grécia 7.4.1 (trad. W.H.S. Jones, 1918)
⚠ **Aqui o pai é Fénix e a mãe é Perimede.** Apolodoro registava esta variante como opinião de «alguns»; Pausânias nomeia o poeta que a escreveu e a mãe que ele lhe deu.
«A poetisa Praxila apresenta Carneu como filho de Europa, sendo Apolo e Leto as amas dele.»
Pausânias, Descrição da Grécia 3.13.5 (trad. W.H.S. Jones, 1918)
«O autor do poema sobre Europa diz que Anfíon foi o primeiro harpista, e que Hermes foi mestre dele. Diz também que os cantos de Anfíon arrastavam atrás de si até pedras e feras.»
Pausânias, Descrição da Grécia 9.5.8 (trad. W.H.S. Jones, 1918)
★★ **Existiu um poema inteiro chamado *Europa*, e perdeu-se.** Pausânias cita-o por causa de um detalhe sobre Anfíon, e é assim que sabemos que ele existiu: por uma nota de rodapé de um guia de viagens.
⚠ O que esta página não pode provar
⚠ **Que o continente tem o nome dela.** A fonte mais antiga que discute a questão — Heródoto 4.45 — diz que ninguém sabe de onde veio o nome nem quem o deu, e oferece a hipótese de Europa como último recurso, com um «parece».
⚠ **Quem era o pai.** Apolodoro escreve Agénor e regista logo a variante de Fénix; Pausânias, citando Ásio de Samos, dá Fénix e Perimede. Nenhuma das fontes arbitra.
⚠ **Se houve rapto divino ou razia humana.** Ovídio conta o touro; Heródoto conta uma incursão grega em Tiro, provavelmente cretense, dentro de uma troca de ofensas. As duas versões estão no corpus e esta página não escolhe.
⚠ **Quantas Europas há.** A Oceânide de Hesíodo, a Deméter de Lebadeia e a mãe de Carneu em Praxila são, nos textos, coisas diferentes da filha do rei de Tiro — e nenhum autor antigo tenta juntá-las.
⚠ **O poema *Europa* não existe.** Tudo o que resta dele é a linha em que Pausânias o cita a propósito de Anfíon.