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Palas (o titã)

PALAS era um titã da segunda geração — filho de Crio e de Euríbia, e portanto neto de Urano e Gaia. Tem pouquíssimo mito próprio, e mesmo assim ocupa um lugar decisivo na Teogonia: dele e do Estige nascem Zelo, Nice, Cratos e Bia — Rivalidade, Vitória, Poder e Violência —, os quatro que Zeus manteve ao lado do trono depois da guerra contra os titãs. O pai é obscuro; os filhos são o que sustenta o regime.

⚠ Três Palas, e só um é este

O nome colide três vezes na mitologia grega, e vale separar antes de qualquer coisa. **Palas Atena** é a deusa olímpica, e o epíteto dela tem outra origem — as fontes antigas o explicam de vários modos, nenhum ligado a este titã. **Palas, a ninfa líbia**, é outra figura, companheira de infância de Atena. E **Palas, o titã**, é este: pai das quatro personificações que guardam o trono.

Há ainda um quarto, um gigante Palas morto na Gigantomaquia. Este acervo os trata separadamente porque as fontes antigas os tratam separadamente — juntá-los numa biografia só seria inventar uma pessoa que nenhum grego conheceu.

Filho de Crio

Hesíodo o nomeia numa lista de três irmãos, e os outros dois também terão descendência importante: Astreu será o pai dos ventos e das estrelas, e Perses, o pai de Hécate.

E Euríbia, deusa resplandecente, uniu-se em amor a Crio e deu à luz o grande Astreu, e Palas, e Perses, que também se distinguiu entre todos os homens pela sabedoria.

Hesíodo, Teogonia 375 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

Os três irmãos repartem entre si o céu noturno, a guerra e a magia — e nenhum deles tem uma única narrativa própria. São nós de genealogia: existem para que os filhos deles tenham de onde vir.

Os quatro filhos que guardam o trono

O casamento de Palas com o Estige é o episódio que dá importância a ele, e Hesíodo o conta junto com as consequências políticas.

E o Estige, filha do Oceano, uniu-se a Palas e deu à luz Zelo (Emulação) e Nice (Vitória) de belos tornozelos na casa dela, e gerou também Cratos (Força) e Bia (Violência), filhos admiráveis.

Hesíodo, Teogonia 383 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

O que vem em seguida é a razão de tudo. Quando Zeus convoca os deuses para a guerra contra os titãs, o Estige é a primeira a chegar, levando os quatro filhos — e Zeus a recompensa fazendo dela o juramento supremo dos deuses e mantendo os quatro permanentemente ao lado dele.

Estes não têm casa longe de Zeus, nem morada nem caminho a não ser aquele por onde o deus os conduz; mas habitam para sempre com Zeus que troveja alto.

Hesíodo, Teogonia 386 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

É uma das declarações políticas mais explícitas da poesia grega arcaica. Emulação, Vitória, Força e Violência não são qualidades que Zeus tem: são divindades que moram com ele e não saem de perto. O poder olímpico é retratado como uma casa em que essas quatro coisas dormem.

⚠ Este Palas não é Atena

Antes de tudo, a desambiguação — porque este é um dos nomes mais sobrecarregados da mitologia grega.

**Palas, o titã**, é filho de Crio e Euríbia, marido da Estige, pai da Vitória. **Palas Atena** é a olímpica, e o «Palas» dela é epíteto, não parentesco. Há ainda um gigante Palas e um filho de Pandíon com o mesmo nome. Ver Atena.

…a Crio e a Euríbia, filha do Mar (Ponto), nasceram Astreu, Palas e Perses.

Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.2.2 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

★ O pai é Krios; a mãe é filha de Ponto, não de Urano — sangue de mar entrando na família titânica.

O casamento que decidiu a guerra

Palas casa com a Estige, e é desse casamento que sai o time que ganhará a Titanomaquia — para o lado errado da família.

E Estige, a filha do Oceano, uniu-se a Palas e gerou Zelo (Emulação) e a bela Nice (Vitória) na sua casa. E deu à luz também Cratos (Poder) e Bia (Força), filhos maravilhosos.

Hesíodo, Teogonia 383-388 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

★★ **Poder, Força, Vitória e Emulação são filhos de um titã.** E na guerra eles lutam ao lado de Zeus — porque a mãe deles os levou para lá primeiro, e Zeus recompensou-a fazendo dela o juramento dos deuses.

Ver Estige. É a jogada política mais fria da Teogonia: uma deusa muda de lado antes de a guerra começar, leva os quatro filhos, e sai com o cargo de fiscal eterno dos deuses. **Palas fica sem nada** — nem os filhos, nem uma linha de combate.

O titã de quem só se sabe com quem casou

Junte-se o que há: um pai, uma mãe, uma mulher, quatro filhos. Nenhum ato.

⚠ E é assim mesmo. A tradição posterior tentou tapar o buraco — fez dele um titã da guerra, pelo nome (*pallo*, «brandir»), ou o pai da Lua numa versão órfica. **Nada disso está nas fontes conferíveis**, e este verbete prefere dizê-lo a repeti-lo.

★ O que a lacuna ensina é real: a Teogonia não é um catálogo de deuses com atribuições, é uma **árvore genealógica com enredo**. Quem não entra no enredo fica sendo só um nó — e Palas é o nó mais nu de todos.