A LIRA é o único objeto do céu grego cuja fabricação está descrita em detalhe. O Hino Homérico a Hermes conta a manhã em que um deus de poucas horas de vida encontrou uma tartaruga à porta de casa, riu, e transformou o animal num instrumento — e o hino não poupa um passo do processo.

A tartaruga à porta
O recém-nascido sai do berço para roubar bois e, antes de chegar ao gado, tropeça noutra coisa.
Assim que saltou do ventre celeste da mãe, não ficou muito tempo à espera no berço sagrado, mas levantou-se e foi procurar os bois de Apolo. Mas, ao passar a soleira da caverna de teto alto, encontrou ali uma tartaruga e ganhou um deleite sem fim. Pois foi Hermes quem primeiro fez da tartaruga uma cantora.
Hino Homérico 4, a Hermes 24-30 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
★ **«Foi Hermes quem primeiro fez da tartaruga uma cantora»** — e o hino diz isso antes de contar como, para que o leitor saiba desde já que está a assistir a uma invenção. Ver Hermes.
A saudação que ele faz ao animal é de uma crueldade risonha: *«Salve, companheira do banquete, bela de forma, que ressoas na dança! (…) Mas vou levar-te para dentro»*. **Ele chama-lhe companheira de festa e leva-a para dentro para a matar.**
A montagem, peça por peça
O que vem a seguir é a única descrição técnica de manufatura em toda a poesia homérica, e vale lê-la como o que é: uma planta de construção.
Então cortou-lhe os membros e raspou a medula da tartaruga de montanha com uma colher de ferro cinzento. (…) Cortou hastes de cana à medida e fixou-as, prendendo as pontas atravessadas nas costas e através da carapaça da tartaruga, e depois esticou pele de boi por cima de tudo, com a sua perícia. Pôs também os braços e ajustou uma travessa sobre os dois, e esticou sete cordas de tripa de ovelha.
Hino Homérico 4, a Hermes 40-51 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
★★ Carapaça, canas, couro de boi, dois braços, uma travessa, **sete cordas de tripa**. Está tudo lá, e um luthier moderno consegue seguir a receita. E o hino acrescenta o detalhe que só quem já afinou um instrumento escreveria: *«provou cada corda por sua vez com a chave»*.
A comparação que o poeta usa para a velocidade do pensamento dele é uma das melhores de todo o corpus: *«Como um pensamento rápido atravessa o coração de um homem quando o assediam preocupações, ou como olhares brilhantes saltam do olho»*.
De Hermes a Apolo, e de Apolo a Orfeu
O instrumento troca de dono no mesmo dia em que nasce: Hermes dá-o a Apolo para pagar os bois roubados, e é dessa troca que Apolo fica sendo o deus da lira. Ver Apolo.
Da mão de Apolo ele chega, na tradição, a Orfeu — e é aí que o objeto ganha a única propriedade que interessa a esta página: **movia pedras e árvores**.
Ora, Calíope gerou de Éagro — ou, nominalmente, de Apolo — um filho, Lino, que Héracles matou; e outro filho, Orfeu, que praticava o canto e pelas suas canções movia pedras e árvores.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.3.2 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★ Depois de Orfeu ser despedaçado pelas Mênades, a tradição diz que a lira foi posta no céu. Ver Orfeu. ⚠ Essa última ligação vem de Higino e do Pseudo-Eratóstenes, que não estão no acervo conferível deste site — o que se pode citar é a cadeia de donos.
O que se vê no céu
A Lira é pequena e tem a quinta estrela mais brilhante do céu: **Vega**, do árabe «a águia que mergulha». É azul, é altíssima no céu de verão do hemisfério norte, e forma com Deneb e Altair o chamado Triângulo de Verão.
★ E há um detalhe de longo prazo: por causa da precessão, **Vega já foi a estrela polar do norte, há cerca de catorze mil anos, e voltará a sê-lo daqui a doze mil.** A lira de Orfeu já apontou o norte e vai apontar de novo. Ver Orfeu.
⚠ **Esta seção não tem citação antiga, e é de propósito.** Uma constelação é duas coisas: uma história e um desenho. A história deste site sai sempre de uma fonte com endereço; o desenho não se cita — vê-se. O que está acima é o que qualquer pessoa confere olhando para cima, numa noite limpa, sem instrumento nenhum.