AGAMÊMNON é o homem que tem o poder e não tem a razão. A Ilíada abre com um erro dele; a expedição só parte porque ele mata a filha; e o regresso, que devia ser o triunfo, acaba num banquete armado. Ele conta a própria morte a Ulisses, no Hades, e a imagem que escolhe é de matadouro.
O erro que abre a Ilíada
A primeira coisa que Agamêmnon faz no poema é recusar o resgate de uma menina ao pai dela, que é sacerdote de Apolo. O resultado é uma peste no acampamento.
Canta, deusa, a ira do filho de Peleu, Aquiles (…) Quem dos deuses foi então que os fez enfrentar-se? O filho de Leto e de Zeus; pois ele, irado contra o rei, levantou pelo exército uma peste maligna, e o povo começou a morrer, porque o filho de Atreu desonrara o sacerdote Crises.
Homero, Ilíada 1.1 (trad. Augustus Taber Murray, 1924)
★ **A guerra de Aquiles contra Agamêmnon começa com um pai humilhado.** Ver Apolo e Aquiles. E o remédio é devolver a menina — o que obriga Agamêmnon a compensar-se tomando a de Aquiles, e é aí que a Ilíada arranca.
★ O vento comprado com a filha
Antes disso, em Áulide, a frota não sai. Apolodoro dá o motivo, e ele é uma frase dita em voz alta.
Mas, quando fizeram-se ao mar de Argos e chegaram pela segunda vez a Áulide, a frota ficou presa pelo vento, e Calcas disse que não poderiam navegar a não ser que a mais bela das filhas de Agamêmnon fosse oferecida em sacrifício a Ártemis; pois a deusa estava irada com Agamêmnon, tanto porque, ao abater um veado, ele dissera «nem a própria Ártemis conseguiria (fazer melhor)», como porque Atreu não lhe sacrificara o cordeiro de ouro.
Pseudo-Apolodoro, Epítome 3.21 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★★★ **A guerra de Troia atrasa-se por causa de uma frase de caçador.** É a mesma mecânica de Níobe, de Cassiopeia e de Aracne: alguém compara-se a um deus e a conta chega. Ver Nêmesis e Artemis.
Ver Ifigênia, que é quem paga. ⚠ E note-se a segunda razão, herdada: **«porque Atreu não lhe sacrificara o cordeiro de ouro»** — a dívida do pai cobrada no neto.
★★ A morte, contada por ele próprio
Ulisses encontra-o no mundo dos mortos e pergunta como morreu. A resposta é a coisa mais amarga da Odisseia.
«Filho de Laertes, criado por Zeus, Ulisses de muitos recursos: nem Poseidon me feriu a bordo dos navios, levantando uma rajada furiosa de ventos cruéis, nem inimigos me fizeram mal em terra — mas Egisto tramou-me a morte e o destino, e matou-me com a ajuda da minha mulher maldita, depois de me ter chamado à casa dele e me ter feito um banquete: **como se mata um boi na manjedoura**.»
Homero, Odisseia 11.405 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)
★★★ **«Como se mata um boi na manjedoura.»** O comandante de mil navios escolhe, para a própria morte, a imagem do animal abatido enquanto come.
E acrescenta o resto: os companheiros mortos em volta «como porcos de presas brancas» num banquete de casamento. ⚠ **A cena que ele descreve é uma refeição** — e é a inversão exata da hospitalidade grega, que é a instituição mais sagrada da épica. Ver Submundo.