HERÓI, para um grego, não é quem faz o bem: é quem está no meio. Hesíodo põe os heróis como a QUARTA das cinco raças de homens — depois da de ouro, da de prata e da de bronze, antes da nossa, a de ferro — e os chama de semideuses. A definição é de sangue e de época, não de conduta. Foi por isso que a mesma palavra pôde caber em Héracles, que matou a própria família, e em Atalanta, que venceu homens na corrida: os dois estão do mesmo lado da fronteira entre o divino e o humano.
A quarta raça
A passagem que define a palavra está nos Trabalhos e Dias, no meio do mito das raças. Zeus faz uma quarta geração, e é a única das cinco que recebe um elogio — e um nome próprio.
…a negra Morte os tomou, e deixaram a luz brilhante do sol. Mas quando a terra cobriu também essa geração, Zeus, filho de Cronos, fez ainda outra, a quarta, sobre a terra fecunda — mais nobre e mais justa, uma raça divina de homens-heróis, que são chamados…
Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias 155 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
…semideuses, a raça anterior à nossa, por toda a terra sem limites. A guerra cruel e a batalha terrível destruíram parte deles: uns na terra de Cadmo, em Tebas das sete portas, quando lutaram pelos rebanhos de Édipo; outros, quando os navios os levaram pelo grande golfo do mar…
Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias 160 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
Duas guerras, e só duas: Tebas e Troia. Para Hesíodo, a idade dos heróis não é um período longo de aventuras — é uma geração que nasce, luta em dois lugares e acaba. E o que vem depois dela é a nossa raça, a de ferro, que ele descreve sem nenhuma simpatia.
O que um herói faz
As histórias que este site guarda repetem, com nomes diferentes, quatro ou cinco formas de façanha — e vale conhecê-las, porque elas explicam por que os heróis se parecem tanto uns com os outros.
A primeira é MATAR O MONSTRO, e ela quase nunca é limpa: Perseu vence a Górgona com equipamento emprestado e um olho roubado; Belerofonte só vence a Quimera porque Atena lhe dá o freio de ouro que doma Pégaso. O herói grego raramente ganha por força — ganha por vantagem.
A segunda é CUMPRIR A TAREFA IMPOSTA. Héracles serve doze anos a um rei menor do que ele; Perseu vai buscar a cabeça da Górgona porque se gabou numa festa. Quem manda no herói costuma ser um homem medíocre, e a desproporção é o ponto.
A terceira é A CAÇADA COLETIVA, e é onde entram os que não têm façanha própria: o javali de Cálidon reúne dezenas de nomes, e é ali que Atalanta fere primeiro o animal e recebe o couro.
E a quarta é FRACASSAR NO FIM. Belerofonte tenta subir ao Olimpo e cai; Perseu mata o avô com um disco; Héracles morre com a túnica que a mulher lhe manda por amor. A tragédia não é um acidente do enredo: é o que separa o semideus do deus.
Onde eles vão parar
O mesmo mito das raças diz o destino da geração: parte morre nas duas guerras, e ao resto Zeus dá casa noutro lugar — fora do mundo dos homens e fora do reino dos mortos.
E vivem sem tocar a tristeza nas ilhas dos bem-aventurados, à beira do Oceano de fundos remoinhos — heróis felizes para quem…
Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias 170 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
É a mesma geografia do Elísio da Odisseia, e a coincidência não é acidente: para a poesia arcaica, a saída dos heróis é sempre lateral. Eles não sobem ao Olimpo nem descem ao Hades — vão para a borda do mapa.