PERSÉFONE era a filha de Zeus e de Deméter, e a rainha dos mortos. Nenhuma outra divindade grega tem uma biografia partida em duas desse jeito: antes do rapto ela é a moça que colhe flores, chamada simplesmente Coré, «a filha»; depois dele é a soberana temível que executa, ao lado do marido, as maldições que os vivos lançam sobre os mortos. O que liga as duas metades é um acordo — ela passa parte do ano embaixo e parte em cima —, e é desse acordo que os gregos fizeram a explicação do inverno e da primavera.
A filha de Deméter
Hesíodo registra o nascimento e o rapto na mesma linha, e a economia é reveladora: para a Teogonia, Perséfone é desde o começo aquela que foi levada. E há um detalhe que a poesia posterior tratará como escândalo e que aqui aparece sem comentário — quem a entregou foi o próprio pai.
Veio também ao leito de Deméter, que tudo nutre, e ela deu à luz Perséfone de alvos braços, a quem Aidoneu arrebatou de sua mãe; mas foi o prudente Zeus quem a deu a ele.
Hesíodo, Teogonia 912 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
O Hino Homérico a Deméter — o poema que a Antiguidade dedicou a esta história — abre pela mesma dobra, anunciando as duas de uma vez: a mãe e a filha, e o verbo que separa uma da outra.
Começo a cantar Deméter de belos cabelos, deusa terrível — a ela e à sua filha de tornozelos delicados, que Aidoneu arrebatou, dada a ele por Zeus que tudo vê e troveja alto.
Hino Homérico 2, a Deméter 1 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
Nem toda fonte antiga lhe dá a mesma mãe. Ao arrolar os filhos de Zeus, Apolodoro põe Perséfone entre os que ele teve de Estige, a água pela qual os deuses juram — e não entre os de Deméter, que a mesma Biblioteca conta duas páginas adiante. A divergência nunca foi resolvida, e os dois relatos convivem no mesmo autor.
Zeus desposou Hera e gerou Hebe, Ilítia e Ares; mas teve comércio com muitas mulheres, mortais e imortais. De Têmis, filha do Céu, teve as Estações — a Paz, a Ordem e a Justiça — e também as Moiras: Cloto, Láquesis e Átropos; de Dione teve Afrodite; de Eurínome, filha do Oceano, teve as Graças; de Estige teve Perséfone; e de Memória, as Musas.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.3.1 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
O nome de uso corrente não era Perséfone: era Coré, «a Donzela» — a palavra grega para a moça em idade de casar. Pausânias, que percorreu a Grécia anotando o que se dizia em cada santuário, é quem separa as duas coisas com todas as letras, e o faz para explicar por que na Arcádia se usava outro nome ainda.
A esta Senhora os arcádios veneram mais do que a qualquer outro deus, e dizem que ela é filha de Posídon e de Deméter. «Senhora» é o sobrenome dela entre a maioria, do mesmo modo que chamam «a Donzela» à filha que Deméter teve de Zeus. Mas, enquanto o nome verdadeiro da Donzela é Perséfone, como dizem Homero e, antes dele, Panfos nos seus poemas, o nome verdadeiro da Senhora eu receio escrever para os não iniciados.
Pausânias, Descrição da Grécia 8.37.9 (trad. W.H.S. Jones, 1918)
O nome que assustava
O nome dela chegou até nós em quase uma dúzia de formas — Perséfone, Persefássa, Fersefata, Ferréfata —, e a variedade não é acidente de cópia. Platão, no Crátilo, põe Sócrates a explicar por que tantos gregos tinham medo justamente daquele nome, e a resposta que ele dá é uma correção de etimologia: para Sócrates, o nome não fala de morte, e sim de inteligência.
E Ferréfata! Quanta gente teme este nome, e também o de Apolo. Imagino que seja porque não sabem da correção dos nomes. Repara que mudam o nome para Fersefone, e o aspecto dele os assusta. Mas na verdade o nome indica que a deusa é sábia; pois, estando as coisas em movimento, aquilo que as agarra, as toca e é capaz de segui-las é a sabedoria. Ferépafa, ou coisa parecida, seria portanto o nome correto da deusa, porque ela é sábia e toca o que está em movimento — e é por isso que Hades, que é sábio, vive com ela, porque ela é sábia. Mas as pessoas alteraram-lhe o nome, dando mais importância ao som do que à verdade, e chamam-lhe Ferréfata.
Platão, Crátilo 404 (trad. Harold North Fowler, 1926)
O medo tinha de onde vir. Antes de qualquer poema contar como ela foi parar embaixo da terra, Homero já a nomeia com um adjetivo fixo, que a acompanha em toda aparição: temível. Circe usa a fórmula ao mandar Ulisses ao país dos mortos, e ela vale como endereço — a casa é dos dois.
Filho de Laertes, criado por Zeus, Ulisses de muitos ardis: não permaneceis mais na minha casa contra a vossa vontade. Antes tereis de cumprir outra viagem, e chegar à casa de Hades e da temível Perséfone, para consultardes a alma de Tirésias de Tebas, o adivinho cego, cujo entendimento se mantém firme. A ele, ainda morto, Perséfone concedeu a razão, para que só ele tivesse discernimento; os outros vagueiam como sombras.
Homero, Odisseia 10.491 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)
Nesse mesmo trecho está a primeira coisa que a poesia grega diz que ela FAZ, e não é o rapto: é uma concessão. Entre todos os mortos, um continua a pensar — e continua porque ela deixou.
A campina, e a flor que era armadilha
No Hino Homérico, o rapto é uma emboscada montada com antecedência, e a isca é uma flor. O narciso que a atrai não nasceu ali por acaso: a Terra fê-lo crescer a mando de Zeus, para agradar ao Senhor dos Muitos. O poema diz para que ele serve antes de dizer o que acontece.
Longe de Deméter, senhora da espada de ouro e dos frutos gloriosos, ela brincava com as filhas de fundo seio do Oceano e colhia flores por um prado macio — rosas, açafrões e belas violetas, íris também, e jacintos, e o narciso, que a Terra fez crescer por vontade de Zeus e para agradar ao Hospedeiro de Muitos, para ser armadilha à moça em flor: uma flor prodigiosa e radiante. Era coisa de espanto tanto para os deuses imortais como para os homens mortais: da raiz dela brotavam cem corolas, e o cheiro era tão doce que todo o vasto céu por cima, e a terra inteira, e a onda salgada do mar riram de alegria.
Hino Homérico 2, a Deméter 5 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
Roma mudou o lugar. Nas Metamorfoses, Ovídio põe a cena junto a Ena, no coração da Sicília, à beira do lago Pergo — e trata o rapto com uma velocidade que o hino grego não tem: ver, desejar e levar acontecem quase na mesma linha.
Não longe das muralhas de Ena há um lago de água funda, de nome Pergo. Nem o Caístro ouve, nas suas ondas correntes, mais cantos de cisne do que aquele. Um bosque coroa as águas, cingindo-lhes toda a margem, e com a sua folhagem afasta, como um véu, os golpes de Febo. Os ramos dão frescura, o chão úmido dá flores de púrpura: ali é primavera perpétua. Enquanto Prosérpina brinca nesse bosque e colhe ora violetas, ora lírios brancos, e enquanto com afã de menina enche os cestinhos e o regaço e compete com as companheiras a ver quem colhe mais, quase no mesmo instante foi vista, foi amada e foi arrebatada por Dite.
Ovídio, Metamorfoses 5.391-395 (texto latino)
A Itália do sul guardava a mesma história com outro endereço, e Estrabão registra a consequência prática dela: em Hipônio, no país dos brúcios, as mulheres tinham por costume tecer as próprias grinaldas, e comprar uma feita era vergonha em dia de festa. O motivo alegado era que Coré ia colher flores justamente ali.
Depois de Consêncio vem Hipônio, que foi fundada pelos lócrios. Mais tarde os brúcios tomaram Hipônio, mas os romanos tiraram-lha e mudaram-lhe o nome para Vibo Valência. E porque a região em volta de Hipônio tem prados exuberantes e cheios de flores, acreditou-se que Coré vinha até ali, desde a Sicília, para colher flores; por causa disso ficou costume entre as mulheres de Hipônio colher flores e tecê-las em grinaldas, de modo que nos dias de festa é vergonhoso usar grinalda comprada.
Estrabão, Geografia 6.1.5 (trad. Horace Leonard Jones, 1924)
O rapto na planície de Nisa
Perséfone estende as duas mãos para colher o narciso, e é nesse gesto que a terra se abre. O hino não descreve uma descida: descreve um assalto a céu aberto, com carro e cavalos, no meio de um prado.
E a moça se maravilhou e estendeu as duas mãos para tomar o belo brinquedo; mas a terra de largos caminhos se escancarou ali, na planície de Nisa, e o senhor, o Hospedeiro de Muitos, saltou sobre ela com os seus cavalos imortais — o filho de Crono, aquele que tem muitos nomes. Colheu-a à força no seu carro de ouro e levou-a.
Hino Homérico 2, a Deméter 15 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
Segue-se o grito, e é o grito que organiza o resto do poema. Ela chama pelo pai, e o pai não ouve — está sentado à parte, no seu templo, recebendo oferendas. Duas testemunhas ouvem, e é por elas que a mãe virá a saber.
Então ela gritou agudamente com a sua voz, chamando pelo pai, o filho de Crono, o mais alto e o mais excelente. Mas ninguém, nem dos deuses imortais nem dos homens mortais, ouviu a voz dela, nem tampouco as oliveiras carregadas de fruto: só a compassiva Hécate de brilhante toucado, filha de Perses, ouviu a moça da sua caverna, e o senhor Hélio, filho luminoso de Hipérion, enquanto ela chamava pelo pai, o filho de Crono.
Hino Homérico 2, a Deméter 25 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
Apolodoro resume em prosa o que vem depois, e o que a versão dele guarda é a busca: Deméter procurando a filha pela terra inteira, com tochas, de noite e de dia. É dessa busca que nasce tudo o que Elêusis celebrava.
Plutão se apaixonou por Perséfone e, com a ajuda de Zeus, arrebatou-a em segredo. Mas Deméter saiu a procurá-la pela terra inteira, com tochas, de noite e de dia, e, sabendo pelos habitantes de Hermíone que Plutão a havia levado, irou-se contra os deuses, deixou o céu e veio a Elêusis em figura de mulher.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.5.1 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
As duas testemunhas, e o pai que consentiu
Hécate levou Deméter ao único que vê tudo. O interrogatório do Sol é a cena mais crua do hino, e a pergunta é feita com a precisão de quem já sabe que a resposta vai doer.
Hélio, tem ao menos consideração por mim, deusa que sou, se alguma vez com palavra ou obra alegrei o teu coração e o teu ânimo. Pelo ar estéril ouvi o grito lancinante da filha que gerei, rebento doce do meu corpo e formosa de ver, como de quem é tomada à força; embora com os meus olhos eu nada tenha visto. Mas tu — que com os teus raios olhas do alto ar luminoso para toda a terra e todo o mar —, dize-me a verdade sobre a minha querida filha, se a viste em alguma parte: que deus ou que homem mortal a agarrou à força, contra a vontade dela e a minha, e a levou.
Hino Homérico 2, a Deméter 70 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
A resposta desfaz de uma vez o que a mãe procurava culpar. Não houve rapto às escondidas dos deuses: houve entrega, e o autor da entrega tem nome.
Rainha Deméter, filha de Reia de belos cabelos, dir-te-ei a verdade, pois muito te reverencio e me apiedo de ti no teu luto pela filha de tornozelos delicados. Nenhum outro dos deuses imortais tem culpa, senão Zeus que junta as nuvens, que a deu a Hades, irmão do pai dela, para ser chamada sua esposa florescente. E Hades agarrou-a e levou-a, aos gritos, no seu carro, para o reino de névoa e escuridão.
Hino Homérico 2, a Deméter 75 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
E o Sol acrescenta um consolo que hoje soa pior do que o crime, mas que no poema é argumento de família: o marido é irmão do pai, é de igual estirpe, e o terço do mundo que lhe coube na partilha não é castigo — é quinhão.
Contudo, deusa, cessa o teu grande lamento e não guardes ira vã e inflexível: Aidoneu, o Senhor dos Muitos, não é marido indigno da tua filha entre os deuses imortais, sendo ele teu próprio irmão e nascido da mesma estirpe; e quanto à honra, tem aquele terço que recebeu quando a partilha foi feita no princípio, e foi posto por senhor daqueles entre os quais habita.
Hino Homérico 2, a Deméter 83 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
As tochas, e o ano em que nada nasceu
Antes de saber, Deméter procurou nove dias sem comer nem beber, e as tochas que ela leva nas mãos passaram para dentro do culto: os iniciados de Elêusis desciam com fogo na mão porque a deusa desceu assim.
Dor amarga tomou-lhe o coração, e ela rasgou com as próprias mãos a touca sobre o cabelo divino; o manto escuro atirou-o dos dois ombros e lançou-se, como ave selvagem, por sobre a terra firme e o mar que cede, à procura da filha. Mas ninguém lhe queria dizer a verdade, nem deus nem homem mortal; e das aves de agouro nenhuma lhe veio com notícia certa. Então, por nove dias, a rainha Deo vagou pela terra com tochas acesas nas mãos, tão sofrida que não provou ambrosia nem o doce néctar, nem borrifou o corpo com água.
Hino Homérico 2, a Deméter 47 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
Sabida a verdade, a resposta dela não foi ir buscar a filha: foi parar o mundo. O hino descreve uma greve agrícola, e descreve-a pelo detalhe do trabalho perdido — o arado que abre o sulco à toa, a cevada branca lançada em terra que não devolve nada.
Mas Deméter de cabelos de ouro sentou-se ali, apartada de todos os deuses bem-aventurados, e ficou, consumindo-se de saudade da filha de fundo seio. Então causou aos homens um ano dos mais terríveis e cruéis sobre a terra que a todos nutre: o chão não deixava a semente brotar, porque Deméter de rica coroa a mantinha escondida. Nos campos os bois puxaram em vão muito arado recurvo, e muita cevada branca foi lançada à terra sem proveito.
Hino Homérico 2, a Deméter 305 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
É aqui que Zeus cede, e o motivo pelo qual cede está dito sem rodeios: não é a dor da mãe, é a conta dos deuses. Homem morto não faz sacrifício, e o Olimpo vivia dos sacrifícios.
Assim ela teria destruído com fome cruel toda a raça dos homens, e teria roubado aos que habitam o Olimpo o glorioso direito às oferendas e aos sacrifícios, se Zeus não tivesse percebido e marcado isso no seu coração. Primeiro mandou Íris de asas douradas chamar Deméter de belos cabelos, formosa de ver.
Hino Homérico 2, a Deméter 310 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
Onde a terra se abriu
A planície de Nisa do hino nunca foi localizada com segurança, e cada região da Grécia apresentava a sua boca. Pausânias, que viajava anotando o que lhe contavam sem escolher entre as versões, registra pelo menos duas — e nas duas o que se mostra ao visitante é um acidente do terreno, não um monumento.
Em Elêusis corre um Cefiso mais violento do que o Cefiso que mencionei acima, e ao lado dele fica o lugar a que chamam Erineu, dizendo que foi ali que Plutão desceu ao mundo de baixo depois de arrebatar a Donzela. Perto deste Cefiso, Teseu matou um salteador chamado Polipêmon, de sobrenome Procrusto.
Pausânias, Descrição da Grécia 1.38.5 (trad. W.H.S. Jones, 1918)
Ao voltares à estrada direita, atravessarás o Erásino e chegarás ao rio Quimarro. Perto dele há um recinto de pedras, e dizem que foi por ali que Plutão, depois de arrebatar, segundo a história, Coré, a filha de Deméter, desceu ao seu fabuloso reino subterrâneo. Lerna, como já disse, fica junto ao mar, e ali celebram mistérios em honra de Deméter Lerneia.
Pausânias, Descrição da Grécia 2.36.7 (trad. W.H.S. Jones, 1918)
A semente de granada
Zeus manda Hermes buscá-la, e a ordem que ele leva é de restituição pura e simples. Nada no recado prevê condição, prazo ou repartição.
E quando Zeus que tudo vê e troveja alto ouviu isto, enviou ao Érebo o Matador de Argos, cuja vara é de ouro, para que, tendo persuadido Hades com palavras brandas, conduzisse a casta Perséfone à luz, para fora da névoa escura, e a levasse para junto dos deuses, e a mãe a visse com os próprios olhos e cessasse da sua ira.
Hino Homérico 2, a Deméter 335 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
Hades obedece — e o hino guarda para essa obediência um único verbo, «sorriu sombriamente». Ele deixa a esposa partir na frente de todos, e desfaz o acordo pelas costas, com um gesto que não custa nada e vale para sempre: comer no mundo dos mortos é pertencer a ele.
Quando ele disse isto, a prudente Perséfone encheu-se de alegria e levantou-se num salto, de contente. Mas ele, pela sua parte, deu-lhe às escondidas a comer uma doce semente de romã, cuidando de si próprio para que ela não ficasse continuamente com a grave Deméter de manto escuro.
Hino Homérico 2, a Deméter 371 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
O reencontro dura poucos versos antes de a mãe desconfiar. A pergunta que Deméter faz é técnica, e traz dentro dela a regra inteira do mundo de baixo, com as duas saídas possíveis já enunciadas.
Minha filha, dize-me: por certo não provaste alimento nenhum enquanto estiveste lá em baixo? Fala claro e nada escondas, e saibamos as duas. Porque, se não provaste, voltarás do odioso Hades e viverás comigo e com teu pai, o filho de Crono das nuvens escuras, e serás honrada por todos os deuses imortais; mas, se provaste alimento, terás de descer outra vez para os lugares secretos da terra, e ali morar a terça parte das estações de cada ano.
Hino Homérico 2, a Deméter 393 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
A resposta é a passagem em que Perséfone fala — uma das pouquíssimas de toda a poesia grega arcaica em que ela tem voz própria —, e o que ela conta é que a semente lhe foi posta na boca.
Então a bela Perséfone respondeu-lhe assim: «Mãe, vou contar-te tudo sem erro. Quando veio Hermes, que traz a boa sorte, veloz mensageiro do meu pai, o filho de Crono, e dos outros filhos do Céu, mandando que eu voltasse do Érebo para que me visses com os teus olhos e cessasses da tua ira e da tua cólera terrível contra os deuses — levantei-me de um salto, de alegria; mas ele às escondidas pôs-me na boca um alimento doce, uma semente de granada, e forçou-me a prová-la contra a minha vontade.»
Hino Homérico 2, a Deméter 410 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
Apolodoro acrescenta o que o hino não tem: uma testemunha. Ascálafo viu e contou, e por ter contado ficou debaixo de uma pedra — a única figura da mitologia grega punida por dizer a verdade sobre uma refeição.
Mas, quando Zeus ordenou a Plutão que mandasse subir a Donzela, Plutão deu-lhe a comer uma semente de romã, para que ela não se demorasse muito com a mãe. Sem prever a consequência, ela engoliu-a; e, porque Ascálafo, filho de Aqueronte e de Górgira, testemunhou contra ela, Deméter pôs-lhe em cima uma pesada pedra no Hades. E Perséfone ficou obrigada a permanecer um terço de cada ano com Plutão, e o resto do tempo com os deuses.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.5.3 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
Ovídio conta a mesma cena com o número mudado, e é a versão romana que a arte posterior fixou: não uma semente, sete grãos, colhidos com a própria mão num jardim.
Assim falara. Mas Ceres tinha por certo levar consigo a filha. Os fados não o consentem, porque a donzela quebrara o jejum: enquanto vagueava, sem malícia, pelos jardins cultivados, colhera de uma árvore recurva um fruto púrpura e, tirados da casca pálida sete grãos, apertara-os na boca. E de todos, só Ascálafo viu aquilo.
Ovídio, Metamorfoses 5.536-540 (texto latino)
O acordo que reparte o ano
A sentença já vinha enunciada na pergunta da mãe, e o hino repete-a duas vezes — uma pela boca de Deméter, outra pela de Reia, que traz o recado de Zeus. Nas duas o desenho é o mesmo: um terço embaixo, dois terços em cima.
Mas, se provaste alimento, terás de descer outra vez para os lugares secretos da terra, e ali morar a terça parte das estações de cada ano; as outras duas partes estarás comigo e com os demais deuses imortais. E quando a terra florescer com as flores fragrantes da primavera, de toda a espécie, então subirás outra vez do reino da treva e da escuridão, para ser assombro de deuses e de homens mortais.
Hino Homérico 2, a Deméter 399 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
E Zeus que tudo vê enviou-lhes uma mensageira, Reia de belos cabelos, para trazer Deméter de manto escuro para junto das famílias dos deuses; e prometeu dar-lhe as honras que ela escolhesse entre os imortais, e concordou que a sua filha descesse pela terça parte do ano que gira à treva e à escuridão, mas que pelas duas partes vivesse com a mãe e com os outros deuses imortais.
Hino Homérico 2, a Deméter 446 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
As fontes antigas divergem sobre a fração. O hino e Apolodoro dizem um terço; autores posteriores dizem metade e metade, e é a metade que passou para a arte e para os manuais modernos. A divergência é ela mesma um dado: a divisão exata nunca foi fixa, o que ficou fixo foi a ideia de uma deusa que vai e volta.
E o hino é explícito quanto ao sinal da volta — não é uma data de calendário, é a floração. Perséfone sobe quando a terra floresce, e não a terra floresce porque ela subiu; a ordem das duas coisas, no poema, é essa.
Elêusis, e o que a volta dela prometia
Devolvida a filha, Deméter devolve a colheita — e, antes de subir ao Olimpo, ensina aos reis de Elêusis o culto que durante mais de mil anos foi o segredo mais bem guardado do mundo grego. O hino nomeia os quatro homens que o receberam e recusa-se, na mesma frase, a dizer o que foi ensinado.
Então foi ter com os reis que administram a justiça — Triptólemo e Diocles, o condutor de cavalos, e o valente Eumolpo, e Celeu, guia do povo — e mostrou-lhes a condução dos seus ritos e ensinou-lhes todos os seus mistérios: mistérios terríveis, que ninguém de modo algum pode transgredir, nem devassar, nem proferir, pois o profundo temor dos deuses tolhe a voz.
Hino Homérico 2, a Deméter 476 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
O que o poema deixa dizer é a promessa, e ela não é sobre esta vida. É a primeira vez, na literatura grega que nos chegou, que se afirma que o destino dos mortos depende de algo que a pessoa fez enquanto era viva.
Feliz é, entre os homens da terra, aquele que viu estes mistérios; mas quem não foi iniciado e neles não tem parte nunca terá sorte semelhante depois de morto, lá em baixo, na treva e na escuridão.
Hino Homérico 2, a Deméter 480 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
O culto não ficou em Elêusis. Mãe e filha eram veneradas juntas por toda a Grécia, e quase sempre com a mesma reserva — Pausânias, que entrava em tudo, para diante de certos bosques e diz por que não escreve o que viu.
Avançando daqui vinte e cinco estádios, chega-se a um bosque de Deméter Cabíria e da Donzela. Aos iniciados é permitido entrar nele. O santuário dos Cabiros dista deste bosque uns sete estádios. Peço aos curiosos que me perdoem se guardo silêncio sobre quem são os Cabiros e qual é a natureza do ritual celebrado em honra deles e da Mãe.
Pausânias, Descrição da Grécia 9.25.5 (trad. W.H.S. Jones, 1918)
As pequenas freguesias da Ática, fundadas cada uma como o acaso quis, apresentavam as particularidades que se seguem. Em Álimo há um santuário de Deméter Legisladora e da Donzela; e em Zóster, na costa, há um altar a Atena, e também a Apolo, a Ártemis e a Leto. Prospalta tem igualmente um santuário da Donzela e de Deméter, e Anagirunte um santuário da Mãe dos deuses.
Pausânias, Descrição da Grécia 1.31.1 (trad. W.H.S. Jones, 1918)
A rainha dos mortos
Homero não conta o rapto. Para a Ilíada e a Odisseia, Perséfone já é o que ela virá a ser, e o mesmo vale para Hesíodo: quando a Teogonia descreve a geografia do mundo de baixo, a casa é dos dois, e é o nome dela que fecha a frase.
Ali, em frente, erguem-se os salões ressoantes do deus do mundo de baixo, o forte Hades, e da terrível Perséfone. Um cão espantoso guarda a casa à entrada, sem piedade, e tem um ardil cruel: aos que entram faz festa com a cauda e com as duas orelhas, mas não os deixa sair de volta — fica de vigia e devora quem apanhe a sair pelos portões.
Hesíodo, Teogonia 768 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
O poder que ela exerce ali não é emprestado do marido. No próprio Hino Homérico, é Hades quem o define, no discurso de despedida, e o que ele lhe promete é jurisdição sobre tudo o que vive, mais o direito de punir quem a desrespeite.
Vai agora, Perséfone, para junto da tua mãe de manto escuro; vai, e sê benévola para comigo no teu coração; não fiques tão abatida, pois não serei marido indigno de ti entre os deuses imortais, eu que sou irmão do próprio pai Zeus. E, enquanto aqui estiveres, reinarás sobre tudo o que vive e se move, e terás as maiores honras entre os deuses imortais: os que te defraudarem e não apaziguarem o teu poder com oferendas, cumprindo os ritos com reverência e pagando os dons devidos, serão castigados para sempre.
Hino Homérico 2, a Deméter 365 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
É esse poder que a Ilíada mostra em funcionamento, e sempre do mesmo modo: um vivo amaldiçoa outro vivo, e são os dois deuses de baixo que executam a sentença. Fênix conta a Aquiles a maldição do próprio pai, e o que a cumpriu foi o casal.
Dei-lhe ouvidos e fiz o que ela pedia; mas o meu pai soube logo do caso e amaldiçoou-me com força, e invocou as terríveis Erínias, para que nunca se sentasse nos seus joelhos um filho gerado por mim. E os deuses cumpriram-lhe a maldição: Zeus do mundo de baixo e a temível Perséfone.
Homero, Ilíada 9.457 (trad. Augustus Taber Murray, 1924)
No mesmo canto, Fênix conta ainda a de Alteia contra o próprio filho, e a fórmula repete-se — a mãe bate na terra com as mãos e chama pelos dois pelo nome.
A seu lado estava deitado Meleagro, alimentando a sua amargura, irado por causa das maldições da mãe; pois ela rogava insistentemente aos deuses, magoada pela morte do irmão, e ainda batia sem parar com as mãos na terra que a todos nutre, chamando por Hades e pela temível Perséfone, de joelhos, molhando de lágrimas as dobras do vestido — para que trouxessem a morte ao seu filho. E a Erínia que anda nas trevas ouviu-a do Érebo, ela, a de coração implacável.
Homero, Ilíada 9.569 (trad. Augustus Taber Murray, 1924)
Na arte, o par aparece com o mesmo protocolo. Pausânias descreve a arca de Cípselo, em Olímpia, e anota o que Plutão tem na mão — uma chave — e a explicação que lhe deram para ela.
De um lado estão Asclépio e a Saúde, uma das filhas dele; e também Ares, e a seu lado a Contenda; do outro estão Plutão, Dioniso, Perséfone e ninfas, uma delas com uma bola. Quanto à chave — Plutão segura uma chave —, dizem que aquilo a que se chama Hades foi trancado por Plutão, e que ninguém regressará de lá.
Pausânias, Descrição da Grécia 5.20.3 (trad. W.H.S. Jones, 1918)
Quem sobe e quem fica
No canto XI da Odisseia, o país dos mortos tem um endereço, e o endereço leva o nome dela. Circe descreve a paisagem com a precisão de um roteiro: a corrente do Oceano, a praia plana, e um bosque de árvores que não dão fruto aproveitável.
Mas, quando no teu navio tiveres atravessado a corrente do Oceano, onde há uma praia plana e os bosques de Perséfone — álamos altos e salgueiros que deixam cair o fruto —, encalha ali o navio, junto ao Oceano de fundos remoinhos, e vai tu mesmo à casa úmida de Hades. Ali, no Aqueronte, desembocam o Piriflegetonte e o Cocito, que é um braço da água do Estige; e há uma rocha, e o ponto onde se encontram os dois rios ruidosos.
Homero, Odisseia 10.503-515 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)
Dali em diante, tudo o que acontece com as almas acontece por decisão dela. Quando Ulisses tenta abraçar a mãe morta e os braços atravessam o vazio, a primeira suspeita dele é de que o que tem diante dos olhos foi mandado — e mandado por ela, de propósito, para o fazer sofrer mais.
Minha mãe, por que não me esperas, a mim que anseio por te abraçar, para que mesmo na casa de Hades possamos lançar os braços um em volta do outro e fartar-nos de gélido lamento? Será isto apenas um fantasma que a augusta Perséfone me mandou, para que eu me lamente e gema ainda mais?
Homero, Odisseia 11.213 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)
Não era. Mas a suspeita não é infundada: quem escolhe que mortos vêm falar com o vivo, e por que ordem, é ela. O desfile das heroínas começa porque ela o manda começar.
Assim falávamos um com o outro; e vieram as mulheres, porque a augusta Perséfone as mandou vir — todas aquelas que tinham sido esposas e filhas de chefes. Juntaram-se em bando à volta do sangue escuro, e eu ponderei como havia de interrogar cada uma.
Homero, Odisseia 11.226 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)
E acaba porque ela o manda acabar. Entre as mulheres e os guerreiros de Troia há um corte, e o corte é dado por ela.
Quando então a sagrada Perséfone dispersou para um lado e para outro as almas das mulheres, subiu a alma de Agamêmnon, filho de Atreu, sofredora; e à volta dele juntavam-se outras, as almas de todos os que foram mortos com ele na casa de Egisto e ali encontraram o seu destino.
Homero, Odisseia 11.385 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)
A cena termina com a única coisa que faz Ulisses correr para o navio em toda a viagem. Não é um monstro que aparece: é o medo do que ela pode mandar aparecer.
E ainda teria visto outros homens de outrora, que muito desejava contemplar, como Teseu e Pirítoo, filhos gloriosos dos deuses; mas antes disso as tribos incontáveis dos mortos vieram-se juntando com um clamor prodigioso, e um pálido terror se apoderou de mim, com receio de que a augusta Perséfone me mandasse, lá de dentro da casa de Hades, a cabeça da Górgona, aquele monstro terrível.
Homero, Odisseia 11.634 (trad. Augustus Taber Murray, 1919)
Os vivos que desceram até ela
Duas vezes na mitologia grega alguém desceu para se casar com ela, e nas duas foi a mesma expedição. Pirítoo decidiu pedi-la, Teseu foi obrigado por juramento a acompanhá-lo, e o que os dois encontraram lá em baixo foi hospitalidade — cadeiras de onde não se levantaram mais.
Tendo feito com Pirítoo o pacto de que casariam com filhas de Zeus, Teseu, com a ajuda de Pirítoo, raptou Helena de Esparta para si, quando ela tinha doze anos; e, no empenho de ganhar Perséfone como esposa para Pirítoo, desceu ao Hades.
Pseudo-Apolodoro, Epítome 1.23 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
Quem os encontrou ali foi Héracles, no décimo segundo trabalho. E o mesmo relato guarda o único momento em que Perséfone intervém em favor de alguém contra o herói: o boiadeiro de Hades levou uma sova, e foi ela que o poupou.
E, chegando perto dos portões do Hades, encontrou Teseu e Pirítoo — este último, que pretendera Perséfone em casamento e por isso estava preso. Ao verem Héracles, estenderam as mãos, como que para serem erguidos dos mortos pela força dele. E a Teseu, de fato, tomou-o pela mão e levantou-o; mas, quando ia levantar Pirítoo, a terra tremeu e ele largou-o. Removeu também a pedra de Ascálafo. E, querendo dar sangue às almas, matou uma das vacas de Hades. Mas Menetes, filho de Ceutônimo, que guardava o gado do rei, desafiou Héracles para a luta e, agarrado pela cintura, ficou com as costelas partidas; foi porém poupado a pedido de Perséfone.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.5.12 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
Havia ainda um modo de descer que não era pela força. Na Alceste de Eurípides, Admeto diz o que faria se tivesse o dom de Orfeu, e a frase mede exatamente o que a música conseguiu onde a espada não conseguia: comover os dois donos do lugar.
Se eu tivesse a língua e a voz melodiosa de Orfeu, para encantar com o meu canto a filha de Deméter ou o marido dela e te trazer de volta do Hades, eu desceria.
Eurípides, Alceste 357 (trad. Edward P. Coleridge, 1906)
O último a descer, nas letras antigas, foi uma mortal. No romance de Apuleio, Psique recebe instruções detalhadas para se apresentar diante de Prosérpina, e as instruções são de etiqueta: recusar a cadeira macia, recusar o banquete, sentar-se no chão e comer pão grosseiro. Aceitar comida na casa dos mortos continuava sendo a única armadilha que importava.
Pois um cão descomunal, de cabeça tríplice e bem grande, monstruoso e temível, ladrando com fauces trovejantes aos mortos — a quem já não pode fazer mal nenhum —, aterrorizando-os em vão diante do próprio limiar e dos átrios negros de Prosérpina, guarda sempre de vigília a casa vazia de Dite. A esse, refreado com a presa de um bolo, passarás facilmente, e entrarás logo à presença da própria Prosérpina, que te receberá com cortesia e benevolência, e te há de persuadir a sentar-te comodamente e a tomar um banquete opíparo. Mas tu senta-te no chão, pede pão grosseiro e come-o.
Apuleio, O Asno de Ouro 6.19 (texto latino)
Adônis, o menino que ela não devolveu
Uma vez ela ficou do outro lado da disputa. Afrodite escondeu o menino Adônis numa arca e confiou-a a Perséfone sem dizer o que havia dentro; Perséfone abriu, viu, e não devolveu. O caso foi a julgamento diante de Zeus, e a sentença tem a mesma forma da que a prendeu ao mundo de baixo: o ano dividido em partes.
Dez meses depois a árvore rebentou e nasceu aquele a quem chamam Adônis, a quem, pela sua beleza, ainda criança de peito, Afrodite escondeu numa arca sem o saberem os deuses e confiou a Perséfone. Mas, quando Perséfone o viu, não quis devolvê-lo. Levado o caso a julgamento diante de Zeus, o ano foi dividido em três partes, e o deus determinou que Adônis ficasse sozinho uma parte do ano, com Perséfone outra parte, e com Afrodite a restante. Adônis, porém, cedeu a Afrodite também o quinhão que era seu; e mais tarde, na caça, foi ferido e morto por um javali.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 3.14.4 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
Mintha, pisada
A rainha dos mortos tem uma única história de ciúme, e ela sobrevive num aparte de geógrafo. Estrabão, ao descrever um monte perto de Pilos, explica de onde vem o nome dele — e o mito inteiro cabe numa oração subordinada.
Perto de Pilos, para o lado do nascente, há um monte com o nome de Mintha, que, segundo o mito, se tornou concubina de Hades, foi pisada por Coré e foi transformada em hortelã-de-jardim, a planta a que alguns chamam hedíosmo. Além disso, junto ao monte há um recinto sagrado de Hades, venerado também pelos macístios, e um bosque sagrado de Deméter, situado acima da planície de Pilos.
Estrabão, Geografia 8.3.14 (trad. Horace Leonard Jones, 1924)
A Senhora da Arcádia
A tradição arcádia guardava uma versão diferente e mais antiga, em que a filha de Deméter não nasce de Zeus. Ali, Posídon persegue Deméter, os dois tomam forma de cavalo, e do encontro nascem dois filhos: um cavalo e uma deusa.
Quando Deméter andava a vaguear em busca da filha, foi seguida, segundo se diz, por Posídon, que a desejava. Então ela transformou-se, conta a história, numa égua, e pastava com as éguas de Ôncio; percebendo que fora enganado, também Posídon se mudou em garanhão e possuiu Deméter.
Pausânias, Descrição da Grécia 8.25.5 (trad. W.H.S. Jones, 1918)
A filha desse encontro é Despoina, «a Senhora», e o nome dela é um nome de substituição: o verdadeiro não se dizia diante de quem não fosse iniciado. Pausânias, que ouviu o nome, escreve à volta dele duas vezes e nas duas se recusa a escrevê-lo.
Dizem que Deméter teve de Posídon uma filha, cujo nome não costumam divulgar aos não iniciados, e um cavalo chamado Aríon. Por isso dizem que foram os primeiros arcádios a chamar a Posídon «o Cavalo».
Pausânias, Descrição da Grécia 8.25.7 (trad. W.H.S. Jones, 1918)
O hábito de não pronunciar o nome atravessa a literatura grega inteira, e não é exclusivo da Arcádia. Ela é «a moça», «a Senhora», «a de baixo» — e o próprio Platão registra que o nome, quando dito, metia medo.
O nome na boca dos trágicos
No teatro ateniense, Perséfone quase nunca aparece: é invocada. Sófocles põe o nome dela na abertura de uma vingança, ao lado do Hermes que conduz os mortos e das Erínias que tomam nota do sangue mal derramado.
Ó casa de Hades e de Perséfone! Ó Hermes das sombras! Ó Maldição poderosa, e vós, temíveis filhas dos deuses, as Erínias, que tomais nota quando uma vida é tirada injustamente, quando um leito conjugal é desonrado à traição.
Sófocles, Electra 110 (trad. Richard Jebb, 1894)
E, na Antígona, o nome dela é o último endereço de quem vai morrer viva. A moça que desce para o túmulo diz para onde vai contando quem já lá está e quem a recebe.
Ó túmulo, ó câmara nupcial, ó prisão eterna cavada fundo, para onde vou ao encontro dos meus — a esses, em número imenso, a destruição os tomou, e Perséfone os recebeu entre os mortos.
Sófocles, Antígona 893 (trad. Richard Jebb, 1891)
Eurípides usa outra fórmula para a mesma deusa, e ela mostra até onde o nome de Coré chegou: quem volta do país dos mortos volta de dois lugares ao mesmo tempo, o de Hades e o dela.
Assim farei; o teu conselho é bom, entrarei em minha casa. Depois de ter voltado, enfim, do antro sem sol de Hades e da rainha donzela do inferno, não deixarei de saudar primeiro os deuses que tenho sob o meu teto.
Eurípides, Héracles 608 (trad. Edward P. Coleridge, 1891)