CAPRICÓRNIO é uma cabra que termina em peixe, e a figura é antiga — vem da Mesopotâmia. Os gregos a explicaram com duas histórias diferentes, e as duas continuam na constelação: a cabra é Amalteia, que amamentou Zeus recém-nascido na caverna de Creta; a cauda de peixe é de Pã, que se atirou ao rio para escapar de Tifão e se transformou pela metade.

A cabra da caverna
Reia esconde o recém-nascido de Cronos numa caverna de Creta, entrega-o a ninfas e dá ao pai uma pedra enfaixada para engolir no lugar dele. A alimentação do bebê é o detalhe que a tradição guardou com nome próprio.
Estas ninfas alimentaram a criança com o leite de Amalteia; e os Curetes, em armas, guardavam o bebê na caverna, batendo as lanças nos escudos para que Cronos não ouvisse a voz da criança. Mas Reia envolveu uma pedra em faixas e deu-a a Cronos para engolir, como se fosse o recém-nascido.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.1.7 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
Toda a mitologia grega posterior depende dessa caverna, e a cabra faz parte do arranjo: as lanças abafam o choro, o leite sustenta a criança, a pedra engana o pai. Três truques, e nenhum deles é força.
Da mesma cabra vem, na tradição, um segundo objeto famoso: o chifre que se quebrou e passou a produzir tudo o que se desejasse — a cornucópia. A abundância do mundo antigo começa numa cabra de caverna.
A cauda de peixe
A metade aquática vem da mesma fuga que produziu o signo de Peixes: quando Tifão ataca, os deuses se transformam em animais e correm. Pã pula na água e a transformação o pega no meio — cabra em cima, peixe embaixo.
É a explicação grega para uma figura que os gregos herdaram já pronta, e ela tem a virtude de ser honesta com o desenho: em vez de escolher uma metade, o mito explica as duas. Ver Peixes, que conta a mesma fuga pelo outro lado, e Tifeu, que é de quem todos estão fugindo.
O bode que salvou o rei dos deuses
A figura do Capricórnio — metade cabra, metade peixe — está ligada a Egipã, e a aparição dele nas fontes é curta e decisiva: ele entra na hora em que Zeus está perdido.
Mas Tifão enroscou-se nele e prendeu-o nos anéis, e, arrancando-lhe a foice, cortou-lhe os tendões das mãos e dos pés, e, erguendo-o aos ombros, levou-o pelo mar até a Cilícia e depositou-o na caverna Coríciana.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.6.3 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★ **É a única passagem da mitologia grega em que Zeus é derrotado, desmontado e guardado num armário.** Os tendões dele ficam escondidos numa pele de urso, com uma dragoa de guarda. O rei do Olimpo está vivo e inutilizado — não pode andar nem segurar o raio.
E quem o conserta não é um deus grande.
Dois ladrões, e o mundo de volta ao lugar
A recuperação é um roubo, e o texto a registra com a naturalidade de quem descreve serviço de rotina.
Mas Hermes e Egipã roubaram os tendões e ajustaram-nos a Zeus sem serem vistos. E, tendo recuperado a força, Zeus, de repente, do céu, montado num carro de cavalos alados, atirou raios em Tifão.
Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.6.3 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
Um mensageiro e um bode. ★ A ordem cósmica é restaurada por furto, não por batalha — e a batalha só recomeça depois de o furto dar certo. Ver Tifeu e Hermes.
A forma híbrida do Capricórnio — o rabo de peixe — é explicada pela mesma guerra: fugindo de Tifão, Egipã atirou-se ao Nilo e a parte submersa virou peixe. É a mesma fuga que explica o Peixes, e as duas constelações são, no fundo, a mesma noite de pânico.
O que se vê no céu
Capricórnio é fraco e tem forma de triângulo achatado, entre Sagitário e Aquário. Como Áries, o tamanho não corresponde à fama.
★ E a fama vem de um marco: durante séculos, o **Trópico de Capricórnio** — o paralelo mais ao sul que o Sol alcança — foi batizado assim porque o Sol estava nesta constelação no solstício de dezembro. ⚠ A precessão já o mudou para Sagitário; o nome do trópico ficou.
⚠ **Esta seção não tem citação antiga, e é de propósito.** Uma constelação é duas coisas: uma história e um desenho. A história deste site sai sempre de uma fonte com endereço; o desenho não se cita — vê-se. O que está acima é o que qualquer pessoa confere olhando para cima, numa noite limpa, sem instrumento nenhum.