ÍCARO é o nome do erro de operação mais famoso da história. O pai deu-lhe duas instruções — não suba demais, não desça demais — e ele quebrou uma. O mar em que caiu ficou com o nome dele, e a ilha ao lado também.
★ A instrução tinha DUAS metades
A leitura corrente do mito guarda só uma das proibições, e é por isso que ela vira uma lição sobre ambição. A fonte diz outra coisa.
Sabendo da fuga de Teseu e dos seus, Minos encerrou no labirinto o culpado Dédalo, junto com o filho Ícaro, que Náucrate, escrava de Minos, lhe dera. Mas Dédalo construiu asas para si e para o filho, e ordenou ao filho que, ao levantar voo, não voasse alto, para que a cola não derretesse ao sol e as asas não caíssem, nem voasse perto do mar, para que as penas não se soltassem com a humidade.
Pseudo-Apolodoro, Epítome 1.12 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★★★ **Voar baixo também era proibido, e pelo mesmo tipo de razão.** Não há um lado virtuoso e um lado pecaminoso: há uma **faixa**, com um teto e um piso, e as duas paredes são de material — o sol derrete a cera em cima, a água encharca a pena embaixo.
Ovídio diz a mesma coisa em verso, e com uma palavra que virou expressão: o caminho *do meio*. As duas ameaças aparecem na mesma frase, uma de cada lado.
E instruiu o filho: «Aconselho-te, Ícaro, que corras pelo caminho do meio — para que, se fores mais baixo, a água não te pese as penas, e, se fores mais alto, o fogo não tas queime. Voa entre uma coisa e outra. E não te mando olhar para o Boieiro, nem para a Ursa, nem para a espada erguida de Oríon: segue o caminho comigo por guia.»
Ovídio, Metamorfoses 8.203-208 (texto latino)
⚠ Isso muda a moral. O mito não diz «não seja ambicioso»: diz **«respeite o envelope de voo»** — e é, provavelmente, a primeira formulação disso na literatura. Ver Dédalo.
Ovídio contou esta história duas vezes, com vinte anos de intervalo. Na Arte de Amar, o mesmo aviso vem com um acréscimo prático que a versão famosa não tem: além do teto e do piso, há o vento.
«Não terás de olhar para a virgem de Tegeia, nem para Oríon armado de espada, companheiro do Boieiro: segue-me com as asas que te dei; eu irei à frente. A ti cabe seguir; comigo por guia estarás seguro. Porque, se formos pelo ar do céu com o sol perto, a cera não suportará o calor; e, se batermos as asas rente ao mar, a pena móvel encharcar-se-á na água salgada. Voa entre uma coisa e outra. E teme também os ventos, meu filho: entrega as velas ao rumo em que as brisas te levarem.»
Ovídio, A Arte de Amar 2.55-70 (texto latino)
Por que houve asas: o mar estava fechado
As asas não são invenção de fantasia: são a resposta a um cerco. Minos controlava a terra e o mar de Creta, e Dédalo, preso na ilha que ele mesmo tinha enchido de armadilhas, faz a conta do que sobrou.
Entretanto Dédalo, farto de Creta e do longo desterro, e tocado pelo amor do lugar onde nascera, estava fechado pelo mar. «Que ele feche as terras e as águas», disse; «o céu ao menos está aberto, e é por ali que iremos. Que Minos possua tudo o mais: o ar ele não possui.» Disse, e lançou o espírito a artes desconhecidas, e mudou a natureza. Pôs penas em fila, começando pela menor, a mais curta seguindo a mais longa, de modo que se diria terem crescido numa encosta.
Ovídio, Metamorfoses 8.183-195 (texto latino)
Antes de fabricar asa nenhuma, Dédalo tentou o caminho normal: pediu licença para ir embora. A Arte de Amar guarda o pedido, e o argumento com que ele termina é o de um homem que já não espera nada para si.
Minos tinha barrado tudo à fuga do seu hóspede; ele achou um caminho ousado, com penas. Depois de Dédalo ter encerrado aquele que o crime da mãe concebera — o homem meio boi e o boi meio homem —, disse: «Justíssimo Minos, ponha-se um fim ao desterro: que a terra do meu pai receba as minhas cinzas. E, já que na pátria, empurrado por destinos injustos, não pude viver, dá-me ao menos poder morrer. Dá a volta ao rapaz, se a de um velho é favor de pouca valia; e, se não queres poupar o rapaz, poupa o velho.»
Ovídio, A Arte de Amar 2.21-30 (texto latino)
As mãos que tremeram, e os beijos que não se repetiram
A cena da partida é o lugar onde Ovídio decide que esta não é uma história de invenção, e sim de pai. Ele monta as asas nos ombros do filho enquanto chora, e o poema anota a coisa que só se sabe depois.
Ao mesmo tempo que lhe transmite os preceitos do voo, ajusta-lhe aos ombros as asas desconhecidas. Entre o trabalho e os avisos, as faces envelhecidas molharam-se, e as mãos do pai tremeram. Deu ao filho beijos que não se repetiriam outra vez e, erguido pelas penas, voa à frente e teme pelo companheiro — como a ave que tirou do ninho alto a cria tenra para o ar, e a incita a seguir, e lhe ensina a arte que a há de perder, e move as suas próprias asas, e olha para trás, para as do filho.
Ovídio, Metamorfoses 8.209-216 (texto latino)
«As mãos do pai tremeram» é uma frase de oficina: quem monta a peça é quem sabe o que ela aguenta. E o verso seguinte chama a invenção de **arte que há de perder** — o poema já sabe o fim, e diz.
Quem viu, de baixo
Ovídio interrompe o voo para mostrar a cena por baixo, do ponto de vista de três trabalhadores que levantaram a cabeça. A explicação que eles encontram para o que estão vendo é a única disponível na época.
A esses, alguém que apanhava peixe com a cana trémula, ou um pastor apoiado no cajado, ou um lavrador na rabiça do arado, viu — e ficou pasmado; e acreditou que fossem deuses aqueles que podiam trilhar o céu. E já Samos, a ilha de Juno, ficava à esquerda (Delos e Paros tinham ficado para trás), e à direita estavam Lebinto e Calimne, fértil em mel.
Ovídio, Metamorfoses 8.217-222 (texto latino)
As ilhas nomeadas não são enfeite: Samos, Delos, Paros, Lebinto e Calimne desenham uma rota real pelo Egeu oriental, e é exatamente onde a queda vai acontecer. A geografia do poema fecha com a do mapa.
A queda
O que quebra a regra não é a soberba: é a alegria. Ovídio escreve que o menino **começou a gostar** do voo — e é o gosto, não o desafio, que o leva para cima.
…quando o menino começou a alegrar-se com o voo ousado, e abandonou o guia, e, puxado pelo desejo do céu, tomou caminho mais alto. A vizinhança do sol ardente amolece a cera perfumada que prendia as penas. A cera derreteu-se: ele agita os braços nus e, sem remos, não agarra ar nenhum; e a boca, gritando o nome do pai, é recebida pela água azul — que dele tirou o nome. Mas o pai infeliz, já não pai, dizia: «Ícaro! Ícaro, onde estás? Em que região te procuro?» «Ícaro», ia dizendo — e viu as penas nas ondas; e amaldiçoou as suas artes, e guardou o corpo num túmulo; e a terra ficou com o nome de quem ali foi sepultado.
Ovídio, Metamorfoses 8.223-235 (texto latino)
Na Arte de Amar a mesma queda tem uma linha que a versão famosa não tem: o menino fala. E o que ele diz não é um pedido de perdão — é o que qualquer criança diria.
Quando o menino, temerário demais para os seus anos incautos, tomou caminho mais alto e abandonou o pai, as amarras afrouxam e a cera derrete-se com o deus mais perto, e os braços movidos já não seguram o ar tênue. Aterrado, do alto do céu olhou para baixo, para o mar: a noite veio-lhe aos olhos, subida do medo. A cera derretera-se; ele agita os braços nus, e treme, e não tem em que se apoiar. Cai — e, caindo, diz: «Pai, ó pai, estão a levar-me!» As águas verdes fecharam-lhe a boca que falava.
Ovídio, A Arte de Amar 2.83-96 (texto latino)
Apolodoro conta o mesmo desfecho com a economia de sempre, e a última frase é geográfica.
Mas o insensato Ícaro, desprezando as ordens do pai, subiu cada vez mais alto até que, derretendo-se a cola, caiu no mar chamado Icário por causa dele, e morreu. Mas Dédalo chegou em segurança a Cámico, na Sicília.
Pseudo-Apolodoro, Epítome 1.13 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★ **«E Dédalo chegou em segurança à Sicília.»** A frase que se segue à morte do filho é sobre o pai ter conseguido. Apolodoro não comenta nem lamenta — e é a falta de comentário que faz a passagem doer.
★ A versão em que não havia asas nenhumas
Pausânias percorreu a Grécia anotando o que se contava em cada santuário, e em Tebas ouviu uma história diferente sobre a mesma fuga. Nela Dédalo não inventa asas: inventa a **vela** — e a fuga é de barco, contra a frota a remo de Minos.
Há aqui um santuário de Héracles. A imagem, de mármore branco, chama-se «o Campeão», e os artistas foram os tebanos Xenócrito e Êubio. Mas a antiga imagem de madeira os tebanos julgam ser obra de Dédalo, e a mesma opinião me ocorreu a mim. Foi dedicada, dizem, pelo próprio Dédalo, em agradecimento por um benefício. Pois, quando fugia de Creta em pequenas embarcações que fizera para si e para o filho Ícaro, imaginou para os barcos as velas, invenção ainda desconhecida dos homens daquele tempo, para aproveitar o vento favorável e deixar para trás a frota a remos de Minos.
Pausânias, Descrição da Grécia 9.11.4 (trad. W.H.S. Jones, 1918)
★★★ **E aí a morte do menino deixa de ser desobediência e passa a ser inexperiência.** Ele não sobe demais: não sabe pilotar.
…mas diz-se que o barco de Ícaro emborcou, porque ele era um piloto desajeitado. O afogado foi levado pela corrente até à praia da ilha que então não tinha nome e que fica ao largo de Samos. Héracles deu com o corpo e reconheceu-o, e sepultou-o onde ainda hoje se ergue um pequeno montículo dedicado a Ícaro, num promontório que avança sobre o Egeu. É deste Ícaro que tomam o nome tanto a ilha como o mar em volta dela.
Pausânias, Descrição da Grécia 9.11.5 (trad. W.H.S. Jones, 1918)
⚠ **As duas versões não se corrigem uma à outra: circulavam ao mesmo tempo.** A das asas é a que a poesia romana fixou e a que chegou até nós; a da vela é a que os tebanos contavam diante de uma estátua de madeira que eles atribuíam ao próprio Dédalo. Pausânias registra a segunda sem desmentir a primeira — e é assim que ele trabalha o livro inteiro. Ver Teseu e Minotauro, onde a mesma fuga aparece pelo outro lado.
O mar, a ilha e o túmulo
Sobre uma coisa as fontes não divergem: existe um pedaço do Egeu que se chama Icário, e uma ilha ao lado com o mesmo nome. Estrabão, que escreve geografia e não mito, dá o endereço e depois conta a história como quem explica uma toponímia.
Ao lado de Samos fica a ilha de Icária, donde veio o nome do mar Icário. Esta ilha tem o nome de Ícaro, o filho de Dédalo, que, segundo se conta, tendo acompanhado o pai na fuga, ambos providos de asas, voou para longe de Creta e caiu aqui, tendo perdido o domínio do rumo; pois, acrescentam, ao subir demasiado perto do sol, as asas soltaram-se-lhe, porque a cera derreteu. A ilha toda tem trezentos estádios de perímetro; não tem portos, mas apenas ancoradouros.
Estrabão, Geografia 14.1.19 (trad. Horace Leonard Jones, 1924)
O nome é mais velho do que qualquer relato que nos chegou dele. Homero já usa o mar Icário como medida de agitação — e não explica de onde veio o nome, porque quem o ouvia já sabia.
Assim falou, e agitou os corações no peito de todos, por entre a multidão, de quantos não tinham ouvido o conselho. E a assembleia moveu-se como as vagas longas do mar Icário, que o Euro ou o Noto levantaram, precipitando-se sobre elas desde as nuvens do pai Zeus.
Homero, Ilíada 2.144 (trad. Augustus Taber Murray, 1924)
E a ilha continuou no mapa político. Ésquilo, ao listar as possessões que o império ateniense tinha perdido, nomeia-a entre Lemnos e Rodes — a «povoação de Ícaro», com o nome do morto virado nome de lugar.
…Lemnos, e a povoação de Ícaro, e Rodes, e Cnido, e as cidades cíprias — Pafos, Solos e Salamina.
Ésquilo, Os Persas 890 (trad. Herbert Weir Smyth, 1926)
**A geografia grega está cheia de nomes que são certidões de óbito** — ver Áries, onde o Helesponto é «o mar de Hele».
O que o pai fez depois
Dédalo chegou à Sicília e escondeu-se na corte de Cócalo. Minos foi atrás, e a caçada que ele monta é a mais estranha da mitologia grega: um enigma de engenharia levado de porta em porta, feito para que só o fugitivo saiba resolvê-lo.
E Minos perseguiu Dédalo, e em cada terra que percorria levava consigo uma concha em espiral e prometia grande recompensa a quem conseguisse passar um fio por dentro dela, na convicção de que assim descobriria Dédalo. E, tendo chegado a Cámico, na Sicília, à corte de Cócalo, com quem Dédalo estava escondido, mostrou a concha em espiral. Cócalo tomou-a e prometeu enfiar o fio, e deu-a a Dédalo.
Pseudo-Apolodoro, Epítome 1.14 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
E Dédalo atou um fio a uma formiga e, tendo feito um furo na concha em espiral, deixou a formiga passar por dentro dela. Mas, quando Minos viu o fio passado pela concha, percebeu que Dédalo estava com Cócalo, e exigiu logo que lho entregassem. Cócalo prometeu entregá-lo e ofereceu um banquete a Minos; mas, depois do banho, Minos foi morto pelas filhas de Cócalo — há quem diga, porém, que morreu escaldado com água a ferver.
Pseudo-Apolodoro, Epítome 1.15 (trad. Sir James George Frazer, 1921)
★ **O engenho que salvou o pai é do mesmo tipo do que matou o filho.** A formiga no fio e as asas de cera saem da mesma cabeça; a diferença entre as duas é quem estava a operar.
Virgílio dá a Dédalo um último trabalho, e é o único em que ele falha. Chegado a Cumas, o inventor cobre as portas do templo de Apolo com a história inteira da sua vida em relevo de ouro — o Minotauro, o labirinto, o fio de Ariadne. Só uma cena não entra.
Dédalo, como conta a fama, ao fugir do reino de Minos, ousou entregar-se ao céu com asas velozes, e nadou pelo ar num caminho inusitado até às frias Ursas, e por fim pousou, leve, sobre a cidadela calcídica. Devolvido primeiro a estas terras, consagrou-te, ó Febo, os remos das suas asas, e ergueu-te um templo imenso. Nas portas está a morte de Andrógeo; e os Cecrópidas, mandados pagar a pena — que miséria! — de sete corpos dos seus filhos por ano; e lá está a urna com as sortes tiradas… E tu também, Ícaro, terias grande parte em tão grande obra, se a dor o consentisse. Duas vezes tentou ele moldar a tua queda em ouro; duas vezes as mãos do pai caíram.
Virgílio, Eneida 6.14-33 (texto latino)
A perdiz que cantou no enterro
O último verso da história em Ovídio não é sobre Ícaro. Enquanto Dédalo põe o corpo do filho no túmulo, uma ave o observa de uma vala e canta de alegria. A ave é recente no mundo: nunca tinha sido vista antes, e o poema diz por quê.
A ele, que depunha no túmulo o corpo do filho, viu-o de longe, de uma vala lodosa, uma perdiz tagarela; e bateu as asas e testemunhou com o canto a sua alegria: ave única então, nunca vista em anos anteriores, e feita ave havia pouco tempo — acusação demorada contra ti, Dédalo. Pois a irmã dele, ignorante dos destinos, lhe entregara o próprio filho para ser ensinado, um rapaz de doze anos, de espírito capaz de aprender. Foi ele quem tirou do exemplo das espinhas marcadas no meio de um peixe e talhou em ferro afiado dentes contínuos, e descobriu o uso da serra. E foi o primeiro a atar dois braços de ferro num só nó, para que, distando um do outro em espaço igual, uma parte ficasse parada e a outra descrevesse um círculo. Dédalo invejou-o, e da cidadela sagrada de Minerva…
Ovídio, Metamorfoses 8.236-250 (texto latino)
A frase que Ovídio interrompe termina com Dédalo a atirar o sobrinho do alto da Acrópole, e Minerva a apanhá-lo no ar e a transformá-lo em perdiz — que é a razão por que a perdiz voa rente ao chão e faz ninho em valas: **ela não confia em altura.** É a única ave da mitologia grega com medo de cair.
⚠ E é o mesmo homem nas duas pontas. O sobrinho tinha inventado a serra e o compasso antes dos treze anos; o inventor que não suportou ser ultrapassado é o mesmo que, um livro depois, fabrica asas para o próprio filho e o vê cair. Ovídio põe as duas coisas na mesma página, e não escreve uma linha ligando-as.