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Astéria

ASTÉRIA era filha de Céos e de Febe, irmã de Leto e esposa de Perses, de quem teve Hécate. ★★★ Mas o que fica dela não é a genealogia: é uma fuga. **Perseguida por Zeus, atirou-se ao mar em forma de codorna e virou uma ilha** — e a ilha é Delos. ⚠ Ela é a única figura destas fontes que escapa de Zeus inteira. O preço foi deixar de ser alguém e passar a ser chão.

As duas filhas de Ceos

Apolodoro arruma a casa dos titãs em duas linhas por casal, e a de Ceos cabe em meia frase, entre a de Oceano e a de Hipérion.

Ora, aos Titãs nasceram filhos: de Oceano e Tétis nasceram as Oceânides, a saber, Ásia, Estige, Electra, Dóris, Eurínome, Anfitrite e Métis; de Ceos e Febe nasceram Astéria e Latona; de Hipérion e Tia nasceram a Aurora, o Sol e a Lua; de Crio e Euríbia, filha do Mar (Ponto), nasceram Astreu, Palas e Perses.

Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.2.2 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

«Latona» é o nome romano de Leto. **As duas irmãs vão ser a mãe de Apolo e Ártemis e a mãe de Hécate** — de um lado a luz de Delos, do outro a deusa das encruzilhadas. Ver Céos e Febe.

Hesíodo dá-lhe um epíteto e mais nada — e o epíteto é sobre o nome dela.

Então a deusa, pelo amor do deus, concebeu e deu à luz Leto de manto escuro, sempre suave, benévola para os homens e para os deuses imortais, suave desde o começo, a mais gentil de todo o Olimpo. Deu à luz também Astéria de nome feliz, a quem Perses um dia…

Hesíodo, Teogonia 405 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

★ **«De nome feliz.»** *Astér* é «estrela»: chamar-se Astéria é já ser uma coisa boa, e Hesíodo repara nisso em voz alta. ⚠ E note-se o que ele NÃO diz — não há uma linha na Teogonia sobre a codorna, sobre a fuga, sobre a ilha. **A história pela qual ela é lembrada não está no poeta que a nomeia.**

★★★ A codorna

Quem conta a fuga é Apolodoro, e conta-a numa frase só, de passagem, para explicar de onde vem o nome de uma ilha.

Das filhas de Ceos, Astéria, sob a forma de uma codorna, atirou-se ao mar para escapar às investidas amorosas de Zeus, e uma cidade foi outrora chamada por seu nome, Astéria, mas depois recebeu o nome de Delos.

Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.4.1 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

★★★ **A codorna é o nome da ilha antes de ser um bicho.** *Órtux* é «codorna» em grego, e Ortígia é o outro nome de Delos: a metamorfose e o topônimo são a mesma palavra. Vejam o que isso implica — **o mito foi contado de trás para a frente**, partindo do nome do lugar e recuando até inventar-lhe a causa. É o modo grego de explicar um mapa.

⚠ E vale dizer o que aqui não se pode conferir. Calímaco escreveu um hino inteiro a Delos que trata Astéria pelo nome e conta a fuga com detalhe; **no acervo deste site esse hino só existe em grego, sem tradução de domínio público** — e o que não se confere não se cita. Fica o registro de que a versão mais rica é justamente a que não está nesta página.

★★★ A irmã que fugiu virou o chão da irmã que não fugiu

A frase de Apolodoro não para na codorna. Ela emenda, sem respiro nenhum, na história da outra filha de Ceos — e é dessa emenda que sai a coisa mais dura deste verbete.

…e uma cidade foi outrora chamada por seu nome, Astéria, mas depois recebeu o nome de Delos. Mas Latona, pela sua ligação com Zeus, foi caçada por Hera pela terra inteira, até chegar a Delos e dar à luz primeiro Ártemis, com cuja assistência de parteira deu depois à luz Apolo.

Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.4.1 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

★★★ Ponham as duas metades lado a lado. **Astéria fugiu de Zeus e virou uma rocha. Leto não fugiu, e foi parir o filho de Zeus em cima daquela rocha.** A tia é o chão do sobrinho. Ver Leto, Apolo e Artemis.

★★ E repare em quem falta na cena: Hera persegue Leto pela terra inteira e **nenhuma terra a aceita — exceto a que já tinha dito não a Zeus.** As fontes não comentam isto, e por isso fica declarado como leitura e não como fato: **o único lugar do mundo onde o filho de Zeus podia nascer era o que sobrou de uma mulher que lhe disse não.**

★★ A ilha que fala, e que tem medo

O Hino Homérico a Apolo é mais antigo do que Apolodoro e nunca usa o nome Astéria. Mas faz uma coisa que nenhum outro texto faz: **dá voz à ilha.** Leto chega, oferece-lhe um templo em troca de pousada para o parto, e Delos responde.

…«pois em verdade o teu próprio solo não é rico.» Assim falou Leto. E Delos alegrou-se e respondeu e disse: «Leto, gloriosíssima filha do grande Ceos, com alegria eu receberia o teu filho, o senhor que fere de longe; pois é bem verdade que tenho má fama entre os homens, ao passo que assim eu seria grandemente honrada.»

Hino Homérico 3, a Apolo 60 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

★ **«Gloriosíssima filha do grande Ceos.»** É a ilha quem chama Leto assim — e Ceos é o pai de Astéria. Se Apolodoro tem razão e a ilha foi Astéria, **esta é uma irmã tratando a outra pelo nome do pai das duas.** O hino não diz isso. Diz apenas a frase, e a frase fica ali.

Por isso temo muito, no coração e no ânimo, que, assim que ele veja a luz do sol, despreze esta ilha — pois em verdade tenho um solo duro e rochoso — e me vire ao contrário e me empurre com os pés para as profundezas do mar; então o grande oceano lavará para sempre por cima da minha cabeça.

Hino Homérico 3, a Apolo 70 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

★★★ **Uma ilha com medo de se afogar.** Vejam a lógica do medo: ela teme ser pisada e afundada por um menino que ainda nem nasceu, e por isso exige de Leto um juramento pelo Estige antes de deixar o parto acontecer. **É pavor de quem já foi obrigada a virar pedra uma vez.** ⚠ Outra vez: a ligação é leitura, não é fonte — mas é a leitura que o texto pede.

A mãe de Hécate, e o que sobrou do nome

O casamento com Perses fecha o bloco da Teogonia sobre a casa de Ceos, e dele nasce a única coisa de Astéria que a tradição inteira aceitou sem discutir.

…levou à sua grande casa para ser chamada esposa querida. E ela concebeu e deu à luz Hécate, a quem Zeus, filho de Cronos, honrou acima de todos. Deu-lhe dons esplêndidos: uma parte na terra e no mar infecundo. Recebeu honra também no céu estrelado…

Hesíodo, Teogonia 410 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)

★★ Ver Perses e Hécate. **A filha herda o céu estrelado que estava no nome da mãe** — e é a filha que fica com os quarenta versos seguidos que Hesíodo interrompe a genealogia para lhe dar. Astéria ficou com meia linha e um elogio ao nome.

E de Cronos e Fílira nasceu Quíron, um centauro de forma dupla; e da Aurora e de Astreu nasceram os ventos e as estrelas; de Perses e Astéria nasceu Hécate; e de Palas e do Estige nasceram a Vitória, o Domínio, a Emulação e a Violência.

Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 1.2.4 (trad. Sir James George Frazer, 1921)

⚠ E aqui Astéria cai ao lado de Astreu e de Palas, os filhos de Krios, na mesma frase e pelo mesmo motivo: **nomeados só pelo que geraram.** A diferença é que os três não têm um único ato entre si, e ela tem um — **e o ato dela foi sair.**

★ Fica a pergunta em aberto. A tradição posterior e os manuais modernos chamam-na «titânide das estrelas cadentes e da adivinhação noturna»; **nenhuma das fontes conferíveis deste acervo lhe dá função nenhuma.** Ela não profetiza, não brilha, não fala. Faz uma coisa só na vida inteira, e essa coisa é fugir. **Terá sido a fuga, e não a estrela, aquilo que os gregos precisavam explicar?**