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Escorpião

ESCORPIÃO é o inimigo de Órion, e a inimizade está desenhada no céu: as duas constelações ficam em lados opostos, e quando uma nasce a outra já mergulhou. Os antigos leram isso como fuga — o caçador ainda foge do bicho que o matou. Ovídio conta quem o mandou, e a resposta é a Terra.

Constelação de Escorpião 
mitologia grega
Constelação de Escorpião mitologia grega

O bicho que a Terra mandou

Nos Fastos, Ovídio conta a morte de Órion no dia em que a constelação aparece no calendário romano — e a causa é uma gabarolice do caçador, que se dizia capaz de vencer qualquer animal.

A Terra soltou contra ele um escorpião: era o ímpeto dele…

P. Ovidius Naso, Fasti 5.541 (texto latino)

…levar os dardos curvos da deusa que gerou os gêmeos.

P. Ovidius Naso, Fasti 5.542 (texto latino)

«A deusa que gerou os gêmeos» é Leto, mãe de Apolo e Ártemis — e o gesto de Órion era carregar as armas dela, isto é, andar com a caçadora. Nas várias versões, é a proximidade com Ártemis, ou a ofensa à Terra pela matança de animais, o que arma o escorpião.

A perseguição que continua

O que faz este mito ser bom é ser verificável: basta olhar. No hemisfério norte, Órion domina o céu de inverno; Escorpião, o de verão. Um se põe quando o outro nasce, e os dois nunca se cruzam.

É o mesmo tipo de leitura que produziu a Ursa que «vigia Órion» e nunca se molha no Oceano: os gregos contavam histórias que explicavam MOVIMENTO, não apenas forma. Ver Órion e A Ursa.

O bicho que assusta quem dirige o Sol

A melhor aparição do Escorpião na literatura antiga não é a da morte de Órion: é a do menino que pegou o carro do pai emprestado. Faetonte sobe ao céu e encontra, no caminho, um animal ocupando dois signos.

Há um lugar onde o Escorpião curva os braços em dois arcos e, com a cauda e os membros dobrados de um lado e do outro, estende o corpo pelo espaço de dois signos. Quando o menino o viu, escorrendo o suor do veneno negro e ameaçando ferir com o aguilhão curvo, perdeu o juízo e, de terror gelado, largou as rédeas.

Ovídio, Metamorfoses 2.195-2.200 (texto latino)

★ O detalhe é técnico e é verdadeiro no céu: o Escorpião, antes de os romanos recortarem a Libra dele, ocupava **dois signos** — as garras eram o que hoje se chama Balança. Ovídio não está exagerando; está descrevendo o céu antes da reforma. Ver Libra.

E é o susto que causa a catástrofe: o menino larga as rédeas ao ver o bicho, os cavalos disparam, a Terra queima. Toda a geografia calcinada do mundo antigo — o deserto do Saara, a pele dos etíopes — é explicada por Ovídio como consequência de um escorpião no caminho.

O caçador e o escorpião

A história que a astronomia popular repete — Órion morto pela picada de um escorpião enviado por Ártemis, e os dois postos em lados opostos do céu para nunca se encontrarem — vem de Higino e do Pseudo-Eratóstenes, que não estão no acervo de fontes deste site.

⚠ Por isso ela não é contada aqui como se fosse antiga e conferível. O que **está** nas fontes conferíveis é outra coisa, e é mais interessante: Homero conta a morte de Órion sem escorpião nenhum — quem o mata é Ártemis, com «dardos suaves», e o motivo é ciúme divino. Ver Órion.

★ **A observação astronômica, essa, é real e qualquer um a faz:** o Escorpião nasce quando Órion se põe. Os dois nunca dividem o céu. A explicação mítica veio depois do fato — e é assim que quase todo catasterismo funciona.

O que se vê no céu

Escorpião é uma das constelações que mais se parecem com o nome: uma curva longa de estrelas que desce até uma cauda com ferrão. No meio dela há uma estrela vermelha enorme, **Antares** — que em grego quer dizer «rival de Ares», isto é, rival de Marte, pela cor.

★ E a observação que sustenta o mito é esta, e qualquer um a faz: **quando o Escorpião nasce, Órion está a pôr-se.** Os dois nunca dividem o céu. Ver Órion.

⚠ **Esta seção não tem citação antiga, e é de propósito.** Uma constelação é duas coisas: uma história e um desenho. A história deste site sai sempre de uma fonte com endereço; o desenho não se cita — vê-se. O que está acima é o que qualquer pessoa confere olhando para cima, numa noite limpa, sem instrumento nenhum.