O TÁRTARO é a única parte do cosmos grego que vem com medidas, planta e guarda. Não é o lugar para onde vão os mortos — esse é o reino de Hades, e fica acima. O Tártaro é um fosso, com portão de ferro e batente de bronze, e existe para uma finalidade só: guardar o que não pode voltar. Hesíodo o descreve como quem descreve uma obra; Homero, como quem faz uma ameaça.
A distância: nove dias de queda, duas vezes
A poesia grega não diz que o Tártaro é «muito fundo». Ela dá um número, e o número é construído com um objeto pesado e um calendário — a bigorna de bronze que cai.
…tão abaixo da terra quanto o céu está acima dela; pois é essa a distância da terra ao Tártaro. Uma bigorna de bronze caindo do céu por nove noites e nove dias chegaria à terra no décimo; e outra vez, uma bigorna de bronze caindo da terra por nove noites e nove dias…
Hesíodo, Teogonia 720 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
A simetria é o argumento: a distância da terra ao Tártaro é a mesma do céu à terra. O mundo dos vivos fica exatamente no meio, e é essa a razão de a mesma imagem servir a Homero para dizer o quanto Zeus é mais forte que os outros deuses.
…ou o agarrarei e o lançarei no Tártaro sombrio, muito longe, onde é o abismo mais fundo debaixo da terra, cujos portões são de ferro e o batente de bronze, tão abaixo do Hades quanto o céu está acima da terra.
Homero, Ilíada 8.1 (trad. Augustus Taber Murray, 1924)
«Tão abaixo do Hades» — a frase de Homero é a que resolve a confusão de uma vez. O Tártaro não é outro nome do reino dos mortos: fica abaixo dele, e a distância entre os dois é a mesma que separa a terra do céu.
A planta: cerca de bronze e três voltas de noite
Descrito de fora, o Tártaro tem o desenho de uma fortificação — e Hesíodo o descreve com o vocabulário de quem cerca alguma coisa, não de quem enterra.
…chegaria ao Tártaro no décimo. Em volta dele corre uma cerca de bronze, e a noite se espalha em tripla linha ao redor, como uma gargantilha; e por cima crescem as raízes da terra e do mar estéril. Ali, por conselho de Zeus que conduz as nuvens, os deuses Titãs…
Hesíodo, Teogonia 725 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
Guardar «as raízes da terra e do mar» é guardar a imagem inteira: o Tártaro fica embaixo do fundo. A terra é uma superfície com raízes, como uma planta, e o fosso começa onde as raízes acabam.
Por dentro, o tamanho é dito por outro procedimento: o tempo que se leva para cair.
É um grande abismo, e se um homem estivesse uma vez dentro dos portões, não chegaria ao chão antes que um ano inteiro se completasse; mas rajada após rajada cruel o carregaria de um lado para o outro. E esta maravilha é terrível mesmo para os deuses imortais.
Hesíodo, Teogonia 740 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
«Terrível mesmo para os deuses imortais» é a linha que dá a escala moral do lugar. O Tártaro assusta quem não pode morrer — e é justamente por isso que ele serve de prisão para quem não pode morrer.
Os guardas: os cem-braços que mudaram de lado
Depois da guerra contra os Titãs, o Tártaro ganha carcereiros — e são os mesmos Hecatônquiros que Zeus tirou de lá para lutar do seu lado. Quem estava preso passa a guardar a prisão.
…vivem, guardiões fiéis de Zeus que empunha a égide. E ali, cada uma na sua ordem, estão as fontes e os fins da terra sombria e do Tártaro nebuloso e do mar estéril e do céu estrelado — lugar odioso e úmido, que até os deuses abominam.
Hesíodo, Teogonia 735 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
«As fontes e os fins» de tudo estão no mesmo lugar: é o ponto onde o cosmos se amarra. Hesíodo repete essa mesma frase adiante, quando fala do juramento pelo Estige — sinal de que ele a considerava a definição do lugar, e não um ornamento.
…e uma segura para eles a luz que tudo vê sobre a terra, e a outra tem nos braços o Sono, irmão da Morte — a Noite malfazeja, envolta numa nuvem de vapor. E ali os filhos da Noite escura têm as suas moradas: o Sono e a Morte, deuses terríveis.
Hesíodo, Teogonia 755 (trad. Hugh G. Evelyn-White, 1914)
É essa vizinhança que confunde o Tártaro com o reino dos mortos, e vale dizer por que ela não é a mesma coisa: no fundo do mundo moram a Noite, o Sono e a Morte — as potências —, enquanto as ALMAS dos mortos moram na casa de Hades, um andar acima. O Tártaro é o porão dos deuses; o Hades, a casa dos homens que acabaram.